Nas ondas da internet

Nova cena musical carioca começa a despontar

Eles são crias das redes sociais, onde encontram referências, parceiros e fãs, e dominam a programação da cidade neste verão

Por: Thayz Guimarães - Atualizado em

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Geração shuffle: Fernando Temporão, Ana Cláudia Lomelino, Bruno Cosentino, Mariana Volker, Bruno Di Lullo, Brunno Monteiro (em pé, da esquerda para a direita, Marcela Vale e Alvinho Lancellotti (sentados) (Foto: Felipe Fittipaldi)

A primeira escola de samba nasceu no Estácio. Com o devido respeito a Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius, a bossa nova veio ao mundo em Copacabana, gestada em espaços fechados como o apartamento de Nara Leão e a Boate Plaza. Na Tijuca, Roberto, Erasmo, Tim Maia e Jorge Ben Jor deram os primeiros passos de sua carreira. Dona de longa tradição, a usina musical carioca continua a pleno vapor, para desgosto de alguns saudosistas (Sim, ainda se faz música como antigamente!), mas os talentos se dispersaram. No futuro, quem for procurar as origens dos jovens músicos cariocas de hoje em dia vai encontrar links em vez de lugares. Nas ondas da internet, e não do rádio, uma nova geração espalhada pela cidade se aproxima do seu público e também faz contato com ele. De conversas e audições mediadas por Facebook, YouTube, SoundCloud, Instagram, resulta uma parte consistente da programação dos palcos neste verão.

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Também por influência do mundo digital, essa é a geração shuffle: o grupo entre os 20 e poucos e 30 e muitos anos cresceu ouvindo tudo junto e misturado, de Xuxa a Madonna, de Caetano Veloso a Banda Calypso. Eletrônica, hip-hop, repertório indie e as últimas novidades capturadas na web completam a receita. Cada um combina os ingredientes a seu modo. Morador do Jardim Botânico, Fernando Temporão, filho do ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, apostou no pop rock em sua estrei­a-solo. O disco De Dentro da Gaveta da Alma da Gente, lançado em 2013, já passou dos 12 000 downloads. Marcela Vale cresceu em Marechal Hermes e, mais recentemente, mudou-se para Cascadura. “Subi duas estações de trem”, diz, gaiata. Mais conhecida como a voz do projeto Mahmundi, a cantora ganhou dois prêmios Multishow com seu pop eletrônico e fez aplaudidas apresentações em casas concorridas como o extinto Studio RJ e o Circo Voador. Escondida atrás do nome artístico de seu trabalho, ela brinca dizendo que nasceu na internet, onde lançou sua obra, e não existe no mundo real.

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Barulhinho bom: Oito músicos que estão começando a despontar nos palcos do Rio (Foto: Felipe Fittipaldi)

A ligação entre artistas de origens tão distintas é virtual. Garota da Gávea, Mariana Volker  define-se como uma “ratinha de computador”. A dona de voz forte, presente no EP Palafita, de 2014, produzido pelo experiente Liminha, vive conectada. “Adoro, gosto de estar sempre presente, conversar com o público, criar conteúdo e ouvir o que a galera está fazendo”, diz. Quando não estão on-line, os novos nomes da cena carioca encontram-se no palco e na plateia de projetos novidadeiros como o Dobradinhas & Outros Tais, na região portuária, e Verão nas Arenas, além de espaços mais democráticos, a exemplo de Teatro Solar, Comuna e Audio Rebel, em Botafogo, Centro Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, e Oi Futuro Ipanema. São lugares pequenos, aos quais o espectador mais antenado vai sem saber necessariamente qual é a atração. Ainda cabem nessa lista o Castelinho, no Flamengo, onde, no dia 27, Brunno Monteiro mostra o pop rock de seu primeiro disco, Ecos da Rua, e o Café Pequeno, no Leblon, palco, na quarta (21), do lançamento de Amarelo, o álbum de estreia de Bruno Cosentino, mais voltado para a MPB.

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Outra característica comum a todos é o longo caminho pela frente: ninguém ainda estourou nas paradas, como os tijucanos Erasmo, Roberto, Tim e Ben Jor, ou pode gabar-se de já ter feito história, a exemplo da turma do samba e da bossa nova. “Por enquanto a gente investe nos projetos e costuma sair no zero a zero ou, pior, no prejuízo”, reconhece Mariana Volker. Essa novíssima geração, no entanto, já tem estrelas de grandeza promissora — a cantora Alice Caymmi e o duo Letuce, de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, são dois exemplos. Alvinho Lancellotti, Ana Cláudia Lomelino e Bruno Di Lullo também estão no bom rumo. O primeiro é vocalista do grupo Fino Coletivo e compôs, em parceria com Davi Moraes, a faixa-título do último disco de Maria Rita, Coração a Batucar. Em 2013, arriscou-se num trabalho-solo no álbum O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos. Ana Cláudia, já conhecida como a cantora da banda Tono, três discos lançados, é mulher de Bem Gil, guitarrista do grupo. Ela aposta agora no projeto Mãeana, experimentação com MPB, samba, pop e música eletrônica. Di Lullo, baixista, o último do trio mais experiente da turma, também toca no Tono e, recentemente, acompanhou Gal Costa na elogiada turnê do show Recanto. Na estrada, compôs com o baterista Domenico Lancellotti, irmão de Alvinho, as faixas de Meia Banda. Com participação de estrelas como Ney Matogrosso e Danilo Caymmi, o disco ganha lançamento físico pelo selo Rock it!, de Dado Villa-Lobos. Os oito personagens na foto que ilustra esta matéria representam uma turma bem maior, dedicada a levar adiante a tradição musical carioca. Fique atento: nossa próxima estrela pode muito bem estar tocando em um palco acanhado perto de você. 

Fonte: VEJA RIO