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17 maio 2013 | deixe seu comentário (0)
André Midani — presidente executivo das principais multinacionais da indústria fonográfica que atuaram no Brasil no período que vai da bossa nova ao brock — decidiu que viveria de música após assistir a um elegantíssimo registro de Lester Young, intitulado Jammin’ the Blues, em um cinema de arte na França do pós-guerra.
O francês, meio judeu, meio árabe, veio parar por aqui fugido do recrutamento da Guerra da Argélia, fez carreira como executivo de gravadora e, mais tarde, conquistou o México e os Estados Unidos. Por décadas, tentou, sem sucesso, rever o pequeno curta, mas não havia cópias em película e o videocassete ainda estava para ser inventado. Trinta anos se passaram até que ele tivesse acesso à preciosidade que o fizera ser quem era.
A trajetória de Midani começa no vinil e termina no download. Com o advento da pirataria, os artistas e as empresas que detinham a reprodução do conteúdo musical sofreram prejuízos importantes. Houve um imenso descompasso entre a tecnologia e a realidade, ainda organizada segundo a lógica do século passado.
Quando li sobre Jammin’ the Blues, corri para o computador para vê-lo. Toda vez que encontro o que quero no YouTube, ajoelho em agradecimento, ao mesmo tempo que desconfio que aquela acessibilidade toda vá acabar com o meu ganha-pão.
Consciência à parte, digite Jammin’ the Blues e descubra o que arrebatou o jovem Midani. Depois, leia a sua autobiografia para saber o porquê de você ter escutado muita coisa boa que você escutou.
Mas falo de Midani para chegar a duas outras dicas da selva de ofertas do idolatrável e temível YouTube.
A primeira é o curto making of de O Iluminado, feito pela filha de Stanley Kubrick. Nele, Jack Nicholson escova os dentes “em respeito aos colegas” e esquenta os motores para a cena do lobo mau, em que quebra a porta do banheiro a machadadas. Kubrick dirige o pequeno Daniel de megafone, com uma sinfonia a toda, estourando as caixas de som do set de filmagem, e Shelley Duvall leva broncas do diretor.
São cenas de uma intimidade reveladora.
A tortuosa relação entre Kubrick e Duvall é exposta sem restrições. Ambos se deram pessimamente. A atriz detestou o longo ano distante de casa, escorraçada pelo gênio, a chorar e se arrastar pelo cenário com uma criança no colo. Kubrick é violento, mas Shelley faz por merecer. É respondona, reclamona, carente, sugere falas. Nicholson paira soberano, ouve sem discutir, confortável no papel do algoz.
É interessantíssimo.
Room 237 é mais sensacionalista. Nele, iluminadomaníacos tecem suposições sobre as mensagens subliminares do filme. O mito do Minotauro, o genocídio dos índios americanos e até a chegada do homem à Lua compõem o quadro de teorias conspiratórias. Cadeiras desaparecem de um corte para outro, a máquina de escrever muda de cor, os enlatados com apaches no rótulo, dispostos meticulosamente pelo cineasta atrás da cabeça de Jack, além do desenho do carpete que inverte de sentido na cena de Daniel brincando no corredor, revelam o grau de complexidade da cabeça do americano com um QI de mais de 200.
Dá uma baita vontade de rever o filme. É claro que legalmente baixado, em uma locadora virtual perto de você.




