MODA

Feito sob medida

Seja para festas de aniversário, réveillon ou encontros profissionais, as cariocas recorrem cada vez mais ao serviço de estilistas em busca de peças exclusivas

Por: Melissa Januzzi - Atualizado em

Paula prova o vestido feito por Mariana:  risco zero de ver  alguém numa festa  com uma roupa igual
(Foto: Redação Veja rio)

Dos temores prosaicos de uma mulher, nada se compara à arapuca de chegar a uma festa e flagrar uma convidada com o vestido exatamente igual ao dela. Eis um tipo de situação constrangedora e sem atenuante. O jeito é se afastar ao máximo da alma gêmea, manter a pose e fingir que ninguém viu, embora as demais presentes, com certeza, tenham notado a coincidência ? e feito comentários peçonhentos diante do aparecimento do par de vasos. Para evitarem que essa saia justa aconteça, as cariocas vêm recorrendo a um procedimento seguro em busca da exclusividade. Em vez de comprarem a peça numa loja e correrem o risco da surpresa desagradável depois, elas optam por confeccionar o vestido em um ateliê, com tecidos finos e profissionais tarimbados. O que era de praxe em cerimônias de casamento, debutantes ou black tie agora se expandiu para festas de menos pompa, seja um aniversário, um encontro de trabalho ou até mesmo um réveillon à beira-mar. ?Em determinadas lojas, as vendedoras avisam quando outra mulher comprou a mesma peça?, conta a advogada Paula Clark. ?Mas, se a pessoa quiser usá-la em outra ocasião, existe o risco. O Rio parece cidade pequena, e todos estão sempre se cruzando na noite.?

Depois do encanto pelas grifes importadas à venda em multimarcas de alto padrão, as consumidoras se veem em outra fase e agora priorizam as peças únicas e sob medida. Com esse binômio em mente, três anos atrás, Paula foi ao ateliê da estilista Mariana Kuenerz, em Ipanema, para fazer seu vestido de noiva. Virou freguesa e desde então retorna sempre que na agenda se avizinha uma festa mais transada. Ela enumera uma série de motivos para sua escolha. ?A roupa veste como uma luva, valoriza o que tenho de bacana e esconde as imperfeições?, diz. O próprio processo em si tem seu charme. Em vez de sair batendo perna de vitrine em vitrine sem uma noção exata do que deseja comprar, é possível se reunir com a estilista e criar exatamente o modelo imaginado. E também escolher cor, tecido e detalhes finais. ?Um vestido estruturado e com acabamento de alta-costura faz toda a diferença?, afirma a estilista Patricia Bonaparte, dona de um concorrido ateliê em Ipanema que já recebeu encomendas para o Ano-Novo. Os arremates destacados por ela podem ser uma barbatana para deixar a mulher mais ereta e alongar sua silhueta, a forração com um bojo que dispensa o uso de sutiã ou drapeados que disfarçam aquela barriguinha um pouco mais saliente. ?O segredo é tentar equilibrar as proporções do corpo?, explica a estilista Bia Andreazza.

A estilista  Patricia Bonaparte: ?Nenhuma mulher tem  o corpo igual  ao de outra?
(Foto: Redação Veja rio)

Com a banalização das encomendas, tanto Bia quanto Patricia e Mariana viram aumentar consideravelmente o volume de trabalho. De três a quatro pedidos mensais, cada uma delas passou a confeccionar mais de dez peças. O grande afluxo trouxe um complicador a mais. Como os chamados para festas não chegam com a mesma antecedência dos convites de casamento, as estilistas se desdobram para dar conta de tanta demanda em tempo exíguo. O ideal é terem um prazo mínimo de quatro semanas para fazer o vestido, do esboço no papel até o último acabamento. No mundo real, porém, tudo é diferente, e as consumidoras muitas vezes procuram essas costureiras em cima da hora. Para atender a clientela apressada, Mariana ? que já trabalhou no ateliê de Emanuel Ungaro, em Paris ? preparou uma pequena coleção de catorze modelos, todos únicos. Os ajustes são feitos na hora, e em dois dias a compradora pode levar a roupa para casa.

Na busca por exclusividade tanto no corte quanto na padronagem, os tecidos respondem por um capítulo à parte. Em suas viagens ao exterior, as estilistas aproveitam para garimpar o produto. Quando encontram alguma coisa de seu interesse, compram uma pequeníssima quantidade, o bastante apenas para produzir uma só peça de roupa. Assim, reduzem a zero o risco de repetição. Em sua última andança pela Europa, Bia Andreazza trouxe 5 metros de crepe georgette, um tecido fino, raro de achar por aqui. Tanto esmero com a matéria-prima e a confecção pode passar a impressão de que as peças assinadas pelas estilistas têm preço na estratosfera. Nem tanto. Em média, um vestido curto custa 1?500 reais, e um longo, 2?500. Ou seja: os preços regulam com as cifras de produtos similares de uma boa grife. ?Os vestidos de loja possuem um padrão de modelagem, e nenhuma mulher tem o corpo igual ao de outra?, alerta Patricia. ?Mesmo um modelo assinado por Valentino não é garantia de que vai vestir bem.? Menos, Patricia, menos.

Fonte: VEJA RIO