Gustavo Pinheiro completa 1 milhão de espectadores no teatro
Quando grandes atores buscam um novo desafio nos palcos, recorrem ao dramaturgo carioca que escreve personagens para quem vai interpretá-los
Dia desses, numa mesa do Jobi, no Leblon, Gustavo Pinheiro papeava com uma grande amiga dos tempos de Santo Agostinho quando foi interrompido por um colega de classe que não via há três décadas.
“Tá fazendo o quê?”, perguntou o entrão. Jornalista de formação, Pinheiro começou a escrever para teatro uma década atrás. De lá para cá, amealhou diversos troféus e suas treze peças — onze originais e duas traduções — acumulam 1 milhão de espectadores.
“O Gus está trabalhando com teatro”, contou a amiga. “Bom, mas isso ele já fazia”, retrucou o homem, ao relembrar que o autor, na adolescência, arrombou a sala de espetáculos do tradicional colégio logo ali, no mesmo bairro, para promover um festival.
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Vista assim, sua trajetória até parece linear, mas antes de se entregar de vez à ficção ele passou pela redação do jornal O Globo, da revista VEJA e foi assessor de imprensa na FSB.
“Em 2014, estava saturado do trabalho. Vi uma notinha no jornal sobre um concurso do CCBB para novos autores e pensei: ‘Pô, tá aíí”, recorda.
Ao desbancar 250 concorrentes, ganhou como prêmio montar o próprio texto. A Tropa, protagonizado por Otávio Augusto, estreou em 2016 com a promessa de dois meses em cartaz e se manteve nos palcos até 2025.
E a trama vai virar filme, com produção de Antonio Fagundes — uma das estrelas de Dois de Nós, mais uma obra de Pinheiro, que acaba de estrear no Teatro Casa Grande depois de ser vista por 300 000 pessoas entre Brasil e Portugal.
Pois aquela aposta, feita debruçado sobre uma pequena nota de jornal, acabou abrindo caminho para um dos dramaturgos mais requisitados da cena brasileira hoje.
Antes de alcançar tal lugar, porém, ele precisou aprender uma lição que extrapola a dramaturgia — boas histórias também dependem de quem topa contá-las na ribalta.
Em 2017, depois de estudar com nomes como Robert McKee e Aguinaldo Silva, Pinheiro percebeu que o próximo passo não estava mais na sala de aula — precisava aproximar seus textos de grandes intérpretes.
Resolveu então apostar na estratégia mais simples e também mais ousada. Pegou o telefone de Fagundes com uma amiga jornalista, mandou uma mensagem na cara dura para o ator, se apresentou e o convidou para assistir a seu espetáculo de estreia. Deu certo e, bem impressionado, Fagundes marcou um jantar.
“Além das adaptações cinematográficas de Dois de Nós e A Tropa, temos o inédito Prova de Amizade”, celebra o ator. Esse último é uma produção da Globo Filmes e terá Tony Ramos dividindo o set com o amigo de longa data.
“Gustavo poderia pensar em escrever uma novela. Ele tem um tempo dramático muito bom nos diálogos”, enaltece Tony, o Otoniel de Quem Ama Cuida, a trama global das 9.
O percurso dos palcos à telinha existe desde que a televisão chegou ao Brasil. Entre as décadas de 1950 e 1960, o Grande Teatro Tupi transportou para a TV clássicos de Ibsen (1828- 1906) e Pirandello (1867-1936). Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Nathalia Timberg integravam os elencos.
“A gênese do cinema passa pela progressão de personagens do teatro grego”, explica José Alvarenga Júnior, diretor de Prova de Amizade e da versão televisiva de A Lista, projeto que uniu o dramaturgo, Lilia Cabral e filha, Giulia Bertolli, em plena pandemia, inicialmente no formato então em voga, o teatro on-line.
“Fizemos sem pensar no futuro, mas, ao estrear, percebemos que as pessoas queriam assistir. Não imaginávamos que haveria temporada com plateia e que viraria livro e filme”, conta Lilia.
O percurso trilhado por mãe e filha, que foram até Pinheiro em busca de algo sob medida, acabou se tornando uma constante nesses últimos dez anos.
Na última sexta (24), Pinheiro recebeu em sua cobertura na Gávea, onde vive com o marido e a vira-lata Musa, um ator e uma atriz, cujas identidades prefere não revelar, para pensar em algo novo para os palcos.
Foi assim também com Curto-Circuito, monólogo em que Luiz Fernando Guimarães festejou cinco décadas de humor, e Avesso do Avesso, com Marcelo Serrado e Letícia Spiller.
“O Brasil é farto em atores e diretores, mas existe uma lacuna de autores. Temos uma nova geração em ascensão, mas muita gente ainda compra textos estrangeiros”, reflete Pinheiro, após construir uma reputação rara: a de dramaturgo capaz de escrever personagens femininas complexas, contraditórias e profundamente humanas.
“A dramaturgia dele nos faz reconhecer a alma feminina em toda a sua dor e delícia”, avalia Adriana Garambone, em cartaz no Teatro Fashion Mall com Uma Vida de Amizade, cuja temporada foi prorrogada até o fim de agosto e depois vai girar mais uma vez pela Europa.
Na trama, três ex-modelos dos anos 1990, que dividiram sonhos e um pequeno apartamento em Paris, cumprem o ritual de se encontrar a cada ano. Entre crises, revelações inesperadas e muito humor, o texto observa com sensibilidade a força feminina, o envelhecimento sem amarras nem padrões e a solidez de uma amizade que resiste ao tempo.
“Desde criança, vivo cercado de mulheres — até como uma maneira de me defender de bullying no colégio. Até hoje tenho grupos de escola, faculdade e trabalho nos quais sou sempre o único homem”, explica o dramaturgo, que sonha em colaborar com Arlete Salles, Natália do Vale, Debora Bloch, Eliane Giardini e Drica Moraes. “Venho namorando essas atrizes há um tempo”, diz.
Em geral, as peças de Pinheiro seguem um modelo: histórias íntimas em ambientes contidos — A Tropa se passa num quarto de hospital, Dois de Nós em um hotel e A Lista dentro de um prédio —, que exploram transformações sociais a partir de detalhes da vida cotidiana e saltam da comédia ao drama. “Tem uma pedra no rim que aparece em Dois de Nós que é minha”, diverte-se Manuel Valle, marido do dramaturgo.
“Gosto muito dessa gangorra. O público ri, ri, ri… E, quando acha que vai rir mais uma vez, eu puxo o tapete”, explica Pinheiro, destacando a influência do vocabulário cuidadoso de Gilberto Braga e da delicadeza de Manoel Carlos em seu trabalho.
“Da falange de Mauro Rasi, ele traz frescor, vivacidade e um humor ferino”, arremata Christiane Torloni.
Embora não tenham nascido em terras cariocas, dramaturgos do quilate de Artur Azevedo (1855-1908) e Nelson Rodrigues (1912-1980) foram aqui radicados e souberam transmitir em seus textos as idiossincrasias cariocas, criando obras universais.
Herdeiro dessa tradição, o autor bebe da fonte desses mestres e atualiza a experiência de escrever para teatro ao participar dos ensaios e aperfeiçoar o texto ao longo do processo de montagem.
“Antigamente, isso era raro. Falava-se que a pior coisa era montar a obra de um autor vivo, porque não havia liberdade. Gustavo lapidou o espetáculo conosco. É uma tendência dessa nova geração”, lembra José Possi Neto, diretor de Dois de Nós. O palco, para ele, é uma continuação natural da página.
A jovem turma de dramaturgos da qual faz parte encontra o setor em plena ebulição: em 2025, 1 073 produções apresentaram projetos à Secretaria Municipal de Cultura, ante os 722 do ano anterior, um avanço de 39%.
“O teatro continua sendo um meio potente e singular de reunir pessoas com diferentes perfis e sensibilidades”, define Cesar Augusto, encenador de A Tropa e Alair (2017).
Alguns profissionais ponderam que, apesar da efervescência do circuito comercial, com plateias constantemente lotadas em musicais, comédias escapistas e biografias, sobra pouco espaço para textos originais e clássicos de maior densidade.
Há tempos não se vê nas ribaltas cariocas um texto do americano Tennessee Williams (1911-1983), autor de Um Bonde Chamado Desejo, vencedor do Pulitzer, de Arthur Miller (1915-2005), de As Bruxas de Salém, e até mesmo de Shakespeare (1564- 1616). É justamente nesse cenário que sua dramaturgia ganha ainda mais relevância.
“Os produtores evitam obras sérias porque acreditam que não há bilheteria para isso. Pois, justamente por não existirem esses espetáculos, não há formação de público”, ressalta Daniel Herz, diretor, autor, ator e professor de teatro da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). “Gustavo quebra uma certa superficialidade nesse panorama. É um autor vivo, que traz inquietude e profundidade”, diz.
Apesar da alta produtividade, para ele o processo criativo se desenrola com maturação lenta. Pinheiro não é do tipo que se senta em frente ao computador e espera aquele clique de inspiração. “Ele não tem essa disciplina”, entrega o marido.
Antes de pôr a mão na massa, fica maquinando mentalmente os personagens e seus arcos dramáticos. E cultiva lá seus hábitos para arejar o cérebro — a viagem anual a Nova York, onde assiste a diversas peças, tanto na Broadway quanto no circuito alternativo, é sagrada.
“Ele estuda e se dedica muito. Desde o nosso primeiro encontro, dizia que seu sonho era viver da escrita”, conta Manuel.
Ainda na infância, uma montagem de Fica Comigo Esta Noite — escrita por Flavio de Souza e estrelada pelo agora colega Luiz Fernando Guimarães e por Debora Bloch — foi a primeira peça adulta a que assistiu.
“Eu devia ter uns 9 anos e me lembro de ouvir as risadas e querer fazer parte daquela turma. Só precisei dar uma volta um pouquinho maior”, diz o autor. A volta foi longa, mas o levou exatamente ao lugar a que imaginava chegar.
Aos 45 anos, com filmes em produção, temporadas concorridas e agenda disputada por alguns dos maiores nomes da cena nacional, aquele garoto que um dia arrombou o teatro do colégio para montar um festival segue fazendo o mesmo: criando boas histórias para a plateia ver — e aplaudir.
Ph.D. em alma feminina
O que as musas de Gustavo Pinheiro dizem sobre ele:
“É uma dramaturgia que nos faz rir, pensar e, sobretudo, reconhecer a alma feminina em toda a sua dor e toda a sua delícia”, Adriana Garambone (Uma Vida de Amizade)
“Gustavo é um autor contemporâneo. Pode até falar sobre o passado, mas está sempre à frente. O texto dele não tem enganação. É profundo, de uma verdade absoluta”, Lilia Cabral (A Lista)
“Em termos de produtividade, Gustavo é fora da curva. Além disso, sabe lidar muito bem com o feminino. Não vejo a hora de estrearmos”, Patricya Travassos (As Debutantes)
“Ao longo de mais de quatro anos temos recebido mensagens muito tocantes. Saúde mental é um assunto urgente. A peça é uma missão e temos certeza de que vai virar filme”, Mariana Xavier (Antes do Ano que Vem)
“Depois da primeira leitura, ele ouviu a nossa voz e adaptou o texto. Entendeu os nossos trejeitos, a embocadura, a musicalidade e conseguiu colocá-los na tradução”, Nathalia Dill (Três Mulheres Altas)
“Ele confiou em mim antes mesmo que eu pudesse fazê-lo. A paixão pela arte nos uniu, mas com o passar do tempo viramos cúmplices, amigos e confidentes”, Alexandra Martins (Dois de Nós)
“A audiência se enxerga no palco. A gente sai do espetáculo mais conectada à vida e ao tempo dela”, Júlia Rabello (Romeu & Julieta (e Rosalina)
Campeãs de bilheteria
As peças do dramaturgo com maior número de espectadores:
300.000
Até 1º de novembro no Rio, Dois de Nós traz dois casais de diferentes gerações que se encontram num quarto de hotel e entram em uma discussão geracional sobre relacionamentos. Antonio Fagundes, Christiane Torloni, Alexandra Martins e Thiago Fragoso integram o elenco.
120.000
A Tropa, que marcou a estreia do dramaturgo, acompanha um pai autoritário em meio a tempos de polarização política. No papel, Otávio Augusto recebe a visita de seus quatro filhos no hospital.
100.000
Em A Lista, Lilia Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha, interpretam, respectivamente, uma professora aposentada rabugenta e sua jovem vizinha com um vínculo improvável em plena pandemia.
100.000
Três Mulheres Altas, texto de Edward Albee, vencedor do Pulitzer, traduzido por Pinheiro, é um drama psicológico sobre envelhecimento de mulheres em fases diversas da vida.
80.000
Mariana Xavier interpreta uma faxineira em Antes do Ano que Vem. Ela assume o plantão de uma central telefônica de ajuda psicológica no réveillon, quando a responsável não aparece, e faz todo mundo rir.
O Rio em cena
A nova geração de autores fluminenses no teatro e na TV
Raphael Montes. Conhecido por suspenses de linguagem direta e temas complexos, o escritor e roteirista escolhe a Cidade Maravilhosa como cenário da maior parte de suas histórias — seja as ruas de Copacabana, no romance Jantar Secreto, seja as do subúrbio, no folhetim Beleza Fatal. O projeto mais recente dele é Elize: Sombras de uma Mulher, da Netflix.
Lucas Paraizo. O roteirista construiu carreira entre o cinema autoral e a teledramaturgia. Assinou roteiros de filmes como Gabriel e a Montanha e Divino Amor, além de criar, para a Globo e o Globoplay, a série Os Outros. Colaborou com Cauã Reymond no drama esportivo Jogada de Risco, já no Globoplay.
Cláudia Jouvin. Suspense psicológico, humor ácido e melodrama são alguns dos estilos preferidos da carioca, que assina o roteiro de séries como Dias Perfeitos, Sob Pressão e Mister Brau. O próximo lançamento é o longa Antártida, estrelado por nomes como Leandra Leal, Andrea Beltrão e Lázaro Ramos, previsto para estrear nos cinemas em setembro.
Julia Spadaccini. Alterna o palco e a tela com igual desenvoltura: é autora de mais de vinte peças e acumula os prêmios Shell, Abra, APTR e Bibi Ferreira. Na televisão, assinou roteiros de Tapas & Beijos e Amorteamo, e é uma das criadoras, ao lado de Jô Bilac, da premiada série global Segunda Chamada. Deficiente auditiva, escreveu o monólogo Surda, estrelado por Benedita Casé.
Igor Verde. Criado no Complexo do Alemão, o contador de histórias transforma vivências de terreiro e periferia em narrativas sobre identidade, ancestralidade e crítica social. Ele dirigiu episódios de Capoeiras, do Disney+, assina o roteiro de Reencarne, no Globoplay, e é criador, ao lado de Gustavo Bragança, de Fúria, que estreou na Netflix.
José Junior. Há 33 anos, ele fundou a ONG Afroreggae para desenvolver um trabalho social, cultural e artístico em Vigário Geral. Com o passar dos anos, o projeto deu origem a uma das produtoras mais profícuas do Brasil. No Globoplay, pode-se assistir a A Divisão, O Jogo que Mudou a História, Arcanjo Renegado e Betinho: no Fio da Navalha.





