Dupla cubana Los Carpinteros explica criação de suas obras

Em cartaz no CCBB, a exposição Objeto Vital conta com obras carregadas de humor e crítica

O desejo inicial de usar a madeira como matéria-prima levou ao nome do coletivo Los Carpinteros, fundado em 1992, em Havana, capital de Cuba, por três estudantes do Instituto Superior de Arte (ISA). O humor afiado e a criatividade logo multiplicada por outros suportes transportaram a arte de Marco Castillo e Dagoberto Rodríguez — Alexandre Arrechea deixou o projeto em 2003 — para além de sua terra natal. Cuba, no entanto, é a maior inspiração da dupla. A vida na ilha, que há décadas é combustível para inflamadas discussões políticas, traduz-se em uma produção desconcertante, bem representada pelas setenta obras da exposição Objeto Vital, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil.

Hoje vivendo entre Madri, na Espanha, e Havana, Castillo e Rodríguez já exibiram seus trabalhos no prestigiado Victoria & Albert Museum, na Inglaterra, e em galerias de outros países, como Alemanha, Canadá, Chile, Estados Unidos e México. No Brasil, marcam presença pela quinta vez. Camas enroscadas como pistas de montanha-­russa, uma piscina em forma de sola de tênis e outras surpresas instigam (e atraem) o público: depois de ultrapassar a marca de 100 000 visitantes em cada uma das unidades do CCBB em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, Objeto Vital já atraiu 66 850 pessoas no Rio, onde permanece até 2 de agosto. “Na arte só há uma coisa que importa: aquilo que não se pode explicar”, disse o francês Georges Braque (1882-1963). Agradecidos pela acolhida brasileira, os “carpinteiros” aceitaram o desafio de contrariar o conhecido pintor cubista e explicam para o leitor o processo de criação das cinco obras a seguir, todas no acervo da exposição carioca.

(Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Havana Country Club, 1994 No ano de sua formatura, os três estudantes de arte sofriam os efeitos da situação econômica em Cuba. A matéria-prima para a produção das obras era escassa — e, quando encontrava alguma coisa, o trio não tinha dinheiro. O jeito, à época, foi afanar madeira e material de decoração de grandes casas desocupadas. Veio daí a ideia gaiata da pintura em que os artistas aparecem como abastados jogadores de golfe, o primeiro de muitos trabalhos com viés político. “Desde o início, nós nos sentíamos como antropólogos da velha burguesia cubana”, conta Dagoberto Rodríguez.

(Agencia Galo/Divulgação)

Huella Adidas, 2005 Nos primórdios da Revolução Cubana, o líder Fidel Castro determinou que todas as piscinas do país, símbolos de riqueza na concepção da nova ordem, fossem esvaziadas. A diretriz provocou efeito colateral curioso: mesmo secos, os reservatórios tornaram-se objeto de desejo. Em uma série de esculturas, com azulejos, bomba e água, a dupla provoca discussão sobre a posse de bens materiais. Esta piscina do Los Carpinteros tem outra característica: no desenho das bordas, reproduz a sola de um tênis Adidas, autêntico sonho de consumo capitalista.

(Felipe Fittipaldi/Divulgação)

La Piel Roja, 2015 A aquarela faz referência a outro trabalho, Constrictora, uma grande cobra de 7 metros com broches de campanha de partidos políticos no lugar das escamas. A realidade brasileira marca presença na composição, curiosamente por causa de um escândalo antigo, o mensalão, mas, infelizmente, a comparação entre alguns homens públicos e ofídios não perdeu sua atualidade. “Esta é uma obra bastante autoexplicativa”, diz Marco Castillo.

(Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Trash — Shopping Cart, 2008 Aqui, o carrinho de compras de supermercado perde duas rodas e assume o formato de uma lixeira. A alteração da forma desencadeia uma inevitável nova leitura, que associa os hábitos de consumo com a produção desenfreada de lixo: 1,4 bilhão de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. “Somos induzidos a comprar mercadorias descartáveis para alimentar a sede de lucro, um imperativo do sistema global”, critica Castillo.

(Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Un Minuto, 2002 A ideia, com a escultura, foi tratar do tempo através do intervalo que se passa entre o corte de uma árvore, para a coleta de matéria-prima, e a exibição da obra em uma galeria. Quem está diante da criação, no CCBB, nem desconfia que o trabalho de madeira e metal, representando o fugaz espaço de um minuto, levou seis meses para ficar pronto. Precisamos de um período muito longo para desenvolver todo o nível de detalhamento que exige a produção artesanal e buscamos o contraste com o que representa, conceitualmente, um minuto”, explica Rodríguez.

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