Feliz Natal ou Eu odeio rabanada

Que me chamem de louca, equivocada, desaplaudida. Sem paladar, sem bom senso, sem amor próprio. Natal chegando e eu só consigo pensar em uma coisa: a tal da rabanada. A insuportável rabanada. A despropositada rabanada. Resumindo, odeio rabanada! Pronto, falei, tô leve. O incensado acepipe natalino é basicamente pão, açúcar, canela. Nunca amei nenhum dos […]

Que me chamem de louca, equivocada, desaplaudida. Sem paladar, sem bom senso, sem amor próprio. Natal chegando e eu só consigo pensar em uma coisa: a tal da rabanada. A insuportável rabanada. A despropositada rabanada. Resumindo, odeio rabanada! Pronto, falei, tô leve.

O incensado acepipe natalino é basicamente pão, açúcar, canela. Nunca amei nenhum dos ingredientes separadamente, tudo junto, misturado e frito, então… dá arrepio. Mas dizer para alguém que não gosto de rabanada nunca foi uma experiência bacana. Olhares estranhos acontecem, reticências desconfortáveis se fazem presentes. Isso sem contar na desconfiança e no medo que ficam visíveis no ar.

É. As pessoas têm medo de quem não gosta de rabanada. Porque não gostar daquele pão cheio de (irc!) canela é praticamente um pecado, é insano, é imoral. Depois do susto elas viram psicólogas, querem entender o porquê, de onde vem o trauma que me fez odiar o que para o resto da humanidade é simplesmente a melhor invenção gastronômica de todos os tempos, a oitava maravilha do mundo, Deus em comida. Isso mesmo. Para muitos, se Deus fosse comestível, Ele atenderia pelo nome de Rabanada.

Mais do que não suportar, eu não entendo rabanada. Como não entendo azeitona, berinjela, brócolis, alface, rúcula (tem gosto de sovaco, como diz uma amiga minha), avelã, cogumelo, coentro (e quem taca coentro no feijão? Um crime!), tomilho (quem inventou o tomilho? Pelamorrr!), alecrim, cerveja quente, gim tônica, mulheres com mais de 18 anos com cabelo na cintura, esmalte fosco, calça saruel, gente famosa que não sabe lidar com a imprensa de famosos, gente que não sorri, gente que não recolhe o cocô dos seus cachorros na calçada, motociclistas que buzinam incessantemente por acreditarem ser donos da rua…

Mas todo ano tem Natal e todo Natal é a mesma coisa. A cada ceia, a frase da pessoa que me conhece mais do que ninguém se repete há anos:

– A primeira rabanada vai para… Tha-li-taaaa! – berra minha avó, ano após ano, depois da ceia, como se estivesse me dando o prêmio da Mega-Sena acumulada.

– Vó… Eu não gosto de rabanada…

– Não me diga!

– Digo!

– Desde quando, meu Deus?

– Desde que nasci.

– Não pode ser!

– Pode sim. Ok, desde que nasci é exagero. Desde que experimentei pela primeira vez, há uns 30 anos, pelo menos. Mas sempre rola esse diálogo no Natal.

– Mas por quê, Thalita?

– Porque você é esquecida, sei lá.

– Não. Quero saber por que você não gosta de rabanada! Que loucura, que absurdo, meu Deus do céu! – diz ela, indignada. ¾ Minha filha… Como você é esquisita.

Esquisita. Quem acusa é minha avó, que do jornal só lê o obituário. Que me convida para enterros com uma animação estarrecedora. Que se veste com roupa de festa para ir ao supermercado. Que compra, e usa, calcinhas com bundas embutidas (e também dá de presente para mim e para as amigas). Que passeia com casaco de frio no verão carioca. A esquisita sou eu.

Voltando ao meu paladar, aproveito este texto para fazer outra confissão. (O que está acontecendo comigo? Deve ser o tal espírito natalino me empurrando para a verdade.) Aos 12 anos, em uma viagem ao interior da Bahia, meu pai insistiu tanto que experimentei o que nunca quis experimentar: camarão. E não gostei. E vomitei. E embolotei. Até o couro cabeludo ficou cheio de bolotas vermelhas que coçavam. Descobri que sou alérgica a camarão.

– É frescura! – disse meu pai, ignorando a coceira que tomava conta do meu ser. Sempre foi lindo sentir o apoio da minha família. – Camarão é a melhor coisa do mundo. Você não pode ter alergia, isso é maluquice.

Ah, tá, quase respondi ao disparate.

Mas fiquei quieta.

Ao longo dos anos, dei duas ou três chances ao camarão. Não vomitei, não embolotei. Mas continuei sem gostar. Aqui entra a confissão em si. Meu pai estava certo: não sou alérgica a camarão. Pior: não tenho o menor apreço por ele! Implico com o gosto, com a textura, com a cor… Simplesmente não vejo a menor graça. Mas vai dizer uma coisa dessas para as pessoas? A fisionomia delas muda. Eu me sentia uma criminosa psicopata ao revelar que não gostava do crustáceo amado, idolatrado, salve, salve. Então mudei o discurso.

– Sou alérgica…

– Ah, coitada… – é o que sempre respondem, não tem jeito.

– Pois é… tadinha de mim, né?

Camarão é top. Nem pense em odiá-lo, o povo julga mesmo. Ser alérgica é compreensível, não gostar, não. Por isso, para não ser tachada de esquisita por mais ninguém, serei alérgica a camarão até o fim dos meus dias.

Com o Natal se aproximando e a necessidade de escrever alguma coisa feliz sobre ceia, Jesus, Noel, presentes, espírito natalino e blá… achei por bem escrever sobre a rabanada, aquele pão bobo que todos amam menos eu. Eu e minha fisioterapeuta. Isso mesmo! Agora tenho companhia, não estou mais só! Que felicidade ouvi-la dizer, entre uma mexida e outra na minha problemática lombar, que ela ODEIA rabanada! Odeia assim mesmo, aos gritos, em caixa alta.

Feliz Natal! Com ou sem rabanada, que ele venha como pretexto para que a gente agradeça e celebre as conquistas do ano que está indo embora. As grandes e as pequenas. Que o dia 24 seja lindo e o dia 25, com o chamado enterro dos ossos, mais ainda. Sem culpa, sem dieta. Que venha 2014!

Ah! Também não suporto Nutella. Por favor, não me crucifiquem! Juro que sou bacana!

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