COTIDIANO

O Rio baixa a guarda

Com a redução de diversos indicadores de violência, como o de balas perdidas e o de roubo de veículos, a procura pelo serviço de blindagem despenca na cidade

Por: Bruna Talarico - Atualizado em

blindagem-03.jpg
(Foto: Redação Veja rio)

É incontestável que o carioca hoje desfruta uma sensação de segurança como não via fazia muito tempo. Depois de um longo período de tensão, a retomada de territórios que estavam nas mãos de bandidos renovou a esperança da população. Em efeito dominó, a política de pacificação trouxe profundas mudanças sociais e econômicas à cidade. Uma de suas consequências mais evidentes foi a valorização de imóveis situados nas cercanias das favelas. Poucos foram os setores que não lucraram com a nova ordem. Nessa linha, uma exceção foi o comércio de blindagem, ora em franco declínio. Com a queda de diversos índices de criminalidade ? entre eles o de vítimas de balas perdidas e o de roubo de automóveis ?, o morador da cidade vem recorrendo cada vez menos a essas medidas profiláticas em seus carros e residências. Enquanto o mercado nacional de reforço na lataria automotiva permanece aquecido, por aqui ele perde a força. Em meados dos anos 2000, nossa capital respondia por 24% das blindagens de carro no país, número que despencou quase à metade em 2011 (veja o quadro na pág. 26). "Hoje, quem opta por veículos ou imóveis blindados no Rio são empresários procedentes de outros estados ou países, que ainda associam a cidade à violência", reconhece Christian Conde, presidente da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin).

blindagem-02.jpg
(Foto: Redação Veja rio)
blindagem-01.jpg
(Foto: Redação Veja rio)

A queda na demanda pelo serviço é um alento sob todos os aspectos. De fato, o revestimento extra na carroceria pode ser um recurso importante contra roubos, sequestros e falsas blitze, crimes que até pouco tempo atrás apavoravam a população. Mas, como acontece com qualquer remédio muito forte, a blindagem tem efeitos colaterais desagradáveis. Para começar, sua instalação dói no bolso do cliente: não sai por menos de 40?000 reais e pode alcançar cifra cinco vezes maior, de acordo com o modelo do veículo e o nível de proteção escolhido. A mais simples das blindagens é eficaz contra armas de baixo calibre, enquanto na outra extremidade está o aparato capaz de deter até balas de fuzil. Além do custo, há outros problemas. Para colocar as placas protetoras é preciso desmontar o automóvel, num processo que pode se arrastar por mais de dois meses e, o que é pior, comprometer a estrutura do carro, se mal executado.

Há ainda um fator de peso a pôr na balança. Equipado com o sistema, o veículo chega a carregar 200 quilos a mais, o que diminui consideravelmente sua vida útil, em razão do desgaste do motor. É natural, portanto, que a lista de cariocas que abrem mão da blindagem aumente. Uma das primeiras figuras públicas a desistir da proteção foi o apresentador Luciano Huck. A mesma decisão foi tomada recentemente pelo empresário Luiz Aboim. Morador da Lagoa, ele pôs à venda seu automóvel reforçado. Pretende substituí-lo por um modelo convencional. "Hoje eu me sinto mais seguro andando pelo Rio, e o equipamento tornou-se supérfluo", diz.

blindagem-04.jpg
(Foto: Redação Veja rio)

No que tange ao mercado imobiliário, o panorama é semelhante. A cada caso de bala perdida crescia o interesse por edifícios com algum tipo de proteção contra disparos. Um dos símbolos desse zelo é o Centro de Convenções SulAmérica, inaugurado em 2009 na Cidade Nova, que ganhou vidraçaria reforçada em todas as suas faces, com capacidade para suportar tiros até de submetralhadora. Tamanha precaução fazia sentido. O edifício fica numa região que era considerada de alto risco, perto do Morro da Providência e do Complexo de São Carlos, áreas em permanente conflagração até serem ocupadas pela polícia. Tal qual ocorre com os veículos, a blindagem predial ? cujo preço varia de 3?000 a 4?000 reais o metro quadrado ? também está em baixa. Uma das empresas mais atuantes na cidade, a Blindaço chegou a instalar 6?000 metros quadrados do material em 2006. No ano passado, ela viu esse número cair para pouco mais de 200 metros quadrados. "A sensação de segurança resvala também na concepção dos prédios", acredita o arquiteto Guilherme Goldenstein. "Os projetos estão mais soltos. Não há mais apelo para tantos gradis e controles de acesso." É hora de trabalhar para que a conquista seja irreversível.

Fonte: VEJA RIO