Lava-Jato avança e atinge a família Barata

O empresário Jacob Barata enriqueceu à base de transações obscuras e troca de favores com poderosos e agora vê seu filho preso por ligação ao governo Cabral

Jacob Filho é preso pela Polícia Federal no aeroporto: estopim da Operação Ponto Final (Jotta Matos/Agência O Dia)

Tratado como barão, czar e rei do ônibus, o empresário Jacob Barata, 84 anos, construiu do nada um império de mais de cinquenta empresas dos setores de transportes, hotelaria, imobiliário e financeiro e que fatura cerca de 2 bilhões de reais anuais. Na noite de domingo (2), seu herdeiro e sucessor no comando dos negócios, Jacob Barata Filho, 63, foi preso pela Polícia Federal, em um desdobramento da Operação Lava-Jato, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, quando tentava embarcar para Lisboa. A detenção de Jacozinho, como o filho é chamado, foi um golpe violento não apenas para o octogenário, como também para o conglomerado que controla doze das 42 empresas de ônibus do Rio. Nas horas seguintes, foram recolhidos ao xadrez da sede da PF, na região portuária, outros dez empresários e dirigentes do setor, entre eles Lélis Marcos Teixeira, o presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), entidade que representa mais de 200 empresas de ônibus, responsáveis por 81% do transporte público fluminense.

A operação, batizada de Ponto Final, teve como objetivo desmantelar o esquema de corrupção mantido pelas empresas por décadas e que cresceu de forma inaudita no governo de Sérgio Cabral. O Ministério Público Federal calcula que, entre 2010 e 2016, foram movimentados pelo menos 260 milhões de reais em propinas e subornos, valor que pode chegar a 500 milhões. Desse total, no mínimo 122 milhões foram destinados a Cabral, que recebia mesadas dos empresários de ônibus até a véspera de sua prisão, em novembro. Em troca, as empresas eram beneficiadas com subsídios em impostos, autorização para aumento de tarifas e autonomia para influenciar as políticas públicas mais convenientes a seus negócios. “Esse é um dos esquemas criminosos mais antigos do Rio e um dos mais maléficos, porque prejudica a população de baixa renda que usa o serviço diariamente”, declarou o procurador Eduardo El Hage, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato no Rio.

A investigação conduzida pelo braço carioca dessa operação trouxe à tona o modus operandi de um esquema gigantesco que por cinco décadas cresce e se ramifica à sombra da corrupção. A própria ascensão de Jacob Barata reflete a maneira como todo um setor essencial para a vida dos cariocas e fluminenses se tornou refém de um grupo de empresários reunidos em um cartel. Descendente de judeus sefarditas nascido em Belém (PA), Barata chegou ao Rio em 1946, com 14 anos. Aqui, radicou-se em Piedade, subúrbio da Zona Oeste, foi cobrador de porta em porta na Baixada Fluminense, vendedor de joias e bancário. Aos 18 anos, e dono de um pé-de-meia razoável, comprou um velho Chevrolet, com capacidade para dez passageiros, e entrou no mundo dos transportes coletivos na linha Irajá-Madureira, numa época em que lotações como a dele cobriam itinerários à margem do sistema de bonde e de trens da então Capital Federal. Barata participou da expansão do transporte rodoviário (urbano e intermunicipal) a partir dos anos 50. Trocou os lotações pelos ônibus e beneficiou-se da confusão administrativa instalada no sistema de transporte público da cidade com a mudança do governo federal para Brasília — fenômeno que se repetiria na união do Estado da Guanabara com o do Rio. Junto a um pequeno grupo de empresários do ramo (quase todos sócios entre si), participou da distribuição das linhas na organização realizada por Carlos Lacerda e lançou a base de um modelo calcado na propina em troca de vantagens econômicas. “Esse é um sistema tão grande e enraizado no mundo político carioca que a prisão de Jacozinho se transformou numa bomba capaz de lançar estilhaços na Assembleia Legislativa, no Palácio Guanabara e em pelo menos umas sessenta prefeituras, incluindo a do Rio”, diz uma fonte próxima da investigação.

Desde o início do mês, o estado de saúde de Jacob Barata desperta atenção. Com histórico de problemas cardíacos, ele perdeu a mulher, Glória, morta há três semanas. A prisão de Jacob Filho veio somar-se a uma situação que, de tão delicada, tem levado os amigos e familiares a se preocupar com a saúde do patriarca, que preparou diligentemente Jacozinho para prosseguir seu reinado. Formado em engenharia de produção e com MBA no Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead), o filho sempre foi visto como uma versão evoluída do pai na gestão das empresas. “Enquanto o velho é grosseirão e tem jeito de mafioso, ele é polido, inteligente, faz intervenções pertinentes nas reuniões e é muito respeitado”, compara um político que conviveu com a dupla em mesas de negociação. Nos últimos vinte anos, ele liderou a expansão para o exterior, ao se lançar na área de transportes públicos, hotéis e instituições bancárias em Portugal. Foi também sob o comando desse apaixonado por carros possantes e vistosos que floresceu a relação com o governador Sérgio Cabral e estreitou-se ainda mais o controle do clã sobre a Fetranspor. “É ele quem manda de fato, sempre foi. Jacozinho é a cabeça de tudo, mas jamais carregou malas de dinheiro para alguém”, diz um executivo familiarizado com as práticas da entidade.

Ainda que compartilhe muitos dos métodos e ideias do pai, Jacob Filho buscou modernizar os negócios da família. Sua iniciativa mais ousada foi a compra da companhia aérea Webjet, em 2006, um investimento feito contra a vontade do patriarca. Com a empreitada, ele tentou reproduzir os passos da família Constantino, que, de potência do ramo rodoviário, migrou para o setor aéreo com a criação da Gol, em 2001. Sem experiência na área, viu a empresa transformar-se em um ralo de dinheiro e desistiu dela apenas um ano depois, quando a repassou à operadora de turismo CVC. Abastecida pelos voos charters da operadora, a Webjet resistiu mais cinco anos, até ser totalmente absorvida pela Gol, em 2012.

Discretos e habituados aos bastidores, os Barata têm aversão à exposição. A primeira vez que a família ficou sob os holofotes foi em 1994, em meio a uma tragédia. Daniel, o mais novo dos quatro filhos do patriarca (a primogênita é Rosane, seguida por Jacozinho e David), foi sequestrado em uma das garagens do grupo. O resgate foi pago, mas mesmo assim Daniel foi morto. O corpo só foi encontrado dois meses depois, em São Gonçalo. O assassinato do filho recrudesceu o isolamento da família, sempre cercada por um grande aparato de segurança. Demorou quase vinte anos para que os Barata voltassem ao noticiário, durante o casamento da filha de Jacozinho, Beatriz. A celebração aconteceu exatamente em meio aos protestos de julho de 2013 contra o aumento nas tarifas de ônibus. Um grupo de manifestantes acuou os convidados na porta da Igreja do Carmo, no Centro, e depois sitiou o Copacabana Palace, onde foi realizada a festa. O ato que começou como uma gaiatice de estudantes virou tumulto e houve a necessidade de intervenção do Bope — um manifestante acabou ferido na cabeça por um cinzeiro de vidro atirado da varanda do hotel.

Enterro do empresário Daniel Ferreira Barata, que foi sequestrado na garagem da Viação Normandy, em Bonsucesso (Carlos Moraes/Agência O Dia)

Passada a confusão do casamento da neta, que rendeu ao velho Barata o agravamento de seus problemas cardíacos e uma operação de emergência em Cleveland, nos Estados Unidos, a névoa em torno dos Barata voltou a ser rompida em outras duas ocasiões. A primeira, em 2015, quando cinco membros da família apareceram na lista de titulares de contas bancárias vazada do banco HSBC de Zurique, no chamado Swiss Leaks, com 17,6 milhões de dólares cada um. O vazamento lançou dúvida sobre a legalidade da transferência desses fundos para o exterior. Meses depois, em abril de 2016, revelou-se que a família controlava três offshores criadas pela empresa panamenha Mossack Fonseca para movimentar recursos e operações comerciais fora do Brasil, no meio da investigação conhecida como Panama Papers. Em ambos os casos, os Barata negaram a existência tanto das contas como das empresas offshore, mesmo diante das evidências documentais.

Manifestantes protestam em frente ao Hotel Copacabana Palace, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde acontece a festa de casamento de Beatriz Barata, neta do empresário de Jacob Barata (André Mourão/Agência O Dia)

O sistema de transporte público do Rio é gerido segundo características muito peculiares. O órgão destinado a fiscalizar o serviço, o Departamento de Transportes Rodoviários (Detro), tem atuação pífia e, por falta de controle público, ninguém sabe com clareza o faturamento do setor ou das empresas. Não à toa, seu presidente na gestão de Sérgio Cabral, Rogério Onofre, também foi preso na Operação Ponto Final. A principal entidade patronal do ramo, a Fetranspor, guarda mais semelhanças com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) do que com correlatas do mundo empresarial. Ali, os chefões do ônibus comandados pelo clã Barata dão as cartas e decidem o rumo das políticas para o setor no estado. Desde 1997 a família mantém o próprio banco, o Guanabara, e se vale de depósitos de transportadoras de valores para estocar dinheiro em espécie.

Os empresários criaram sua rede de proteção já nos primórdios da década de 80, quando elegeram seus primeiros representantes à Câmara Municipal do Rio. No passo seguinte, expandiram os tentáculos para o Legislativo estadual, prefeituras e secretarias de governo. Não demorou para a aproximação com o Poder Executivo. Em meio a uma greve de ferroviários, o então governador Moreira Franco, que ocupou o Palácio Guanabara entre 1987 e 1991 e hoje é ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, pediu pessoalmente a Jacob Barata que o ajudasse a conter os efeitos da mobilização. O empresário atendeu à solicitação prontamente e pôs nas ruas um contingente de ônibus suficiente para transportar os 40 000 passageiros que dependiam dos trens. Hoje, isolado no seu apartamento da Avenida Vieira Souto e com o filho atrás das grades, Barata assiste ao seu império sangrar.

 

Nota oficial do Grupo Guanabara, em resposta à reportagem de Veja Rio:

Com 60 anos de história, o Grupo Guanabara possui participações em 53 empresas, gera cerca de 125 000 empregos diretos e indiretos e contribui com mais de 220 milhões de reais por ano em tributos.

Hoje, é uma das maiores referências em transporte de passageiros no Brasil, com cerca de 25 empresas com mais de 20 000 trabalhadores e que transportam mais de três milhões de passageiros por dia.

O Banco Guanabara, fundado em 1987, vem se consolidando como instituição financeira seguindo rigorosamente todas as normas estabelecidas pelo Banco Central.

O Grupo Guanabara, seus acionistas e executivos têm se pautado pela retidão na condução dos negócios. A família Barata reforça que todos os investimentos no exterior realizados por seus integrantes estão devidamente declarados em seus Impostos de Renda e junto ao Banco Central do Brasil.

Antonio Pádua Arantes

Diretor-Executivo do Grupo Guanabara

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