“Dizer não é libertador”, garante Marcelo Serrado

Após enfrentar crises de pânico e burnout, o ator transforma a experiência em livro e documentário e fala sobre saúde mental e limites

Por Renata Magalhães 2 out 2026, 09h36
Homem de meia-idade, cabelos grisalhos e barba rala, vestindo uma blusa preta de manga comprida, olhando diretamente para frente com expressão neutra, em um fundo amarelo claro
Marcelo Serrado: “Muitos homens ainda têm dificuldade de pedir ajuda por causa do machismo” (Leo Aversa/Divulgação)
Continua após publicidade
“Dizer não é libertador”, garante Marcelo Serrado Priorizar nos meus resultados Google

Durante a segunda onda da pandemia, em dezembro de 2020, Marcelo Serrado estava hospedado em um hotel no Rio para as gravações do Dança dos Famosos quando seu corpo deu sinais: o lábio começou a tremer, as mãos formigaram e o peito apertou como num infarto. Era a primeira vez que o ator vivia uma crise de pânico. Após anos de análise, ele próprio se deu alta dos medicamentos. Até que, em 2024, numa viagem de férias com a família para a Disney, um burnout desencadeou novos episódios. “Cheguei a pensar em alugar um carro em Miami para voltar ao Brasil, porque não conseguia enfrentar o avião”, conta.

+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

Depois de levar o tema da saúde mental para a peça Terapia, ele acaba de lançar o documentário e o livro Fora do Roteiro (Editora Sextante, R$ 59,90), nos quais mostra a realidade quando as cortinas se fecham. Cria da Casa de Arte das Laranjeiras, o carioca de 59 anos tem no currículo grandes produções e é lembrado até hoje pelo Crô, de Fina Estampa (2011), que esteve recentemente em Três Graças, novela das 9. De seu apartamento no Flamengo, o pai de Catarina, de 21 anos, e dos gêmeos Felipe e Guilherme, de 13, relembrou o bullying vivido na infância e contou como a doença psiquiátrica o transformou. 

Continua após a publicidade

Por que dividir algo tão particular com o público? Fui inspirado por relatos de nomes como Simone Biles, Gabriel Medina e Jim Carrey. A chave virou quando, depois de dar uma entrevista ao Fantástico, uma senhora me abordou no aeroporto não para pedir foto, mas para agradecer por eu ter compartilhado minha experiência. Percebi que poderia transformar essa exposição em um serviço, sobretudo para os homens. Muitos ainda têm dificuldade de pedir ajuda por causa do machismo.

O que te ajudou durante o tratamento contra as crises de pânico? Além de remédio e terapia, a hipnose e o mindfulness foram importantes. Aprendi ferramentas para lidar com situações que poderiam desencadear uma crise, como entrar em um avião. Só que nem todo mundo tem acesso a isso. São quase 20 milhões de indivíduos no Brasil que convivem com algum problema de saúde mental. As pessoas imaginam que um ator com uma vida aparentemente estruturada não sofre com isso, mas são questões que não escolhem classe ou profissão.

Continua após a publicidade

Já teve algum episódio no trabalho? Curiosamente, não. Tive um princípio durante a novela mas o diretor soube me ajudar. Elas aparecem justamente no descanso, o que me fez pensar sobre a importância do ócio e de não tentarmos transformá-lo em algo produtivo.

Mas foi um burnout depois de Beleza Fatal que desencadeou novos episódios de crise… Sim, e isso me ensinou sobre os meus limites. Enquanto estava gravando o filme da Marília Mendonça, recebi um convite para um projeto incrível, mas falei para chamarem outro ator. Dizer não é libertador.

Foi a coisa mais difícil que já viveu? Sem dúvidas. Você sente a morte muito perto, como se estivesse indo embora e não fosse conseguir voltar. É quase uma “bad trip”. O medo é tão intenso que algumas pessoas chegam a tirar a própria vida. Mas aprendi que é preciso reconhecê-lo, sem deixar que ele tome conta. O pânico é quase uma entidade que se apodera de você e é preciso um trabalho para não ser dominado. O mindfulness ensina a estar com a mente plena para lidar com o momento.

Continua após a publicidade

Como a experiência te transformou? Passei a valorizar mais as pequenas coisas. Também me tornei mais atento ao outro. Uma vez, um motociclista me xingou no trânsito e, em vez de revidar, tentei acalmá-lo e até pedi um abraço. Não sou um cara perfeito, sou conhecido por às vezes negar uma foto, mas naquele dia quis transformar o ódio numa coisa boa. Talvez, sem tudo o que eu vivi, tivesse entrado na briga.

Por que acha que a peça Terapia causa tanta identificação? Durante o espetáculo, pergunto quem já fez análise e sempre uma parcela significativa levanta a mão — mesmo que em locais de mais baixa renda esse número diminua. O assunto conecta, até porque ninguém saiu 100% da pandemia.

O Crô voltou em Três Graças. Não cansa de ficar associado a ele? Não, isso é motivo para celebrar. Ele chegou a um lugar maior do que eu, assim como a Nazaré Tedesco é maior do que a Renata Sorrah. E agora eu alcancei um público jovem, que me viu quando era pequenininho na TV aberta, mas me conheceu mesmo em Fui ao show da Lady Gaga com a minha filha, e um grupo logo começou a gritar “Gay! Gay! Gay!”

Continua após a publicidade

 

Como a arte ajudou a superar os desafios da infância? Eu era tímido, gago, tocava gaita, olhava para baixo e tinha dificuldade de me aproximar das meninas. Sofri bullying. Quando entrei no teatro, tive uma revelação. Pensei em desistir várias vezes, por conta da dificuldade da profissão e porque no começo eu não era tão bom, mas trabalhar com Zé Celso (Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina) me transformou num ator que se arrisca. Jamais poderia ter feito Crô sem passar por ele.

Continua após a publicidade

O que ainda ficou daquele menino em você? O desejo de ser validado. Às vezes, ainda me pego perguntando o que os outros acharam de algo que fiz, mas a verdade é que nao importa se gostaram ou não.

Que tipo de pai busca ser? Tento ser mais amoroso, sou de beijar, abraçar e colocar no colo — demonstrações que não eram comuns na minha infância. Nossa educação é antimachista e a pauta é muito forte em casa, pois a Roberta (Fernandes, esposa de Marcelo) sofreu diretamente com isso: Aos 16 anos, levou um soco no rosto e perdeu todos os dentes da frente por recusar um convite para dançar. Ainda me pego reproduzindo alguns discursos, principalmente no futebol, mas faço um exercício diário.

Você optou por não declarar publicamente o seu voto. Como está a expectativa para as próximas semanas? A escolha se deu porque há um custo, ainda mais para quem sofre com saúde mental. Mas estou tenso como todo mundo, querendo manter a nossa democracia, que é fundamental para um país ter liberdade. Vivemos um momento único e não podemos nos esquecer das coisas gravíssimas que aconteceram no passado, para não voltar para elas. Hoje, temos a possibilidade de falar, debater, criticar, ir e vir, com uma imprensa libertária. Temos que tomar muito cuidado para isso não acabar do nada.

Publicidade

Essa é uma matéria fechada para assinantes.
Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Multidão em protesto na rua, com pessoas de costas e braços erguidos, e capas da revista Veja com manchetes sobre política e notícias, promovendo jornalismo de qualidadeMultidão de pessoas de costas, com braços erguidos, em uma rua urbana com prédios altos e árvores. À direita, várias capas da revista Veja sobrepostas, com títulos como Furo Cruzado e Vale-Tudo
Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 32,90/mês