Reverenciada por Anitta, Carmen Miranda segue pop 70 anos após sua morte

Obra da Pequena Notável entra em domínio público e ela volta a ser ícone: vira tema de filmes, exposições e de novas leituras de seu legado

Por Lucas Vieira 9 out 2026, 08h06
Mulher loira com coque alto, sorrindo e posando com um vestido amarelo vibrante de mangas longas, decote em V com detalhes prateados e fendas laterais que revelam as pernas, usando sapatos de plataforma dourados, em um fundo azul
70 anos sem ela: Carmen Miranda segue pop e ganha homenagem de Anitta (Acervo Museu Carmen Miranda/Divulgação)
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Em Equilibrium II, Anitta reverencia Carmen Miranda (1909-1955) com uma recriação da clássica marchinha carnavalesca Pra Você Gostar de Mim. No clipe, a funkeira aparece com trajes iguais aos que consagraram a Brazilian Bombshell, com direito a turbante de bananas. E essa não foi a primeira homenagem: em 2018, a carioca abriu sua apresentação no Rock in Rio Lisboa fantasiada e cantando Tico-Tico No Fubá. Nascida em Portugal, a Pequena Notável mudou-se ainda bebê para o Rio de Janeiro, onde deu seus primeiros passos artísticos, confeccionando chapéus e cantando para atrair clientes. A partir da década de 1930, tornou-se um fenômeno audiovisual, conquistando o mundo como símbolo da cultura brasileira e influenciando gerações.

À esquerda, uma mulher vestida como Carmen Miranda com um turbante de frutas e um cocar de bananas, cercada por quatro músicos. À direita, uma mulher ruiva de cabelos longos e ondulados, usando um vestido curto de paetês dourados e um bracelete no braço esquerdo, posa com as mãos na cintura
” data-image-title=”” data-image-source=”TV Globo” /> Carmem é pop: Anitta homenageou a estrela em Equilibrivm II e Lorena Comparato (à dir.) acaba de ser escalada para interpretar a artista em cinebiografia (André Nicolau Alexandre Maciel/TV Globo)

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A partir de 2026, passados setenta anos de sua morte, sua obra entrou em domínio público, e não é mais necessário o pagamento de royalties e autorização prévia para a utilização de diversos elementos de suas produções. “Ela é muito lembrada pela imagem de atriz e cantora, mas pouco é comentado sobre seu lado compositora”, destaca a pesquisadora musical Chris Fuscaldo. “Até onde se sabe, foi a única mulher parceira de Pixinguinha, em Os Hôme Implica Comigo”. Em sua tese de doutorado, a escritora aponta o preconceito de gênero: “Ruy Castro questiona esta autoria em Carmen: Uma Biografia, desmerecendo o talento, como se fosse impossível que ela agregasse tantas qualidades, algo tão comum aos homens”.

História em Hollywood: A cantora e atriz contracenou com Jerry Lewis (à esq.) e foi a primeira mulher sulamericana a gan
História em Hollywood: A cantora e atriz contracenou como astro americano Jerry Lewis (./Divulgação)
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Ao todo, a filmografia de Carmen Miranda inclui vinte películas, sendo seis brasileiras e catorze americanas. Entre os destaques, estão a chanchada Banana da Terra (1939) – que contém a clássica interpretação de O Que É Que A Baiana Tem?, de Dorival Caymmi (1914-2008), e Morrendo de Medo, ao lado da dupla de comediantes Jerry Lewis (19262017) e Dean Martin (1917-1995).

Estrela rosa e dourada de Carmen Miranda na Calçada da Fama, com um emblema de televisão dourado no centro, em um piso escuro salpicado de branco
Em Los Angeles: artista foi a primeira mulher sul-americana a ganhar uma estrela na calçada da fama (Hayk Shalunts/Getty Images)

Muito em breve, a Pequena Notável voltará a ter protagonismo nas telonas – dessa vez, através de cinebiografias. Em fase de produção, um longa-metragem também batizado de Pra Você Gostar de Mim será dirigido por Bruno Barreto e traz Lorena Comparato como protagonista – originalmente, Larissa Manoela encarnaria o papel principal, mas teve de ser substituída por conta de uma mudança no cronograma das gravações. Embora poucos detalhes tenham sido revelados, há outro projeto do mesmo gênero em produção, com a atriz Giovanna Lancellotti cotada para interpretar a cantora. “Ela chegou a ser a artista feminina mais bem paga de Hollywood sem falar inglês. A elite não suportava a imagem popular que ela representava do Brasil. Acho que isso dá filme”, diz a diretora Helena Solberg, autora do documentário Carmen Miranda: Bananas is My Business (1995), sobre a força da show woman.

Exposição com sapatos de plataforma e dois turbantes em manequins brancos, um marrom com brilhos e outro dourado com flores secas, dentro de caixas de acrílico iluminadas, sobre fundo escuro
Turbantes: marcas registradas da cantora foram reunidas na exposição Carmen: Rio Remix  (Museu Carmen Miranda/Divulgação)
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Após 117 anos de seu nascimento, a cantora segue viva no imaginário global, tendo seu talento e balangandãs como representantes de brasilidade. No Rio, a herança cultural da artista segue aquecida, com uma nova exposição em cartaz no Museu Carmen Miranda, localizado na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. “Ela levou o samba, o Carnaval e elementos da cultura popular nacional para diferentes partes do mundo. Sua maneira de construir uma persona gerou essa capacidade de dialogar com diferentes épocas, permanecendo atual”, afirma Chris Aguiar, diretora da instituição, que completou 50 anos de sua inauguração.

Manequim exibe figurino de Carmen Miranda: vestido branco com faixas horizontais vinho, capa bege com gola de pele e turbante branco e vinho com broche. Luvas vinho repousam no colo. Ao fundo, painel informativo e baús escuros.
Museu Carmen Miranda: peças que pertenceram à pequena notável estão expostas na mostra em homenagem a ela (Museu Carmen Miranda/Divulgação)

Carmen: Rio Remix ficará disponível para visitação por mais um ano, com a proposta de exibir o diálogo entre a Brazilian Bombshell e a Cidade Maravilhosa. Na montagem, o público encontra peças históricas de acervo, como seus indefectíveis turbantes, obras de artistas contemporâneos e trabalhos de estudantes da Escola de Belas Artes da UFRJ. “A mostra explora as influências presentes na trajetória e o legado dela, explicando como se tornou referência”, diz a responsável pelo museu. A Pequena Notável segue gigante.

Balangandãs imunes ao tempo: Peças da diva integram a nova mostra do museu que leva seu nome e completou 50 anos
Balangandãs imunes ao tempo: Itens da diva integram a nova mostra do museu que leva seu nome e completou 50 anos (Acervo Museu Carmen Miranda/Divulgação)
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Por trás do turbante

As histórias que ajudaram a criar o mito

Seu nome de batismo é Maria do Carmo Miranda da Cunha. O apelido veio por conta da famosa ópera de Georges Bizet (1838-1875).

Assinou composições com Josué de Barros, Por Ti Estou Presa, e Pixinguinha, Os Hôme Implica Comigo.

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Foi a primeira cantora a ser contratada por uma rádio no Brasil — a Mayrink Veiga, em 1933.

Tornou-se a primeira artista latina a imprimir suas mãos e pés no Grauman’s Chinese Theatre, em Los Angeles, em 1941.

Dezenove anos depois, recebeu, de forma póstuma, uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

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Estima-se que seu sepultamento, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, reuniu mais de 500 000 pessoas.

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