TELEVISÃO

As revelações de Boni

Por trinta anos, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho mandou na Rede Globo. Agora ele conta os bastidores dessa longa trajetória em livro a ser lançado no fim do mês

Por: Sofia Cerqueira - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Há catorze anos ele deixou o cargo de vice-presidente da Rede Globo, mas por onde quer que passe ainda é apresentado, reverenciado, aplaudido ou criticado como o todo-poderoso da emissora. Dia desses, enquanto andava pelas ruas do Leblon, foi abordado por uma senhora indignada com uma reportagem veiculada no Jornal Nacional. Não adiantaram os apelos em que ele dizia não trabalhar mais lá. Ela só se acalmou depois de desferir alguns golpes com uma revista na sua cabeça. A associação não acontece por acaso. Ao lado de nomes como Walter Clark (1936-1997) e Joe Wallach, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, criou a identidade da Globo, montou uma programação vitoriosa e transformou a empresa em uma potência, com um padrão semelhante ao das maiores do mundo. Não é pouco, considerando-se que, nos anos 60, o canal ocupava um sofrível quarto lugar de audiência no Rio. Os detalhes dessa genial trajetória e os bastidores de mais de meio século de trabalho em rádio e TV deixarão em breve de ser exclusividade dos amigos mais chegados. Na terça (1º), ele pôs um ponto-final no último capítulo de suas memórias e entregou os originais à Editora Casa da Palavra. Com o título provisório de O Livro do Boni, a obra tem lançamento previsto para o próximo dia 30, quando o autor completa 76 anos. "Minha intenção não é causar polêmica ou mal-estar. Simplesmente faço um relato bem-humorado da minha experiência profissional e de fatos que acompanhei", diz.

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(Foto: Redação Veja rio)

Os episódios resgatados no livro e os personagens que deles fazem parte lançam luz sobre a forma como a televisão brasileira nasceu, fruto do espírito desbravador e da intuição dos profissionais que a comandavam. Nesse sentido, o volume se alinha a obras recentes sobre o assunto, como Meu Capítulo na TV Globo, escrito pelo americano Wallach, executivo da emissora entre 1965 e 1980. Com quase sessenta anos de carreira, Boni atuou como câmera e iluminador, dirigiu programas e shows de auditório. Depois de ter passado pelas extintas Tupi, Rio, Paulista e Excelsior, estabeleceu-se em 1967 na estação criada por Roberto Marinho e lá ficou por trinta anos. Mal havia ocupado o posto de superintendente de produção e programação, encarou o desafio de desenvolver o primeiro programa exibido em rede para todo o país. Era o Jornal Nacional, que iria ao ar em 1969, criado em parceria com Armando Nogueira e Alice Maria. "Até então, as emissoras exibiam conteúdos regionais, porque, além das limitações técnicas, se acreditava que os espectadores de cidades diferentes tinham gostos e preferências específicas", recorda ele. Quando a Embratel passou a ter a tecnologia de transmissão nacional, Boni e os parceiros decidiram arriscar com o noticiário que se tornou o programa de maior audiência da TV brasileira.

Outra inovação conduzida por ele, esta nascida de um episódio mais pitoresco, diz respeito à consolidação da grade de exibição de novelas, ainda no início dos anos 70. Nos primórdios da TV, os folhetins eram veiculados apenas de segunda a sexta, em uma estrutura adaptada do rádio. No sábado de Carnaval de 1971, Boni editava imagens que chegavam dos desfiles quando um incêndio em um carro da emissora interrompeu as transmissões. Para evitar um buraco na programação, pôs no ar um capítulo inédito de Irmãos Coragem. A audiência foi às alturas. O chefão decidiu que, a partir dali, as tramas seriam exibidas seis vezes por semana.

É natural que, ao ocupar um cargo tão alto e com tanto poder, Boni tivesse uma relação especial com o proprietário da emissora, Roberto Marinho. Descrita no livro, uma característica pouco conhecida do dono da Globo era o hábito de nunca deixar nenhuma pergunta importante sem resposta ? mesmo que isso implicasse estratagemas, digamos, pouco convencionais. Quando, por exemplo, era interpelado ao telefone e não sabia o que dizer, simplesmente desligava o aparelho. "Ele se informava sobre o assunto e depois telefonava de volta para a pessoa dizendo que a ligação havia caído", relata. Há ainda situações engraçadas envolvendo o patrão, como uma confusão ocorrida em 1988 a respeito de um pedido do então cardeal-arcebispo do Rio, dom Eugênio Salles. No auge do sucesso de Vale Tudo, naquele ano, Dr. Roberto, como era chamado, recebeu um telefonema do religioso solicitando que a cena do casamento de Maria de Fátima, "a galinha mau-caráter" vivida por Glória Pires, não fosse ao ar. Boni procurou Daniel Filho, então responsável pela teledramaturgia da Globo, para cortar as imagens. Já era tarde, o capítulo havia sido transmitido um dia antes. Receoso, achou por bem ficar quieto. Dias depois, o chefe o chamou novamente a sua sala. Dessa vez às gargalhadas. "Ele havia se confundido e a galinha a que o cardeal se referia não era da novela, era uma ave de verdade, que aparecera de véu e grinalda em uma paródia no TV Pirata", lembra. Apesar da convivência próxima, Marinho nunca percebeu, por exemplo, que Boni tinha aversão a relógios de pulso. Tanto que, a cada aniversário, sempre o presenteava com um modelo diferente.

O tom descontraído e coloquial do livro não impede o autor de tocar em assuntos incômodos para a emissora, como a relação da empresa com o regime militar. Da mesma forma que sofria pressões da censura (segundo Boni, os censores reclamavam muito do Programa do Chacrinha, em virtude das tomadas de câmera audaciosas das chacretes e do tamanho do biquíni das moças), a emissora sempre se esforçou para não desagradar aos donos do poder. Em 1984, o departamento de jornalismo foi proibido por Marinho de mostrar o comício da Praça da Sé, em São Paulo, durante a campanha das Diretas Já. Na ocasião, o relacionamento entre a Globo e o então presidente João Baptista Figueiredo estava estremecido em decorrência da distribuição de concessões ao SBT e à Manchete, o que aumentou a concorrência no setor. "Ele temia que, se apoiasse a campanha, poderia perder a concessão de sua TV", diz. Boni revela também que foi durante a ditadura que Walter Clark, outro gênio da televisão, começou a se afastar da emissora. Ele se revoltou quando a direção cedeu à pressão dos generais e substituiu o dono de uma afiliada no Paraná, no caso Paulo Pimentel, um político em ascensão na época. "A gota d?água foi um jantar em Brasília, em 1977, quando o Walter bebeu mais do que devia e saiu xingando todo mundo", conta Boni.

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(Foto: Redação Veja rio)

Em seus quase cinquenta anos de história, a Rede Globo transformou-se numa espécie de miniatura dos grandes estúdios de Hollywood ? e Boni teve papel crucial nesse processo. Foi ele quem idealizou, por exemplo, o Projac, complexo de estúdios e cidades cenográficas localizado em Jacarepaguá. Ocupando uma posição privilegiada, Boni acompanhou de perto o nascimento de algumas lendas em torno da emissora. Uma delas diz respeito ao índex de personalidades e celebridades vetadas. No início dos anos 70, era comum, principalmente nos círculos intelectuais, ouvir que a atriz Leila Diniz era malvista por seu furor libertário e por sua irreverência. Boni conta outra versão para o sumiço da moça dos programas da rede. Segundo ele, em 1967, enquanto fazia a novela Anastácia, o ator Henrique Martins, hoje com 78 anos, foi convidado para uma recepção na casa da novelista Glória Magadan (1920-2001), a responsável pelo núcleo de teledramaturgia. Ao chegar ao apartamento, o galã percebeu tratar-se de uma festinha particular. Como não cedeu aos apelos da anfitriã, foi fulminado com a demissão. Amante de Martins e protagonista da novela, Leila deixou a emissora em represália e foi para a principal concorrente, a TV Excelsior. Algum tempo depois, veiculou-se que ela não era mais chamada para a Globo porque Janete Clair, a maior criadora de folhetins que a TV já teve, não a queria em suas histórias. Puro mito, de acordo com Boni. "Como é normal na Globo até hoje, se uma pessoa larga a empresa, ela vai para a geladeira. Foi isso que aconteceu", afirma. Segundo ele, não havia artistas proibidos. Aliás, havia só um: Tim Maia. "Depois de faltar a sucessivos programas, virou persona non grata."

Paulista de Osasco, filho de um dentista e de uma psicóloga, Boni veio para o Rio aos 14 anos. Seu primeiro emprego foi na Rádio Clube do Brasil, passou por outras emissoras e, no fim dos anos 50, trabalhou na gravadora RGE como produtor de discos de cantores como Maysa e Juca Chaves. Antes de ingressar na TV, atuou como publicitário. O temperamento perfeccionista era uma de suas marcas e isso às vezes rendia algumas brigas. Em seu livro, ele não esconde que deu ataques de fúria nos estúdios da Globo, como no dia em que quebrou um disco na cabeça de um sonoplasta que insistia em tocar nos jornais da emissora uma música que ele detestava. Mas também é dono de um lado bonachão e bon vivant, o que lhe garantiu um vasto círculo de amizades. "Ele sabe curtir a vida, tem um papo maravilhoso e uma disposição incrível", diz o empresário Ricardo Amaral, um dos amigos mais próximos.

Apaixonado por vinhos e gastronomia, Boni é dono de uma coleção com mais de 5?000 garrafas e mantém na cobertura onde mora, em São Conrado, e em sua casa de Angra dos Reis cozinhas equipadíssimas com fornos e aparelhos que superam as de grandes restaurantes cariocas. Proprietário da TV Vanguarda, emissora afiliada à Globo no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, divide-se hoje entre Rio, São Paulo e viagens internacionais, como visitas a vinhedos e grandes restaurantes mundo afora. Esteve recentemente no dinamarquês Noma, junto com seu filho mais velho, o diretor de TV Boninho. Eleita a melhor do planeta, a casa não agradou. "A criatividade ali passou do ponto e a brincadeira superou o sabor", julga ele, com a propriedade de quem entende ? e muito ? do assunto. Hipocondríaco convicto, tem uma biblioteca de livros de medicina e toma mais de dez vitaminas por dia. Com um talento inato para deliciosas conversas, sempre tem histórias para contar ? como atesta a obra que chegará às bancas até o fim do mês.

Fonte: VEJA RIO