Festival de baixa gastronomia

Não me lembro desde quando, mas sou fã incondicional de macarrão instantâneo (não vou dizer que é Miojo porque não estou ganhando pra isso). O meu, modéstia na China, é simplesmente o melhor. O mais magnífico, o mais sensacional, o perfeito. Não sei nada de cozinha, mas sou expert em Miojo (já desisti de não […]

Não me lembro desde quando, mas sou fã incondicional de macarrão instantâneo (não vou dizer que é Miojo porque não estou ganhando pra isso). O meu, modéstia na China, é simplesmente o melhor. O mais magnífico, o mais sensacional, o perfeito. Não sei nada de cozinha, mas sou expert em Miojo (já desisti de não dizer que Miojo é Miojo), capaz de criar receitas que agradem ao mais elaborado paladar.

Miojo com ovo, com salsicha, com legumes e shoyu, na manteiga com batata palha em cima (não faz cara feia, supercombina!), ao alho e óleo, com molho de gorgonzola e vinho branco, com requeijão, com feijão, com pimenta branca e atum… Meu Deus, eu sou um gênio do Miojo e como tal resolvi fazer o que já devia ter feito há muitos anos: um festival de baixa gastronomia usando todas as minhas invencionices num jantar volante com várias pequenas porções de delícia em forma de macarrão instantâneo.

A ideia nasceu numa tarde de terça-feira na casa da Roberta.

– Gata, vou fazer ovo cozido. Quer? — perguntou minha comadre, por volta das cinco da tarde de uma terça-feira.

Não digo não para ovo. Nunca. A qualquer hora do dia ou da noite, não importa se frito, mexido, cozido, não importa se acabei de comer uma buchada de bode… A resposta é:

– Claro!

Em seguida veio a pergunta:

– Quantos?

– Faço um só pra mim, mas se você qui…

– Quero dois.

O que cai melhor com ovo cozido? Salada verde? De jeito nenhum. Azeitona? Sou contra. Legumes? Nããão! Era o lanchinho da tarde da Roberta, minha amiga superlight e dedicada à alimentação consciente.

– Tem Miojo?

– Ã? — franziu toda a cara com a minha inocente indagação.

– Vou comer com Miojo.

– Miojo? Ah, Thalita, para de show! — disse Vera, a empregada hilária da Roberta. — Onde já se viu comer Miojo de lanche?

– Você está falando isso porque não tem ideia do quão incrível é o meu Miojo. É para comer a qualquer hora.

Ela riu e me deu a panela.

Na falta de queijo, fiz com requeijão e um pouquinho de vinho branco. Sem o pozinho. Ficou irretocável.

– Eca!

Ok, Roberta não achou. Nem quis experimentar, a pateta.

Quando Bia, musa inspiradora em forma de afilhada chegou, contei pra ela que arraso no Miojo. E naquele momento veio a luz:

– Vamos fazer um festival de baixa gastronomia?

– Vamos! — respondeu a pirralhinha, empolgada. — Mas o que é festival? E gastro… gastrono… Ah! Bora, dinda! Uhuuu! — vibrou. Sim, crianças de 9 anos já fazem uhu.

– Festival Bitha! Nossa, a dinda é mesmo ótima. Bia e Thalita dá Bitha. Lindo!

– Dinda, você é ótima e eu sou incrível, vai ser um espetáculo o nosso festival.

Bia toda trabalhada na autoestima. Adoro. Mas não sei com quem essa menina está andando.

– Vamos chamar quem, Roberta? Carlos, Jorge, Wiled, Quitos, Danica, Marcella, Fabio, Pauleta e Chico, Renata e Rubens, Duca e Rodrigo, Nádia e Lelé, Jordana e Vitor, Scholte e Samanta, Caíca e Cristina… Ah, seus pais também, claro, e as melhores amiguinhas da Bia…

– Vamos chamar? Por que ‘vamos’? O que eu tenho a ver com isso?

– Tudo. Vai ser aqui, ué.

– Aqui? Eu odeio Miojo!

– Mas foi aqui que nasceu a ideia! Não vai chegar a 30 convidados!

– Tá louca? Não vou sujar minhas panelas e minha louça com uma cabeçada em um festival idiota de macarrão instantâneo. Faz na sua casa!

– Mas ninguém vai levar a sério um convite para comer na minha casa. Wiled sempre fala que nunca tem comida lá para as visitas.

Wiled é um exagerado. Sempre tenho comida para oferecer para as visitas. Mas como ele é praticamente irmão e irmão é família, acabo esquecendo de comprar e ele que se contente com biscoito de água e sal. Quando tem.

– Não, gata! Menor chance de ser aqui!

– Mas não vai dar trabalho nenhum, você vai só comer, Roberta. Eu faço tudo. E a Vera e a Bia lavam!

– Obaaaa! Adoro lavar!

E eu adoro a empolgação infantil com água.

Ainda não aconteceu o festival, talvez depois da Copa. Só preciso convencer a Roberta. Tá difícil, mas com jeitinho eu consigo.

– Não entendo por que você não gosta de Miojo…

– Porque é ruim — costuma justificar minha comadre, sem dar mais detalhes.

Aposto que ela gosta mas tem vergonha de dizer que gosta. Aposto que faz e come sozinha quando não tem ninguém em casa. E enche do pozinho que diz fazer mal pra saúde por causa do sódio. Ou seria do glúten? Esse negócio de glúten me dá uma preguiiiça…

Roberta é chique (do tipo que desconhece o repertório do Genival Lacerda) mas é uma questão de honra fazer minha amiga se render aos encantos do Miojo. Tenho certeza de que ela só não gosta porque não experimentou o meu.

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