Portela, meu amor

Justamente quando todas as atenções estavam voltadas para o antológico desfile que uniu lixo ao luxo na Beija-Flor do saudoso Joãosinho Trinta, com direito a Cristo Redentor censurado e tudo, fui arrebatada pelo rio que passou e encantou Paulinho da Viola muitos anos antes. Ao ver o desfile da Portela não conseguia explicar o que […]

Justamente quando todas as atenções estavam voltadas para o antológico desfile que uniu lixo ao luxo na Beija-Flor do saudoso Joãosinho Trinta, com direito a Cristo Redentor censurado e tudo, fui arrebatada pelo rio que passou e encantou Paulinho da Viola muitos anos antes. Ao ver o desfile da Portela não conseguia explicar o que sentia, só chorava. Copiosamente chorava. Alegremente chorava. E olha que a águia nem tinha passado ainda. Assustado, meu pai desabafou:

– Ah, não! Não vai me dizer que você agora é portelense, Thalita! Além de não ser Botafogo, também não vai torcer pra minha escola? Sacanagem, pô.

Salgueirense doente, ele não conseguia acreditar na emoção de sua pirralha. Ao contrário do que ele pensava, não tinha resolvido mudar de escola “agora”. Até então nunca torcera de verdade para nenhuma agremiação. Sempre achei tudo um espetáculo, torcia mesmo para a mais bonita, a mais encantadora, a que levantava a arquibancada.

Foliã de berço — fotos não me deixam esquecer que eu me esbaldava em bailinhos desde o tempo em que usava fraldas, fantasiada, evidentemente –, sempre me emocionei com a máquina do Carnaval da Sapucaí. Mas quando vi a Portela ali, na minha frente, não na tela da tevê mas no meio daquele povo todo, senti meu coração apertado, todo o meu corpo tomado. Nuca vira coisa mais bela… Bela por dentro e por fora, se é que pode se dizer isso de uma escola de samba.

Ah, eu que estou escrevendo e é isso o que quero dizer: a alma da Portela é linda. E grandiosa, gostosa, toda prosa. E pode ser prosa, a escola foi mais de 20 vezes campeã.

Por isso tudo, chorei. Mas do alto dos meus 13 anos, nem suspeitava que uma escola cruzando a avenida era capaz de tirar água de olhos que estavam ali apenas para ver, não para sentir.

Desde essa época, e lá se vão 26 anos, namoro a Portela à distância, um amor platônico, uma imensa paixão unilateral que já estava de bom tamanho para mim. Mas o inesperado aconteceu.

Fui convidada pelo presidente da escola, Sergio Procópio, para ir no alto do carro que levará os baluartes (a fantasia é de deusa/anjo/Rio Antigo, ou nada disso, ou algo disso. Sei que é divina). É muita emoção para um coraçãozinho azul e branco.

Antes do grande dia, fiz questão de conhecer a quadra (sei que é um absurdo eu nunca ter ido lá) e parti rumo a Oswaldo Cruz para provar a famosa feijoada da Tia Surica. Fui tão bem recebida que me senti em casa. O meu amor (leia-se Portela) me paparicou, me deu presentes, camisas, abraços, carinho, sambou comigo… E eu sambei com a bateria como se ela tocasse pra mim. E nosso namoro começou fervendo, sob um calor inclemente, que fez o suor jorrar e lavar meu espírito.

Nesse dia, tietei o Monarco e pedi uma foto com ele. Não sou de tietar. Não tietaria nem a Madonna, nem o Aznavour, nem o Paul McCartney. Mas o Monarco… Ah! Como não tietar o Monarco? Sorrindo de orelha a orelha, pedi a ele um abraço e dei uma bitoca na sua bochecha. E ganhei de volta um riso de menino que nunca vou esquecer. Menino feliz. Genuinamente feliz por fazer parte daquela festa de bambas.

Vendo a tarde passar, não segurei as lágrimas ao assistir à apresentação da dupla de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Danielle Nascimento, ao sentir o queixo cair com o requebro do pessoal da Velha Guarda, ao ver o poder que o Carnaval tem de transformar plebeus em reis e rainhas. Naquele dia, em pleno templo do samba, éramos todos nobres, devotos de sua majestade, a Águia Altaneira, que há anos colore de azul e branco o coração de quem se permite ficar radiante com um simples toque de pandeiro ou com uma bateria nota 10. Evoé, Momo!

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