“Tento não julgar”, diz Caio Blat, que estreia peça com texto de Franz Kafka

Ator relaciona a obra do escritor checo à cultura das redes sociais, fala sobre ansiedade, política e os rumos do audiovisual brasileiro

Por Renata Magalhães 7 ago 2026, 09h38 | Atualizado em 7 ago 2026, 09h50
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Caio Blat: “Gravava 12 horas por dia e tinha que falar com o terapeuta e o psiquiatra nos intervalos” (./Divulgação)
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Um dos últimos desejos de Franz Kafka (1883- 1924) — pouco antes de pedir para que manuscritos seus fossem queimados após sua morte — foi a publicação de uma coletânea com tramas curtas, entre elas, Um Artista da Fome, Primeira Dor e Josefina, a Cantora ou O Povo dos Ratos. Os três contos, agora, foram reunidos no espetáculo Subversão Kafka, dirigido por Caio Blat e estrelado por ele e Pedro Henrique Müller.

Com trilha sonora ao vivo, a montagem abre temporada carioca na sexta (14), no Teatro Prio, e fala sobre a condição do artista no mundo, a partir das histórias de um faquir, um trapezista e uma cantora que não sabe cantar. O caráter visionário dos escritos do autor checo é analisado por Caio em entrevista a VEJA RIO, na qual ele ainda discorre sobre o impacto da internet e das redes sociais no próprio ofício.

O paulistano de 46 anos ganhou notoriedade com Éramos Seis, novela do SBT, estrelou sucessos globais como Império e Caminho das Índias, e também assumiu o papel de diretor em Beleza Fatal, da HBO. Prestes a encarnar um bispo evangélico em Justino, longa de José Eduardo Belmonte que estreia na próxima semana, no Festival de Gramado, o artista, pai de dois meninos, Antônio, 23, e Bento, 16, aponta os perigos de misturar religião com política, e comenta o relacionamento com a produtora Fabiana Comparato. 

Como esses contos dialogam com a atualidade? Críticos e filósofos dizem que Kafka foi premonitório. Em Um Artista da Fome, o faquir jejuava só por quarenta dias em cada lugar, já que perdiam o entusiasmo depois disso. Hoje, uma das coisas mais difíceis é capturar a atenção, e o artista precisa estar sempre em evidência para não ser esquecido. Já em Primeira Dor, o trapezista, em busca de tal perfeccionismo, se recusa a descer do trapézio até para comer ou dormir. Algo parecido com uma crise de pânico, que não tinha diagnóstico na época e é um sintoma contemporâneo. 

Qual o custo emocional para quem segue essa profissão? O artista é um reflexo da sociedade. Juntamos as três histórias em um circo e somos os palhaços — figura que precisa fazer rir, mesmo quando não está em um bom dia. Já tive crises de ansiedade quando estava protagonizando um filme. Gravava 12 horas por dia e tinha que falar com o terapeuta e o psiquiatra nos intervalos. 

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Como as redes sociais intensificam isso? Estamos na era da superexposição, em que todo mundo tem uma câmera na mão e a realidade virou dramaturgia. Parece que a linguagem das novelas e das séries envelheceu vinte anos. Estamos tentando sobreviver aos fenômenos de comunicação, inclusive nessa busca pela atenção. Quando o jejuador sai da jaula, convidamos a plateia a subir ao palco e registrar esse momento de fragilidade. É a espetacularização do horror, como muitos fazem em busca de engajamento. 

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A Josefina seria uma alegoria para alguns influenciadores? O argentino César Aira diz que Kafka previu a arte moderna e o readymade com uma rata que não canta, mas que toda a civilização de ratos se move para ouvi-la. Alguém que não tem nenhum talento artístico junta milhões de seguidores porque decidiu ela própria que é um acontecimento, e as pessoas acreditaram. Mas tento não julgar. Nos anos 1980 e 1990, as gravadoras e TVs eram hegemônicas e ditavam o que a gente ia consumir. Hoje, qualquer um abre o celular e mostra sua arte, mesmo que seja para criar um personagem de si mesmo. O público se identifica porque está em busca da confirmação daquilo que sente e, por isso, muitos escolhem viver em bolhas. 

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Beleza Fatal bebeu muito no universo das redes. Acredita que dessa forma as novelas vão conseguir se renovar? Ela mostrou que os folhetins podem ter outro ritmo: foram quarenta capítulos em vez de duzentos, com várias coisas acontecendo e uma ousadia em experimentar a linguagem da internet dentro da trama. A Lola, vivida pela Camila Pitanga, era a personificação disso — expondo a vida e obcecada com a própria imagem. 

Você já falou sobre a “uberização” da profissão. Que medidas deveriam ser tomadas para proteger o trabalho do artista? A forma de consumo do audiovisual mudou radicalmente e a remuneração tem que acompanhar essa tecnologia. A nossa lei foi feita para novelas que eram exibidas uma vez só, e agora elas ficam à disposição para sempre. Estou recebendo mensagens de várias pessoas que começaram a ver Beleza Fatal por causa das férias. É preciso regularizar os direitos, para que os atores recebam toda vez que um produto é exibido. 

Em Justino, você interpreta um bispo evangélico. O longa discute a fé como instrumento de poder? O filme mostra como instituições que pregam a moralidade podem esconder um lado obscuro: o destino das doações, a ética de quem ocupa cargos mais altos e a influência sobre a vida dos fiéis. Também trata de um fenômeno atual, que é a aproximação entre religião, política e meios de comunicação. 

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Acredita que os artistas terão que se mobilizar neste ano eleitoral? O nosso posicionamento está claro: a maioria luta pela democracia e para que a cultura seja reconhecida como um direito. Em ano de eleição, a polarização empobrece o debate e abre espaço para a desinformação, que é uma das armas da extrema-direita, então procuro expor dados. Fiz um vídeo sobre um estudo da FGV que mostra como a Lei Rouanet movimenta a economia, mas muita gente prefere repetir que o artista ‘ganhou milhões’. 

Como é criar dois filhos homens em um momento em que discursos machistas se pulverizam pela internet? O Bento cresceu ouvindo falar de machismo, feminismo, assédio e respeito, algo que não existia quando eu era criança. Ao mesmo tempo, há uma reação conservadora de quem teme perder privilégios. Ainda convivemos com índices inaceitáveis de violência contra a mulher, mas acredito que estamos caminhando para um país mais justo. 

Você já teve relacionamentos bastante públicos. Foi uma decisão consciente manter o namoro com a Fabiana Comparato mais discreto? A Fabiana é produtora, escritora e muito reservada, então seguimos um caminho mais tranquilo, sem que isso tenha sido planejado. Continuamos indo aos mesmos lugares, mas frequentamos mais teatros e museus do que os holofotes (risos). 

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