Leandro Karnal: “Sou atacado na internet”
Na programação do Alma Talks, historiador adianta detalhes do próximo livro e fala sobre política, redes sociais e os desafios de um mundo cada vez mais veloz
Mais de 3000 pessoas vão se reunir na Barra com um objetivo em comum no próximo sábado (19): a busca por autoconhecimento e desenvolvimento humano. Durante o Alma Talks, que acontece no Qualistage, estão previstas apresentações de pensadores como Mario Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal, que concedeu uma entrevista a VEJA RIO alguns dias antes do evento.
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O historiador e professor preparou a palestra O Problema Não Passou: O que Fazer Agora?, com a qual busca refletir sobre os desafios emocionais, sociais e profissionais da atualidade. Popular nas redes, o gaúcho radicado em São Paulo está sempre pelo Rio, onde ministrou aulas na Casa do Saber durante dez anos, e guarda no currículo mais de trinta livros — são cerca de 3 milhões de exemplares vendidos de best-sellers como O Inferno Somos Nós (Papirus 7 Mares), escrito com Monja Coen, e O Dilema do Porco Espinho: Como Encarar a Solidão (Editora Planeta).
Na conversa, ele falou pela primeira vez sobre a próxima obra, que será lançada em novembro, Jesus: o Homem que Dividiu o Tempo, e analisou o impacto da religião em um país que se diz laico.
Que problemas são esses que não passam? Todos. Não existe apogeu permanente. A vida é perfectível, ou seja, pode ser aperfeiçoada, mas não é perfeita. Seja por influência cerebral ou religiosa, vivemos em busca de estabilidade e temos a perspectiva de chegar a um lugar onde não existam mais desafios. Marx chamou de comunismo, os católicos chamam de paraíso — mas isso não existe. Nunca acharemos solução para tudo.
Como as redes sociais ampliam esse sentimento de falta de plenitude? Houve uma dissolução entre o real e o narrativo. Eu vejo o outro, avalio os closes e não vejo os corres. Ao contrário do que imaginam, isso não aumentou o narcisismo. O que está crescendo é a insegurança — esta, sim, depende da validação do outro. Ao fazer uma palestra, não sou mais apresentado como alguém que fala línguas ou fez doutorado, mas que tem 11 milhões de seguidores.
Qual é o perigo do mercado se render a isso? A lógica segue a mesma. Antes, quem tinha mais tempo na tela não estava ali por ser bom, mas por se comunicar bem com os espectadores. Mesmo um ator clássico, como o inglês Laurence Olivier, que venceu o Oscar por Hamlet, não estava em alta pelo seu método. Beleza, corpo e carisma sempre foram mais importantes. Acontece que agora a moeda é a internet, e quem norteia o consumo são os influenciadores.
Ainda é possível buscar o sentido da vida em meio a um cenário em constante mudança? Para Sartre, essa é uma responsabilidade individual. Viver para educar os filhos ou lutar por justiça social são escolhas válidas, mas inventadas por cada um. Não está escrito nas estrelas, assim como não existem sinais — a não ser que eu decida que eles são proféticos. Mudanças sempre aconteceram, mas o surgimento do fogo ou o desenvolvimento da escrita foram saltos que o ser humano teve mais tempo para se acostumar. Em um mundo líquido, a velocidade enfraquece referências instáveis. É a primeira vez na História, por exemplo, que temos alunos sabendo mais do que professores.
Por isso decidiu extrapolar o meio acadêmico? Fui muito feliz com o papel que exerço há 43 anos, mas passei a achar a sala de aula insuficiente. As palestras ampliam o alcance. Há uma unicidade entre os presentes, baseada no conceito de circularidade: a plateia se entusiasma comigo e vice-versa. Também aprendo muito com os meus companheiros, que trazem diferentes escolas de pensamento. Acho maravilhoso que professores como Cortella, Clóvis e eu sejam reconhecidos enquanto figuras públicas.
Por que um homem que se diz sem fé se aprofundou tanto nos estudos religiosos? Sou como um ginecologista: trabalho com o que não tenho (risos). Tenho interesse em conhecer algo que influencia tanto o mundo. Venho de família católica, fui sacristão, cantor e tocador de órgão em igreja, seminarista jesuíta e meu doutorado é sobre o tema. Mas isso não significa que eu creia em uma realidade sobrenatural. Quando dei um curso de mitologia, ninguém me perguntou se eu acreditava em Zeus.
Foi surpreendido na pesquisa sobre Jesus? Descobri que ele talvez não tenha sido carpinteiro, pois viveu em uma cidade de 200 a 400 habitantes. Não havia mercado. E a palavra grega tekton, que aparece na Bíblia, significa faz-tudo ou construtor — sentido que aparece em suas metáforas, como a do homem sábio que edificou sobre a rocha. A principal conclusão é de que ele foi uma tela em branco: cada época pintou o Jesus que precisava.
Se ele vivesse hoje, como seria? Tenho certeza de que não iria a nenhuma igreja. Em São Paulo, Jesus estaria na Cracolândia. Ele sempre esteve com prostitutas e cobradores de impostos — pessoas sem poder e alvo de preconceito. Nos Evangelhos, ele não buscava as instituições de poder, mas aqueles que viviam à margem. Se mantivesse o mesmo discurso, iria ao encontro da “humanidade quebrada”.
Onde se traça o limite entre religião e política? Isso está cada vez pior. Há mais rádios e canais de TV religiosos do que na década de 1960, quando não havia uma bancada da Bíblia no Congresso. Toda vez que há essa aproximação do poder, surge um risco — Brasil e Estados Unidos, embora historicamente laicos, estão mais próximos da teocracia do que alguns países fundamentalistas. E como sempre ocorreu por aqui, símbolos religiosos coexistem com comportamentos antiéticos: posso ter um salmo no perfil do Instagram e desviar dinheiro público.
Como está a expectativa para o ano eleitoral? A campanha deixou de ser um espaço de debate de ideias e se tornou um terreno de acusações pessoais e manipulação de informações, agora com o impacto da IA. Questões importantes, como saneamento e política portuária, ficam de lado, enquanto pautas morais e familiares dominam o discurso.
Está otimista em relação ao futuro? Sou muito esperançoso. Lido com jovens e com o mundo real, que é bem diferente do universo das redes, mais cáustico e fantasiosamente violento. Sou atacado na internet, mas quando encontro pessoas na rua, no shopping ou no cinema, recebo carinho e afeto. O Brasil real é melhor do que o virtual, e a nova geração é melhor do que a minha. Temos dificuldade de entender o que há de novo, enquanto eles nos obrigam a repensar tudo constantemente.







