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De: Nélina Pinõn / Para: Clarice Lispector

Imortal da ABL escreve texto exclusivo para a escritora falecida em 1977, que completaria 100 anos de vida em dezembro

Por Nélida Piñon Atualizado em 18 set 2020, 15h14 - Publicado em 18 set 2020, 07h00

Nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, a escritora Clarice Lispector faleceu em 1977, aos 56 anos, no Rio, em decorrência de um câncer no ovário. Deixou uma vasta obra literária, muitos questionamentos e poucos e bons amigos, como a também escritora e imortal da ABL Nélida Piñon, que esteve ao seu lado até o último dia de vida. À Clarice, ela escreveu uma carta inédita, publicada com exclusividade por VEJA RIO.

“Amiga, em dezembro o Brasil e o mundo celebrarão o centenário de seu nascimento. Não exagero ao afirmar que outras terras pagam-lhe tributo. E isso porque sua obra fez de você uma mulher universal. Sua efígie, ora estampada nos jornais e revistas, mostra uma Clarice enigmática, bela, com olhos oblíquos, de traços ligeiramente orientais.

Sei que devo saciar sua curiosidade. E contar-lhe que seus admiradores, querendo dar-nos a ilusão de ainda se encontrar entre nós, inauguraram uma estátua sua, de corpo inteiro, na calçada da Avenida Atlântica, cerca de sua casa. Dizem que alguns a visitam na expectativa de ouvi-la.

Mas não posso poupá-la das desditas nossas. A mais recente refere-se a uma epidemia que se alastra pelo planeta a ameaçar a sobrevivência da espécie. É tal seu efeito letal que nem a ciência, os poderes públicos nos socorrem. E menos ainda a tecnologia que vinha pregando sermos imortais. Ah que ledo engano.

Por comando generalizado, há meses estamos encerrados em nossos tugúrios. Forçados à solidão absoluta, ao convívio familiar nem sempre amistoso, privados da liberdade, do pão que escasseia. Sobretudo aguentando o fardo de nossas almas que nem sabíamos ter. É uma clausura equivalente aos mosteiros medievais, mas talvez sem o consolo de Deus.

Estou ao abrigo do lar. Daqui faço considerações que alarguem seus horizontes, simples porções da realidade atual, da civilização brasileira. Confesso-lhe que o Brasil mudou muito desde que nos deixou em 1977, e tanto que mal vislumbro seus escaninhos, a matéria que nos constitui.

Pois como entender as transformações sofridas se os rastros deixados foram sendo apagados, em consonância com nossa volúpia de desrespeitar a identidade nacional. Sob o risco portanto de se forjar uma sociedade à mercê do caos. Talvez me exceda, perco a dimensão do que é cívico, moral, institucional. Mas vítima que sou do curso da história, sucumbo ante a crescente intolerância, a radicalidade ideológica, a corrupção desenfreada, a escassa civilidade. O que dizer da violência urbana e doméstica, da crença de ser mais fácil odiar que amar.

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Como filhas de imigrantes defendemos a justiça social em vários momentos públicos. Acreditávamos que a  educação e a cultura podiam arrancar os brasileiros do degredo da ignorância ao lhes facultar o conhecimento libertário. Pois urge preencher as lacunas oriundas das desigualdades sociais e restaurar a dignidade humana. Neste capítulo, aliás, os escritores seguem resistindo, como você o fez. Fiéis à arte, à linguagem que arrola os sentimentos segundo a carga poética da sensibilidade pátria. Com intérpretes do Brasil, junto com as demais consciências vivas, damos combate à barbárie em curso no mundo.

O que nos mantém alerta, querida Clarice, é a atração pela luxúria do corpo e do espírito, é o repertório dos prazeres regidos pelo dom da vida. Aqueles favores que nos abençoam a despeito até da pobreza.

Eu a evoco com frequência. Há pouco mais de um ano arrematei em um leilão um quadro seu, dos poucos que pintou. Não poderia permitir que você fosse habitar uma casa estranha. Ele está ao lado daquele que fez em homenagem ao meu livro Madeira Feita Cruz, e agora ambos expressam nossa aliança, nossa irmandade.

Também rememoro o dia que fomos à PUC, do Rio, por motivo de um seminário literário, e você, subitamente irritada com o hermetismo dos debates, arrastou-me para o câmpus, e encostada no balcão do quiosque, sorvendo seu cafezinho, pediu-me que regressasse ao auditório e lhes transmitisse o recado: “Se eu tivesse entendido uma só palavra de tudo que os senhores disseram, eu não teria escrito uma única linha dos meus livros”.

Ao deixá-la no táxi, disse-me que ao chegar em casa iria saborear o frango assado que sobrara do almoço. Naquele instante senti tanta ternura, quis protegê-la, que o Brasil afinal reconhecesse sua grandeza.

Quantas aventuras vivemos ao  sabor dos dezoito anos de amizade. Entre risos e lágrimas, íamos às cartomantes, na ânsia de perscrutar o futuro. Mesmo no hospital da Lagoa, dias antes da sua despedida, recriminou Nadir, sua cartomante favorita, por não ter previsto a doença que a conduziu ao leito hospitalar, onde, lembra-se, me mantive ao seu lado até o suspiro final. Olhando-a, então, imaginava sua família chegando ao Nordeste, fugida dos pogroms, padecendo tantas dificuldades. Sem adivinharem que a criança levada ao colo, minha amiga, aportaria no futuro fulgor à língua portuguesa, de que se tornaria mestra.

Aqui fico, querida Clarice, no seu Rio que segue lindo, mas sofrendo os efeitos da peste que até parece com a de
Florença, do século XIV. Mas cuide-se, onde esteja. O Brasil e eu agradecemos que seja brasileira. Até nosso
próximo encontro. Da sua Nélida.

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