CINEMA

Proibido de filmar

Jafar Panahi dribla o regime iraniano e roda o documentário Isto Não É um Filme em sua casa

Por: Miguel Barbieri Jr. - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Em novembro do ano passado, o diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf (A Caminho de Kandahar) participou do encerramento da Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, para receber um prêmio e pedir ajuda. Queria que os cineastas presentes, entre eles Walter Salles e Hector Babenco, endossassem um abaixo-assinado exigindo a liberdade dos intelectuais presos em seu país ? o documento seria, então, encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Jafar Panahi, de 51 anos, é um dos diretores que peitam, na medida do possível, o regime autoritário do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Condenado à prisão por seis anos e impedido de filmar por duas décadas, Panahi revelou-se um símbolo da resistência ao realizar, entre quatro paredes, o documentário Isto Não É um Filme, estreia exclusiva do Cine Joia, para celebrar o primeiro ano da reabertura da tradicional sala em Copacabana.

Festejado ou premiado nos principais festivais internacionais, o realizador de O Balão Branco (1995), O Círculo (2000) e Ouro Carmim (2003) conseguiu mandar, clandestinamente e via pen drive, uma cópia de seu novo trabalho a Cannes, em maio. Mojtaba Mirtahmasb, codiretor da fita, serviu de pombo-correio. Caseiro e simples, porém profundo em sua crítica, o registro foi feito no apartamento de Panahi, em Teerã, durante sua prisão domiciliar. Uma câmera de vídeo digital flagra-o tomando café da manhã, conversando com a advogada, alimentando sua iguana de estimação, revendo suas obras... Surge, então, uma ideia: fazer um "não filme". Mirtahmasb aparece para rodar a produção. "Não posso filmar, escrever roteiros ou dar entrevistas, mas ninguém me impediu de atuar ou de ler roteiros", diz Panahi. Com uma fita-crepe, ele delimita os espaços do cenário num tapete e narra sua próxima história: a da moça prestes a entrar na faculdade que fica trancafiada em casa pelos pais fundamentalistas.

Próximo ao desfecho, um rapaz aparece para pegar o lixo e, numa conversa de elevador, esse estudante de arte revela seus dissabores com o regime de Ahmadinejad. O personagem viria do acaso ou de uma encenação? Pouco importa. Nas mãos de Panahi, seu retrato casual virou uma poderosa arma contra a censura e o totalitarismo.

Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb (In Film Nist, Irã, 2011, 75min). Estreou em 27/4/2012. Cine Joia.

Fonte: VEJA RIO