Megahair

02 janeiro 2012 | 7 comentários

Esse é um assunto indigno de começar o ano, eu sei. A virada de janeiro merece mais, me perdoem, mas abro 2012 com um tema besta, besta, besta: megahair.

Costumo cruzar com inúmeras cabeleiras cabeludas descabeladas durante as festas de réveillon. Nada mais exuberante do que balançar bela crina, sinal de hormônios, beleza e fertilidade. Mas a quantidade de cachos alheios pendurados no cocuruto da mulherada me desconcerta a visão.

Se reparo na incompatibilidade entre o número de fios e o tamanho do crânio, paro de prestar atenção na conversa e dirijo o olhar para os ombros. Lá, invariavelmente, encontro as melenas tratadas descoladas do resto do corpo.

Como em um desenho engana olho, uma vez constatada a fraude é impossível retornar à impressão original do conjunto. As madeixas, antes tão atraentes, ganham um estranho aspecto de cachecol de pelos preso à nuca.

“Como será essa mulher sem o implante de Lady Godiva?”, costumo pensar. E quem será a dona do excedente capilar? 

Suspension of disbelief é uma expressão em inglês usada para definir a sensação de se deixar levar por uma obra de ficção. Um megahair medíocre destrói a suspensão da descrença.

A atriz pode, com o perdão do trocadilho, se descabelar pela perda do pai, pela morte do avô e pela calúnia do primo, mas, se percebo a falsidade dos caracóis de seus cabelos, me torno indiferente às lágrimas. Dali para a frente, todo ato soa a vaidade.

Eu adoro perucas, extensões e bigodes. São artifícios extraordinários, capazes de convencer o próprio ator de que nasceu para o papel. Klaus Maria Brandauer impõe seu maquiador por contrato. Martín Macías Trujillo é um mexicano residente no Brasil que tem o dom da caracterização sutil. Tê-lo ao lado é uma vantagem inaudita.

Mas os megahairs da atualidade nada têm a ver com o trabalho do Martín nem com as ambições de Brandauer. Eles existem em série, padronizados, cascatas enroladas no babyliss a cair pelos braços de matronas e virgens, pobres e ricas, gordas e magras.

Um aplique exagerado me afasta da interlocutora tanto quanto uma testa imexível, uma boca que não lhe pertence e um par de sobrancelhas arqueadas à Carequinha.

Envelhecer não é fácil.

Eu, já, já, entro na zona do agrião dos 50. Meu cabelo anda caindo, passo creme dia e noite e já não posso ser fotografada sem uma boa luz de frente.

Para as mais corajosas, a cirurgia é opção; mas faça e saia do país por um ano, até a pele assentar. O preenchimento dos vincos, a julgar pela profusão de bocas infladas, é um vício perigoso, difícil de largar. O Botox, outro. A meia peruca não é nada se comparada às intervenções cutâneas, mas ela faz parte da mesma fôrma da garota de 20, almejada por fêmeas de 0 a 80.

Bizarras Barbies.

Não quero julgar ninguém, eu mesma não sei que escolhas farei. Tendo a seguir minha mãe, que aguentou firme com bons resultados.

As Panteras não tinham peito. Hoje, seria inconcebível uma tábua como Farrah Fawcett ser escalada para o papel de felina-mor. A cabelama é tão sedutora quanto um peitão de silicone, e não é preciso bisturi para implantá-la. Virou obrigação.

Deus me ajude a lidar com tantas próteses.

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Comentários
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  • Luiz Felipe

    Ótimo texto... vc é uma inspiração. Obrigado!

  • Elizabeth Magliari

    Resista Fernanda...Ta ótimo assim...Sem peitos, sem botox, sem megahair... Simplesmente VOCÊ. Deixe estas coisas para suas personagens.

  • Tatiana Costa

    O que mais me assusta é olhar pra alguém e não saber o que de verdade é originário... do cabelo ao cílio tudo é fictício, tenho muitas vezes a impressão que estou conversando com bonecas em série com cabelo, peito e código de barras iguais,saber quem é quem ou o que é de quem se tornou tarefa mais difícil que ler em braille.Nossa Senhora do megahair que nos ajude!!

  • Tatiana Costa

    È cada dia mais difícil saber quem é quem...ou o que é de quem... Do cabelo ao peitão nada mais é originário... E o pior é que todas ficam com a mesma cara parecendo que saíram de um mesmo lote com embalagem e código de barras iguais, feitas em série! Nossa Senhora do Megahair nos ajude!!!

  • Ána Paty

    Querida Fernanda.. acabo de te ver em os normais, e quando entro aqui tenho uma menção a esse texto tão "verdadeiro" seu!!Nossa, vc colocou em palavras, tudo o que em mente eu pensava...hoje as mulheres, todas tem o mesmo cabelo, dos 0 aos 80. Jubas enormes, com cachos que caem como cascatas...e cabelos alheios! Elas estampam capas de revistas colocando os cabelos, com se isso fosse bonito e higiênico.. credo! Ri muito! E aproveitei e li seus outros textos, e confirmei o quanto vc é talentosa em todos os sentidos! Mesmo morando no interior de Sampa (São José dos Campos), agora sou leitora assídua de sua coluna carioca. É tão bom ler cronicas inteligentes! Parabéns por me tirar da monotonia cultural de internauta. Bjos e Maravilhoso Ano Novo pra vc e sua família!

  • Thaís

    - Nossa, seu cabelo cresceu! passa a mão na cabeça da amiga 2517537 kilos de craca no couro cabeludo. TRAUMA.

  • Helo Gama

    Simplesmente sensacional,parabéns Fernanda pela crônica!Vivo rodeada por mulheres siliconadas,botocadas e de lábios inflados,às vazes me sinto um peixe fora d'água.As mulheres infelizmente não estão sabendo envelhecer.