TURISMO

Os encantos do frio

Cinco meses depois de enfrentar a tragédia das chuvas, a Região Serrana renasce com hotéis, restaurantes e atrações renovadas para a temporada de inverno

Por: Sofia Cerqueira. Fotos: Fernando Frazão - Atualizado em

Fernando Frazão
(Foto: Redação Veja rio)

Eram pouco mais de 2 horas da manhã de 12 de janeiro quando a fúria das águas mostrou seu poder devastador. Em poucos minutos, o riacho que corria ao longo do terreno da Pousada Tankamana, em Itaipava, distrito de Petrópolis e símbolo de requinte e romantismo na região serrana do Rio, virou um mar de lama e pedregulhos. O restaurante da propriedade, com um bonito piso de vidro que deixava à mostra um lago com trutas, veio abaixo. Com a enxurrada, uma banheira de ofurô disposta no jardim desapareceu e as alamedas do terreno ficaram irreconhecíveis. A sede e os dezesseis chalés, no entanto, se mantiveram intactos. Em um deles, feito de toras de eucalipto e equipado com banheira de hidromassagem, estavam os únicos hóspedes da noite, um casal. Assim que o dia clareou, o dono do hotel, Roberto Pinheiro, chegou de helicóptero para resgatar seus clientes, que ainda dormiam, alheios à tragédia. Por trinta dias, a estrada de acesso à pousada pelo Vale do Cuiabá permaneceu interrompida. Quando foi liberada, um trabalho quase insano de reconstrução começou. Cinco meses depois do desastre, as marcas da devastação ficaram no passado. Com as portas abertas e mais charmosa do que nunca, a estalagem virou uma espécie de emblema do renascimento da serra. O restaurante destruído foi substituído por um novo em estilo rústico em outra parte do terreno. As ruas internas ganharam nova pavimentação e os chalés foram reequipados. ?A sensação era de que o mundo literalmente veio abaixo?, lembra Pinheiro. ?Mas agora estamos em plena forma, prontos para a alta temporada.?

Depois da tormenta que castigou a região no início do ano, a meteorologia promete bom tempo para o inverno. A previsão é que, mesmo com muitos dias ensolarados, as temperaturas mínimas fiquem entre 7 e 15 graus. Embora a estação comece oficialmente às 14h16 de terça-feira (21), os termômetros já despencaram nas últimas semanas, oferecendo justamente o que os visitantes mais procuram por ali: a combinação entre ar gelado, aconchego junto a uma lareira e opções gastronômicas de primeira, tudo em meio a um cenário deslumbrante. A atual temporada traz um atrativo a mais a quem se dispuser a subir a serra. A maioria dos estabelecimentos está cobrando preços iguais aos do ano passado, isso quando não oferecem descontos. Muitos deles, para afastar de vez o espectro dos deslizamentos de janeiro, modernizaram suas estruturas e criaram novidades. O sofisticado Quinta da Paz Resort, que, da mesma forma que a Tankamana, fica no Vale do Cuiabá, uma das áreas mais atingidas, acaba de inaugurar um belo deque com vista panorâmica para as montanhas e uma nova trilha de acesso à sua cachoeira. Na mesma localidade, a Pousada Les Roches, eleita pela revista americana National Geographic Traveller um dos melhores hotéis da América do Sul, aproveitou para erguer um pequeno campo de golfe. Com padrão internacional, o Hotel-Boutique Clarion, dentro da Granja Brasil, em Itaipava, foi aberto um mês antes da hecatombe climática. Embora a construção seja vertical, o que destoa dos acolhedores chalés locais, ele oferece um imenso complexo de lazer, com piscinas, quadras de tênis, restaurantes e playgrounds. ?Em Petrópolis, o problema ficou restrito a apenas uma vizinhança, mas tivemos uma queda de 90% no movimento. Estamos confiantes em que agora os turistas voltarão?, diz Bruno Wanderley, presidente do Convention & Visitors Bureau do município.

Epicentro da devastação, a região de Teresópolis e Friburgo, com 370?000 habitantes, também apresenta sinais de recuperação. Apesar de as paisagens ainda exibirem cicatrizes da tragédia, como impressionantes fendas nas montanhas, carros retorcidos e casas em ruínas, as principais estradas e acessos aos lugarejos mais isolados estão com o tráfego normalizado. A rede hoteleira está igualmente pronta para receber os visitantes. Para este inverno, a expectativa é que as duas cidades atraiam juntas 300?000 turistas por mês ? número semelhante ao registrado na alta temporada de 2010. Considerado o mais castigado pelas chuvas, o Hotel Fazenda São Moritz, na Estrada Teresópolis-Friburgo, voltou a funcionar já em fevereiro. O acesso ao hotel, destruído pela força das águas, foi refeito em outro ponto. Arrasados pela enxurrada, os estábulos e cercados onde ficavam os animais foram reconstruí­dos numa área mais alta. A sede e as acomodações nada sofreram. A 24 quilômetros dali, o Hotel Le Canton não mudou um detalhe sequer de um ambicioso projeto de modernização, iniciado há dois anos. Desde então foram aplicados 3,6 milhões de reais no complexo. Ele ganhou uma área de lazer na forma de um castelo medieval, com pistas de boliche, rinque de patinação e jogos eletrônicos, além de 47 novos apartamentos. Em breve será inaugurado um parque de diversões indoor com montanha-russa e roda-gigante, um investimento de mais 5 milhões de reais. ?Essa região segue com um enorme potencial de crescimento. Não mudamos em nada nosso cronograma?, afirma Marcelo Campos, diretor do hotel.

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(Foto: Redação Veja rio)

Embora o astral seja outro, é inegável que o baque na Região Serrana foi imenso e que resta muito por fazer. Mesmo depois da finalização de todas as obras, serão necessários vários anos para a tragédia ser superada. A catástrofe ceifou 916 vidas e deixou quase 32?000 desabrigados. Mas a onda de solidariedade diante do desastre natural também foi avassaladora. Só a Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan) repassou para as vítimas mais de 500 toneladas de alimentos e 3 milhões de itens de material de higiene e limpeza arrecadados entre os associados. Um grupo de empreiteiros do Rio também se uniu para construir 1?000 unidades habitacionais próximo à Estrada Teresópolis-Friburgo. Há duas semanas, foi anunciado um conjunto de intervenções em um total de 678 milhões de reais, recursos provenientes dos governos federal e estadual, bem como da iniciativa privada. O setor hoteleiro, que estima um prejuízo entre janeiro e março da ordem de 30 milhões de dólares, demonstra confiança na volta à normalidade. ?Já tivemos uma ocupação de 100% na Semana Santa e no Dia dos Namorados?, comemora Marielza Fontes, dona da Parador Lumiar, pousada que ficou fechada por vinte dias devido a obstáculos na estrada.

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O turismo nas montanhas costuma se sustentar sobre três pilares: hospedagem de charme, restaurantes refinados e uma agitada programação. Os cariocas que forem até lá poderão usufruir tudo isso. No que diz respeito a atrações culturais, a região receberá uma farta safra de espetáculos de música clássica, jazz, MPB, corais e peças de teatro. Visitantes e moradores terão a oportunidade de assistir, entre outros, à ópera O Barbeiro de Sevilha e ao balé Giselle. Pelo 22º ano consecutivo, a antiga cidade imperial sediará a Bauernfest, de 22 de junho a 3 de julho. Junto com o melhor da culinária germânica, regada a muito chope, haverá apresentações de danças folclóricas, orquestras sinfônicas, bandas típicas e um festival de cinema. Maior entre todos os eventos, o Festival de Inverno Sesc Rio promete agitar o mês de férias com mais de 100 atrações entre os dias 7 e 31 de julho. ?Além de atrair o público local, mais do que nunca a proposta é incentivar os cariocas a vir?, diz Tatyana Paiva, coordenadora de cultura do Sesc. Incentivos não faltarão. A área hoje é muito bem servida de restaurantes com cozinha de qualidade. Exemplo recente é o Barão Gastronomia, em Itaipava. Entre móveis de madeira e peças estilizadas, o chef Alessandro Vieira surpreende os amantes da boa mesa com um menu degustação de até doze pratos. ?A maioria das minhas receitas leva ingredientes produzidos por aqui?, conta Vieira, um ex-discípulo de Claude Troisgrois e Danio Braga.

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(Foto: Redação Veja rio)

Em breve, algumas novidades deixarão o passeio ainda mais divertido. Até o fim de julho, Petrópolis ganhará o primeiro museu de cera do estado, nos moldes do inglês Madame Tussaud, só que mais compacto. Será permitido em seu interior tirar fotos ao lado de personalidades como Alfred Hitchcock e Albert Einstein, dom Pedro II e Santos Dumont. A tradição é a tônica de determinados empreendimentos. A exemplo do que acontece em grandes centros cervejeiros do mundo, como a Abadia de Leffe, na Bélgica, e a fábrica da Budweiser em Saint Louis, nos Estados Unidos, Petrópolis ganhará em dezembro um memorial da cerveja. A instalação será montada na fábrica da Bohemia, a primeira cervejaria aberta no país, em 1853. Reunirá museu, loja, bar e restaurante, onde se poderão sorver goles das variantes pilsen e weiss, produzidas ali mesmo. ?É surpreendente como as coisas não pararam por causa da tragédia?, afirma o designer Gustavo Thomé, que aproveitava o frio de Itaipava ao lado da mulher, Emanuele, na Pousada Tankamana. Neste inverno, o carioca terá boas surpresas caso suba as montanhas. Nem que seja apenas o prazer de ver uma região tão querida a caminho da recuperação.

Fonte: VEJA RIO