Companhia circense carioca, Up Leon exporta talentos para Europa

Grupo de carreira longeva e discreta faz temporadas em parques durante o verão europeu

França Sales, Camila Salcedo, Juan Fonseca e Thiago Salcedo (deitado): a caminho da Europa (Felipe Fittipaldi/Divulgação)

Mesmo em atividade há pouco mais de 25 anos, a trupe carioca Up Leon não é muito assídua nos principais palcos da cidade. Um circuito habitual é o dos shoppings. “Já passamos por praticamente todos, exceto o Rio Sul”, conta Olga Dalsenter, fundadora e produtora executiva da companhia especializada em artes circenses. O repertório reservado aos templos de consumo pode servir para promover uma loja, animar a corrida natalina às compras ou simplesmente entreter a criançada. Profissionais do picadeiro, afinal, também têm contas a pagar. Do ponto de vista artístico, portanto, parece mais recompensadora a temporada que eles vêm fazendo no Teatro Serrador, com o espetáculo Os Sete Pecados, sempre aos domingos. Ainda não se animou? Deveria. Os malabaristas, contorcionistas, pilotos de monociclo e craques da perna de pau reunidos no grupo ostentam experiência internacional. Os oito integrantes do espetáculo no Centro já se exibiram na Europa e, depois da última sessão de Os Sete Pecados no Rio, em 2 de abril, começam a preparação para uma nova viagem. Vão engrossar o time de 35 membros da comitiva que, até maio, embarca para apre­sentações em países como Alemanha, Estônia, Finlândia, Letônia e Suécia.

No último dia 8, duas duplas embarcaram em navios de cruzeiro da companhia Tallink Silja, para atravessar o Mar Báltico na rota entre Estocolmo e a República da Estônia. Outros quatro colegas viajam na segunda (20) para o Europa Park, na cidade de Rust, na Alemanha, o mais famoso centro de diversões do continente depois da francesa Eurodisney. Esse é o mesmo destino de mais onze nomes com passagem comprada para a semana seguinte. Em abril, o parque Gröna Lund, em Estocolmo, recebe seis representantes da trupe. O processo migratório continua no mês seguinte, quando mais dez chegam à capital sueca e se espalham por três navios. Essa invasão carioca se dá às vésperas do verão europeu, a alta temporada do turismo e do entretenimento por lá, que vai de junho a setembro. Os Sete Pecados, por exemplo, a montagem que a companhia encena no Teatro Serrador, estreou em 2010 em navios da Tallink Silja e ganhou três meses de temporada em alto-mar.

(Arte/Veja Rio)

Juan Fonseca, filho de Junior Fonseca, também fundador do grupo, parte no dia 27 rumo ao parque alemão. “Estou ansioso, a preparação foi intensa. Esse foi o parque que abriu os caminhos da companhia na Europa”, conta. Tradição familiar é algo comum no ambiente de um circo, mas o caso de Juan é exceção. A companhia Up Leon funciona como uma especialização, uma pós-­graduação nas artes da lona. Apenas profissionais podem se candidatar às vagas, preenchidas através de audições. Os aprovados passam por um período intensivo de aulas e oficinas em um galpão na Leopoldina. “Oferecemos um salário competitivo e todo o material artístico, como figurinos e acessórios”, explica a produtora Olga Dalsenter, antes de revelar as virtudes da mão de obra brasileira. “Enquanto lá fora os artistas são especialistas em uma técnica, aqui buscamos desenvolver a versatilidade. Um mesmo integrante do nosso time sabe fazer muito bem malabarismo, monociclo e acrobacias. Parece clichê, mas nossas cores nas roupas e nossa espontaneidade chamam atenção.”

Olga era colega de Renato Ferreira na Escola Nacional do Circo, em 1991, quando ele esbarrou, na porta do espaço nas cercanias da Praça da Bandeira, com um empresário alemão em busca de talentos brasileiros. Rápido como um acrobata — que era, aliás —, Ferreira fechou negócio. Em seguida, convocou a amiga, entre outros parceiros, para as primeiras apresentações no Phantasialand, parque na cidade alemã de Brühl. Os poucos meses de estada previstos inicialmente foram prolongados por quase um ano e atraíram a atenção de outros empresários. Hoje, a companhia — batizada com a união de um comando circense, o “up”, ao signo dos quatro fundadores, Olga, Renato, Junior e Luis Carlos Gomes — tem cinquenta integrantes, metade deles proveniente de projetos sociais como o Circo Crescer e Viver e o AfroReggae. Carlos Nascimento, que já trabalhou na Alemanha e volta ao país neste ano, veio da segunda instituição. “Com o trabalho na companhia, tirei meus pais de uma área de risco, comprei casa própria e conheci o mundo”, resume o artista, que, orgulhoso, diz ainda ter trocado a arriscada vida no tráfico pelo circo. Palmas para a Up Leon. ß

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