Reverenciada por Anitta, Carmen Miranda segue pop 70 anos após sua morte
Obra da Pequena Notável entra em domínio público e ela volta a ser ícone: vira tema de filmes, exposições e de novas leituras de seu legado
Em Equilibrium II, Anitta reverencia Carmen Miranda (1909-1955) com uma recriação da clássica marchinha carnavalesca Pra Você Gostar de Mim. No clipe, a funkeira aparece com trajes iguais aos que consagraram a Brazilian Bombshell, com direito a turbante de bananas. E essa não foi a primeira homenagem: em 2018, a carioca abriu sua apresentação no Rock in Rio Lisboa fantasiada e cantando Tico-Tico No Fubá. Nascida em Portugal, a Pequena Notável mudou-se ainda bebê para o Rio de Janeiro, onde deu seus primeiros passos artísticos, confeccionando chapéus e cantando para atrair clientes. A partir da década de 1930, tornou-se um fenômeno audiovisual, conquistando o mundo como símbolo da cultura brasileira e influenciando gerações.
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A partir de 2026, passados setenta anos de sua morte, sua obra entrou em domínio público, e não é mais necessário o pagamento de royalties e autorização prévia para a utilização de diversos elementos de suas produções. “Ela é muito lembrada pela imagem de atriz e cantora, mas pouco é comentado sobre seu lado compositora”, destaca a pesquisadora musical Chris Fuscaldo. “Até onde se sabe, foi a única mulher parceira de Pixinguinha, em Os Hôme Implica Comigo”. Em sua tese de doutorado, a escritora aponta o preconceito de gênero: “Ruy Castro questiona esta autoria em Carmen: Uma Biografia, desmerecendo o talento, como se fosse impossível que ela agregasse tantas qualidades, algo tão comum aos homens”.
Ao todo, a filmografia de Carmen Miranda inclui vinte películas, sendo seis brasileiras e catorze americanas. Entre os destaques, estão a chanchada Banana da Terra (1939) – que contém a clássica interpretação de O Que É Que A Baiana Tem?, de Dorival Caymmi (1914-2008), e Morrendo de Medo, ao lado da dupla de comediantes Jerry Lewis (19262017) e Dean Martin (1917-1995).
Muito em breve, a Pequena Notável voltará a ter protagonismo nas telonas – dessa vez, através de cinebiografias. Em fase de produção, um longa-metragem também batizado de Pra Você Gostar de Mim será dirigido por Bruno Barreto e traz Lorena Comparato como protagonista – originalmente, Larissa Manoela encarnaria o papel principal, mas teve de ser substituída por conta de uma mudança no cronograma das gravações. Embora poucos detalhes tenham sido revelados, há outro projeto do mesmo gênero em produção, com a atriz Giovanna Lancellotti cotada para interpretar a cantora. “Ela chegou a ser a artista feminina mais bem paga de Hollywood sem falar inglês. A elite não suportava a imagem popular que ela representava do Brasil. Acho que isso dá filme”, diz a diretora Helena Solberg, autora do documentário Carmen Miranda: Bananas is My Business (1995), sobre a força da show woman.
Após 117 anos de seu nascimento, a cantora segue viva no imaginário global, tendo seu talento e balangandãs como representantes de brasilidade. No Rio, a herança cultural da artista segue aquecida, com uma nova exposição em cartaz no Museu Carmen Miranda, localizado na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. “Ela levou o samba, o Carnaval e elementos da cultura popular nacional para diferentes partes do mundo. Sua maneira de construir uma persona gerou essa capacidade de dialogar com diferentes épocas, permanecendo atual”, afirma Chris Aguiar, diretora da instituição, que completou 50 anos de sua inauguração.
Carmen: Rio Remix ficará disponível para visitação por mais um ano, com a proposta de exibir o diálogo entre a Brazilian Bombshell e a Cidade Maravilhosa. Na montagem, o público encontra peças históricas de acervo, como seus indefectíveis turbantes, obras de artistas contemporâneos e trabalhos de estudantes da Escola de Belas Artes da UFRJ. “A mostra explora as influências presentes na trajetória e o legado dela, explicando como se tornou referência”, diz a responsável pelo museu. A Pequena Notável segue gigante.
Por trás do turbante
As histórias que ajudaram a criar o mito
Seu nome de batismo é Maria do Carmo Miranda da Cunha. O apelido veio por conta da famosa ópera de Georges Bizet (1838-1875).
Assinou composições com Josué de Barros, Por Ti Estou Presa, e Pixinguinha, Os Hôme Implica Comigo.
Foi a primeira cantora a ser contratada por uma rádio no Brasil — a Mayrink Veiga, em 1933.
Tornou-se a primeira artista latina a imprimir suas mãos e pés no Grauman’s Chinese Theatre, em Los Angeles, em 1941.
Dezenove anos depois, recebeu, de forma póstuma, uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
Estima-se que seu sepultamento, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, reuniu mais de 500 000 pessoas.







