Dan Stulbach: “Gosto mais dos vilões”

Sucesso como o advogado inescrupuloso de Quem Ama Cuida, o ator fala sobre preconceito, envelhecimento e a relação entre vida pessoal e exposição pública

Por Renata Magalhães 30 out 2026, 10h57
Homem de meia-idade, cabelo e barba grisalhos, vestindo camisa branca de manga curta e calça azul-marinho folgada, em pé contra um fundo amarelo claro
Dan Stulbach: “Quero que as pessoas me conheçam menos para acreditar mais nos meus personagens” (Marcio Farias/Divulgação)
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Na pele de um dos personagens mais marcantes da dramaturgia brasileira, Dan Stulbach protagonizou cenas chocantes de violência doméstica em Mulheres Apaixonadas. Exibida pela Globo em 2003, a novela de Manoel Carlos revelou uma realidade pouco explorada até então na TV, que ampliou o debate e culminou na criação da Lei Maria da Penha.

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Duas décadas depois, ele volta a encarnar um facínora: em Quem Ama Cuida, Ademir é condenado por assédio sexual e preso em flagrante após agredir o filho, vivido por Chay Suede. Ainda que colecione dezenas de papéis na TV, no teatro e no cinema — incluindo o amigo de Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui —, é pelos vilões que Dan é mais lembrado. E tudo bem, afinal são eles que mais interessam ao ator paulistano de 57 anos.

No sábado (7), ele reestreia o espetáculo O Mercador de Veneza, no Teatro Axia Casa Grande, uma releitura do clássico de Shakespeare, ambientado nos anos 1990, na qual encarna o agiota judeu Shylock. A montagem, em cartaz há quase dois anos, o ajudou a refletir sobre o passado de sua família — imigrantes poloneses perseguidos durante o Holocausto —, como contou em conversa com VEJA RIO, durante um dos intervalos de gravação nos Estúdios Globo.

Como fugir da caricatura ao interpretar um personagem como Shylock? Fazemos uma leitura mais humana dos personagens: todos são vilões e heróis em seus contextos. Você pode não concordar com determinada atitude, mas entende o que motivou aquilo. O Shylock já foi interpretado de maneiras mais caricatas, e quis fugir de qualquer clichê. Para além da questão dos judeus, nos interessa discutir o preconceito em relação a todas as minorias — e isso é mais eficiente quando causa reconhecimento. Afinal, você pode encontrar muitos como ele no elevador do seu prédio.

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Trazer a peça de Shakespeare para os anos 1990 revelou novas camadas? A época remete a um estouro da bolsa de valores e mantém a negociação do dinheiro em evidência. Um período suficientemente distante, mas próximo o bastante para dialogar com o presente. É uma era pré-celular, apesar de termos uma filmagem ao vivo que funciona como segunda tela, comentando a cena. É legal ver como isso reverbera principalmente na galera mais nova, que está acostumada a dividir a atenção.

Como sua história familiar se reflete neste trabalho? Vi O Mercador de Veneza pela primeira vez com o Al Pacino na Broadway e nunca me imaginei fazendo esse papel. Com Shylock, comecei a reconhecer gestos e reações do meu pai e do meu avô, que viveram o antissemitismo de maneira direta. A experiência me permitiu iluminar lugares dentro de mim que talvez mantivesse escondidos de forma inconsciente. Esse processo também toca o público (judeu ou não) pela identificação com o não pertencimento e pela compreensão do preconceito.

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Já viveu algum episódio de intolerância? Tenho diversos privilégios na sociedade brasileira e a consciência de que qualquer situação que eu possa ter vivido é leve perto do que grande parte da população enfrenta diariamente. O antissemitismo está dentro de um contexto histórico de preconceito, que atinge não só os judeus, mas todas as minorias.

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Por que acha que é escalado para viver tantos vilões? Hoje mesmo estava almoçando com a Tata (Werneck) e ela me perguntou se eu já tinha feito algum mocinho na vida (risos). Sim, interpretei homens bons em Senhora do Destino e Fina Estampa. Mas gosto mais dos vilões, de provocar quem está assistindo, questionar a ética, nossos comportamentos e as ideologias. Não tenho medo de ser confundido com meus personagens e perder seguidores no Instagram.

Em Quem Ama Cuida, você volta à discussão da violência doméstica, que começou há mais de vinte anos em Mulheres Apaixonadas. O que mudou desde então? Quando fiz o Marcos, o assunto ganhou uma repercussão enorme. Até então, a maioria dos casos retratados eram homens bêbados de classes mais baixas. Ele era branco, rico e socialmente habilidoso, e isso causou um choque. Fui muito assediado nas ruas — e continuo sendo por conta do Ademir. Poucos anos depois da novela, foi promulgada a Lei Maria da Penha e tínhamos a esperança de que a realidade mudaria. Hoje, mais casos são revelados, mas a situação está longe de ser erradicada. Há discursos políticos e ideológicos que tentam diminuir o papel da mulher de forma mais retrógrada do que há vinte anos.

A temida raquete, usada por Marcos contra a esposa, reapareceu no atual folhetim das 9. A memória coletiva pode dar um novo significado a uma cena? A ideia não foi minha, vamos deixar isso claro (risos). Mas achei interessante essa inversão simbólica. Quis estabelecer um diálogo com o espectador, sem precisar ser explícito nem transformar o Ademir no Marcos. Colocar a raquete nas mãos da mulher também é uma vitória, como uma reparação histórica. Foi especial homenagear um personagem que permanece no imaginário e lembrar de quem eu era naquela época, tão sem medo e cheio de vontades.

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Como é sua relação com o envelhecimento? Todo ator é um guerreiro contra o tempo. Ele muda nosso rosto e corpo, e por consequência os nossos papéis. O Brasil é um país etarista e o peso sobre as mulheres é muito maior, mas quero envelhecer bem. Faço exercício todos os dias, sigo uma rotina de cuidados com a pele e fiz laser pela primeira vez antes dessa novela. Sou vaidoso e acho que me cuidar é uma forma de respeito a mim e ao público. Tento manter viva também a minha curiosidade. Depois dos 50, a lista do que ainda quero fazer ganha outra urgência.

O que a vertente comentarista, no programa de rádio Fim de Expediente, da CBN, agrega para além da atuação? Tenho a possibilidade de opinar, fazer perguntas que normalmente não me fazem e conversar sobre assuntos que quero discutir. É um espaço para encontrar pessoas interessantes e ser eu mesmo, sem texto. A rádio me treinou para administrar melhor meu tempo de fala e ter mais domínio do que é dito sem ser pensado previamente. Há uma parcela do público que me trata como amigo por me ouvir nessas duas décadas.

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Você vive uma vida muito discreta. Como consegue manter isso em um mundo hiperconectado? Não é difícil. Eu só não uso meus filhos para ganhar mais seguidores. Tem gente que faz isso, e tudo bem. Minha mulher também não gosta dessa exposição. Quero que as pessoas me conheçam menos para acreditar mais nos meus personagens. Isso é mais sobre a minha personalidade do que um projeto de carreira.

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