MEMÓRIA

O Rio em 1931

A cidade que viu o Cristo se erguer assistia a filmes na Cinelândia, comprava roupa na Casa Canadá e já começava a acompanhar a expansão das favelas

Por: Rafael Sento Sé - Atualizado em

Universal Images Group / Getty Images
Quem subia ao Cristo vislumbrava uma cidade sem prédios altos e com 1,5 milhão de habitantes. Era o tempo de cafezinho a 100 réis e América Campeão (Foto: Universal Images Group / Getty Images)

Nas mesas do Café Nice, nas coxias do teatro de revista, nos bancos de uma Praça Paris nova em folha e, enfim, nos bondes que cortavam a capital do país, os rumos da Revolução de 30 ainda eram assunto obrigatório. Um ano depois do levante e a uma semana da inauguração do Cristo Redentor, Getúlio Vargas, chefe do governo dito "provisório", agia com caneta afiada dando posse a um novo interventor no Distrito Federal, o cirurgião Pedro Ernesto, para o lugar de Adolfo Bergamini. Em menos de um ano no cargo, Bergamini conspirava com um aspirante à vaga de Vargas, Lindolfo Collor, e acabou afastado. Os recentes acontecimentos políticos tornavam a cidade, então com 1,5 milhão de moradores, ainda mais fervilhante. Nem a quebra da bolsa dos Estados Unidos em 1929 foi capaz de arrefecer o clima de euforia por aqui. Havia motivos.

A crise americana afetou mais gravemente os estados exportadores de gêneros agrícolas, como café, cera de carnaúba e erva-mate. Não era o caso do Rio. "A capital se fortalecia na mesma medida em que o estado nacional. Daqui, na década de 30, partiram as resoluções que na ocasião salvaram a economia agroexportadora do país", analisa o economista Carlos Lessa.

Arquivo G. Ermakoff
Um panorama da Glória com a Praça Paris e o Theatro Cassino (Foto: Arquivo G. Ermakoff)

A exemplo do que hoje acontece com Brasília, a classe média de então e os setores mais abastados da sociedade conseguiam empregar-se em repartições públicas. Seus mil-réis eram gastos com serviços os mais variados. Na loja de departamentos Casa Canadá, a Daslu da época, mulheres de empresários e políticos compravam a última moda de Paris e podiam até alugar geladeiras para guardar suas peles de visom. Entre 1917 e o fim dos anos 20, a frota do município havia passado de 2?000 para 35?000 automóveis. Grande estrela da música popular, o cantor Francisco Alves era fascinado por Chryslers, Chandlers e Bentleys e gostava de desfilar pilotando um dos possantes pela Avenida Rio Branco, centro nervoso da metrópole. Em suas calçadas ficavam o Palace Hotel e o badalado terraço com vista privilegiada do footing, a Confeitaria Lallete e o Café e Sorveteria Alvear, esses últimos disputando o título de principal point jovem, além do Café Nice, onde artistas costumavam marcar encontros.

O bairro da moda era Copacabana, visto como bom lugar para construir uma segunda moradia, de frente para faixas de areia tranquilas, sem as multidões que vinham tomando a Praia do Flamengo. Não era todo mundo que podia desembolsar 1,2 mil-réis para pegar o bonde Praça Mauá-Forte apenas para tomar sol e cair na água. Àquela altura, as poucas opções para um lanche eram todas grã-finas: o salão do Copacabana Palace, o restaurante OK e o Clube Atlântico, por exemplo. A região ainda estava longe de ser o lugar apinhado de edifícios que é hoje. Apenas o Lido tinha uma concentração de prédios mais altos, que ajudariam a disseminar o art déco na cidade. De resto, havia somente casas e quase nenhum comércio.

Coleção Brascan Cem Anos no Brasil / Acervo IMS
O bonde elétrico (Foto: Coleção Brascan Cem Anos no Brasil / Acervo IMS)

O melhor lugar para as compras era Botafogo, e a Tijuca tinha aura aristocrática, com funcionários do alto escalão do governo e portugueses ricos. O Rio era tão bonito que, já na primeira metade dos anos 30, inspiraria Hollywood (o romântico Voando para o Rio estreou em 1933), levaria André Filho a escrever os célebres versos de Cidade Maravilhosa e inspiraria também o cineasta americano James Fitz-Patrick, responsável por uma série de curtas da MGM sobre destinos turísticos ao redor do mundo.

As raízes de alguns de nossos problemas atuais, no entanto, estão no crescimento desenfreado e na falta de planejamento da época. As favelas inchavam-se a taxas de 14% ao ano, e ali teve início o processo de verticalização que poria fim ao projeto de "Paris dos Trópicos", do prefeito Pereira Passos. Com carros, bondes e ônibus demais, a Rio Branco registrava os primeiros engarrafamentos. O fornecimento de água já apresentava um déficit procupante: a última grande obra de reforço do abastecimento fora concluída em 1908 e tinha um prazo de validade de quinze anos. Diante dessa perspectiva negativa, o francês Alfred Agache foi contratado para pensar num plano de desenvolvimento urbano. Concluído em 1930, seu estudo trazia constatações cruéis, e as críticas foram mal recebidas. "Os resultados provocaram muitas polêmicas, principalmente porque, de certo modo, se passava um atestado de atraso para a engenharia e a arquitetura brasileiras", analisa o professor Edmilson Martins Rodrigues, do departamento de história na Uerj.

José Medeiros / Acervo IMS
O Jockey Club, na Gávea, que dividia com o Derby a atenção dos apostadores de turfe. A pista tijucana, duas décadas depois, daria lugar ao Maracanã (Foto: José Medeiros / Acervo IMS)

Alheia aos problemas que germinavam, a cidade fervilhava. Surgiam as primeiras choperias 24 horas, na Lapa, a Viena-Budapeste e a Munchen, que serviam especialidades alemãs e tinham garçonetes no lugar de garçons, novidade de sucesso instantâneo. Todo o quarteirão em frente aos Arcos, conhecido como "ferro de engomar", devido ao seu formato em triângulo, era tomado por casarões, ideais para restaurantes. Ali ficava, por exemplo, o Nova Capela, antes de se mudar para a Avenida Mem de Sá. Quem queria pegar um filme podia andar até a Cinelândia, onde ficava concentrada boa parte dos 95 cinemas da cidade, e os adeptos do teatro rumavam para a Praça Tiradentes. "Era a época da revista, espetáculos populares que satirizavam os costumes daquele tempo. Se não estourassem nas primeiras semanas, logo saíam de cartaz", conta a arquiteta Jane Santucci, autora de Os Pavilhões do Passeio Público.

Uma das peças de maior repercussão em 1931, Café com Música fazia troça com o tabelamento do preço do cafezinho. Apesar de haver pouca inflação, o interventor Bergamini instituiu que a bebida custaria 100 réis, uma conta redonda mas despropositada, causando protesto dos donos de botequim. O principal apelo da montagem, no entanto, era a trilha sonora, com oito canções da grande revelação do Carnaval, Noel Rosa, que estourou em 1931 com o samba Com que Roupa?, e seu disco de 78 rotações vendeu 15?000 cópias. O sucesso foi tamanho que a expressão que dá título à canção virou gíria, era usada em paródias e em anúncios publicitários. Por isso, o letreiro no Teatro Recreio trazia o nome do jovem à frente da menção ao compositor Ary Barroso, já bastante conhecido e que também colaborava com o musical, estrelado por Aracy Cortes. O surgimento de Noel e de uma geração de cantores desprovidos de um vozeirão como o de Francisco Alves só foi possível porque no fim da década anterior aparecera no mercado o microfone elétrico, que dispensava a gritaria. Com ele, o metiê musical passou a se abrir também para artistas como Mário Reis, Almirante e Lamartine Babo. Enquanto isso, a cantora Carmen Miranda dava seus primeiros passos, com Pra Você Gostar de Mim.

Divulgação
O cantor Francisco Alves (Foto: Divulgação)

Nem só de agitos noturnos vivia a cidade. O banho de mar já havia perdido a conotação de remédio para doenças e virado programa de família. Homens e mulheres vestiam maiô e usavam guarda-sol para se proteger do calor. Duas pistas de corrida de cavalo, a do Jockey Club do Brasil e a do Derby, nos arredores da Tijuca, faziam a festa dos apostadores. Além do turfe, outros dois esportes de origem inglesa, o remo e o futebol, eram bem populares. Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco já davam as cartas, mas tinham outros concorrentes à altura. No campeonato de 1931, organizado pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, foi o América que levantou o caneco. Russinho, do Vasco, balançou mais vezes a rede, deixando para trás Leônidas da Silva, craque da seleção brasileira, atleta do Bonsucesso. Na ocasião, São Januário era o segundo maior estádio das Américas, perdendo em tradição para o gramado das Laranjeiras. O Maracanã, que em 1950 seria erguido no lugar do Derby, não era nem um projeto.

Fonte: VEJA RIO