MEIO AMBIENTE

Discórdia na floresta

Construção irregular na Gávea provoca disputa entre a prefeitura e os moradores

Por: Felipe Carneiro - Atualizado em

fotos fernando frazão
(Foto: Redação Veja rio)

Encravada entre os limites do Parque da Cidade, da Floresta da Tijuca e do Horto do Jardim Botânico, a maior propriedade privada da Zona Sul, de 456?000 metros quadrados, é um pequeno pedaço do Éden, com trilhas em meio à mata, rios, cachoeiras e até mesmo as ruínas de uma antiga senzala. Na parte central do amplo terreno reinam oito bangalôs, desenhados pelo arquiteto Claudio Bernardes e com paisagismo assinado por Fernando Chacel, renomado profissional do ramo, morto em março último. Pois esse cenário idílico, habitado por sete privilegiadas famílias, pode vir abaixo a qualquer momento. Um processo movido pela Procuradoria-Geral do Município desde 2005, recentemente julgado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), prevê a demolição de todas as estruturas construídas. ?Tentamos um último recurso judicial, mas sei que agora há pouca esperança?, lamenta o artista plástico Raul Canto e Mello, dono da propriedade.

O caso é complicado. Pela legislação, o proprietário tem o direito de construir em até 10% da área, ou 46?000 metros quadrados. Juntos, os chalés somam bem menos do que isso. A questão é que a lei fala em apenas uma edificação, habitada por uma única família. Para erguê-la, seria necessário também o aval das secretarias municipais de Meio Ambiente e de Urbanismo, além do Iphan, uma vez que o terreno fica no sopé da Vista Chinesa, atração turística cujo entorno é tombado. Com base apenas em uma autorização do Ibama, de 1997, Canto e Mello ergueu os bangalôs, mais churrasqueira e piscina. ?Eu achava que o documento era suficiente, e reconheço que errei ao fazer a obra sem todos os papéis. Quero me adequar, mas a prefeitura só fala em demolir tudo?, diz ele.

fotos fernando frazão
(Foto: Redação Veja rio)

Hoje no foco da polêmica, a vasta propriedade foi comprada em 1972 pelo pai do artista plástico, Ciro Canto e Mello. Após sua morte, em 1982, a área ficou abandonada por catorze anos, até Raul decidir se mudar para lá, em 1996. Ele encontrou ali um bananal plantado por moradores dos morros da Rocinha e da Vila Parque da Cidade, alguns barracos e um bar. Aos poucos, retomou a posse e plantou espécies nativas no lugar dos casebres. ?O que o Raul fez no terreno merecia um prêmio. Ele estancou um processo de favelização que seguia a pleno vapor?, afirma Joaquim Bocayuva, presidente da Associação dos Moradores do Alto Gávea. A procuradora responsável pelo processo, Claudia Alves de Oliveira, pensa de maneira diferente. ?Ele diz que recuperou a mata e está protegendo o meio ambiente. Até pode ser verdade, mas o fato é que desrespeitou a lei?, argumenta. Para ela, pelo menos sete dos chalés precisam ir ao chão. Tomara que prevaleça o bom-senso. Afinal, entre a favela e os bangalôs, a melhor opção é a última.

Fonte: VEJA RIO