A Curiosidade não Envelhece: os oitenta anos de João Bosco
Às vésperas de se tornar octagenário, cantor lança discos, faz turnê comemorativa e mostra que o desejo de descobrir novos caminhos continua sendo sua marca
Na canção Água, Mãe Água, lançada em 1994, João Bosco faz um apelo: “Traga-me um desejo novo e vê se me põe de pé!” Trinta e dois anos depois, ele está firme e forte, prestes a completar oito décadas de vida — o aniversário é na segunda (13) — e cheio de novidades na carreira.
Sobre os desejos para o ciclo que se avizinha, o cantor e compositor é humilde, diz que se dá por satisfeito por poder continuar sendo músico e brincando com os netos, mas revela: “Gostaria de nunca perder a curiosidade. É ela que mantém a gente vivo, faz nascer uma canção e nos faz aprender até com o silêncio”, diz. “Também peço para que a música siga cumprindo o papel de aproximar e criar pontes, sobretudo num tempo em que tanta coisa parece querer nos separar.”
Em 3 de julho, ele lançou Horda, com o registro de uma apresentação ao lado da orquestra alemã NDR Bigband. E, no dia 31, chegará ao ouvido dos fãs Amigos Novos e Antigos – Parte 1, EP que antecede o disco de mesmo título, recheado de duetos com nomes de diferentes gerações, de Caetano Veloso a Jota.Pê, passando por Zeca Pagodinho e Ivete Sangalo, que sai em setembro.
O show celebrando o aniversário chega ao Rio em 2 de outubro, com a presença de um quinteto de instrumentistas e repertório formado por clássicos da obra do artista.
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João Bosco de Freitas Mucci nasceu em Ponte Nova, Minas Gerais, e sua musicalidade foi despertada em família.
A mãe, Maria Auxiliadora, era violinista, e foi a primeira influência musical do menino, que cresceu ouvindo seresta, samba e rock na Rádio Nacional. Ele herdou um violão da irmã mais velha, que não se interessou pelo instrumento, e aprendeu a tocá-lo sozinho.
Mais tarde, enquanto cursava engenharia em Ouro Preto, interessou-se por jazz e bossa-nova e passou a tocar em bares da cidade histórica. Foi aí que conheceu Vinicius de Moraes (1913-1980), grande incentivador de sua vinda para o Rio, e Aldir Blanc (1946-2020), seu principal parceiro de composição.
A mudança para a capital federal veio no início da década de 1970. Mesmo ainda trabalhando como engenheiro, ele nutria o sonho de largar a profissão para se dedicar à música, o que aconteceu após um empurrãozinho de Elis Regina (1945-1982), que gravou Bala com Bala em 1972 e, mais tarde, uma fila de sucessos composto pela dupla Bosco e Aldir.
“Há uma MPB pré e uma pós-João Bosco. Ele traz uma transformação rítmica e harmônica que passeia por vários estilos com sofisticação, sem perder a característica popular”, analisa o professor de música João Pedro Gomes.
Apaixonado pela cidade que o acolheu, o músico mora na Gávea, Zona Sul, onde faz caminhadas e frequenta os restaurantes do bairro em família. Há 53 anos, é casado com Angela, com quem tem dois filhos, Francisco Bosco, apresentador de TV e professor, e Julia Bosco, hoje empresária do pai e do irmão; além de três netos.
“Tenho o hábito de caminhar, olhar o mar e observar as pessoas. Gosto dos bares onde as conversas acontecem naturalmente e dos restaurantes simples, com comida sem afetação”. Embora mineiro, o cantor conseguiu traduzir o cotidiano carioca como poucos artistas de fora. “O Rio tem uma musicalidade muito própria, que está na fala, na maneira com a qual as pessoas ocupam a rua, no samba, nos blocos, nas esquinas… É um lugar que me ensinou que a sofisticação pode morar justamente na simplicidade”, acredita.
Segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), João Bosco tem 365 obras musicais e 749 gravações cadastradas.
Entre seus grandes sucessos, distribuídos em 38 álbuns, estão Mestre Sala dos Mares, Corsário, De Frente Pro Crime e, a mais famosa, O Bêbado e A Equilibrista, regravada 116 vezes.
A influência do músico ultrapassa gerações, e pode ser percebida no trabalho de nomes como Lenine, Yamandu Costa e Kiko Dinucci. “Ao buscar referências das tradições afro-diaspóricas e da percussividade no violão, sempre há o nome de João Bosco, que contribuiu muito para a junção desses elementos na MPB”, observa o cantor e violonista Caxtrinho.
“Nunca me preocupei em preservar um estilo. A tradição é uma coisa viva, que segue existindo porque conversa com o presente”, avalia João Bosco. “Se existe alguma coerência na minha trajetória, talvez seja essa: permanecer fiel às minhas raízes sem deixar de aprender novas maneiras de dizer a mesma verdade.”
Aos 80 anos, João Bosco parece pouco interessado em celebrar a própria história como um monumento. Prefere tratá-la como matéria-prima para seguir compondo, gravando e dividindo o palco com artistas de diferentes gerações.
A curiosidade, que ele deseja que sempre se mantenha viva, continua sendo seu combustível. Talvez esteja aí o segredo de uma obra que envelhece sem perder o frescor: em vez de repetir fórmulas, ele segue fazendo perguntas.
Discoteca essencial
Cinco álbuns para conhecer a obra do mais novo octogenário
João Bosco (1973). O LP de estreia tem dez parcerias com Aldir Blanc e uma com Paulo Emílio. A contracapa foi escrita por Tom Jobim.
Caça à Raposa (1975). Guarda clássicos como Dois Pra Lá, Dois Pra Cá e mostra características que marcariam a obra de Bosco, como as letras sobre o cotidiano e harmonias sofisticadas.
Gagabirô (1984). O álbum retrata a versatilidade do cantor ao evidenciar uma adaptação a novas linguagens, com baixo funkeado e uso de sintetizadores e baterias eletrônicas.
Obrigado, Gente! (2006). Com mais de 100000 cópias vendidas, o registro do show homônimo conta com participações de Djavan, Guinga e Hamilton de Holanda.
Boca cheia de Frutas (2024). Recheado de poesia e exemplos do caráter afro-brasileiro-jazzístico do artista, o trabalho une criatividade, tradição e frescor.





