Macumba

17 junho 2013 | deixe seu comentário (0)

 

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia
em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.

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Luto

03 junho 2013 | 4 comentários

Em uma das cenas do espetáculo A Mulher que Matou os Peixes… e Outros Bichos, adaptação para o teatro dos contos de Clarice Lispector para os pequenos, Mariana Lima, Luciana Fróes e Ricardo Linhares contavam da alegria dos bichos de estimação que tiveram. O cachorro, o gato, a galinha, um não acabar de seres fofinhos, que alegravam seus donos com as estripulias deles, as brincadeiras, os carinhos e a amizade.

De repente, depois de um “aí…” , as crianças concluíam com o olhar vago: “… ele morreu”. E o outro? “Também morreu”, assim como o terceiro e o quarto da lista. Era de uma melancolia sem fim.

Os animais domésticos costumam viver menos do que os humanos. Quem se apega com frequência aos peludos e penados sabe da sucessão de óbitos, lágrimas e dramas bíblicos que pontuam essa relação. Para alguém mais suscetível, como eu, a desculpa de que apartamento não é lugar para cachorro vem bem a calhar. Não sou insensível, amei profundamente o Bodoque, o Joe, a Etelvina e a Frida. Chorei com a morte de cada um deles, a ponto de querer evitar novas perdas.

Para não ser acusada de mãe desnaturada pelos meus filhos, comprei um buldogue francês para o sítio. O Bife durou pouco, tinha problemas respiratórios seriíssimos e se afogou na piscina há três meses. Não desistimos, ganhamos um filhote de pastor preto e branco, como a mãe adotiva de Babe, o Porquinho. Platão faz o gênero intelectual e, mesmo sem possuir muita coragem, gosta de se aventurar sozinho pela mata. Vem tragédia por aí.

Em casa, no Rio, procurei cultivar a confiança dos animais silvestres. Achei que estaria imune à tristeza com eles. Por um ano, cativei dois casais de passarinhos com pão seco.

Afeiçoei-me imenso aos quatro. Sábados atrás, acordo em uma manhã chuvosa e dou de cara com o bem-te-vi macho pendurado que nem morcego, preso na palha da palmeira que ele usava para fazer o ninho. A pata estava quebrada de tanto que ele se debateu. Peguei a tesoura, cortei o ramo e o seguramos com um pano para que não caísse no chão. Agimos em mutirão. Nós nos preparávamos para levá-lo ao veterinário quando o acidentado voou e se acocorou no canto da varanda. Tentei segurá-lo, mas ele escapuliu com a asa avariada, o pé torto, e conseguiu chegar até o parapeito. Ficou ali, respirando na beira do precipício e, em um piscar de olhos, já não estava mais lá.

Foi de cortar o coração.

Como se não bastasse, dali a uma hora, a esposa fiel do passarinho apareceu piando. Piando, não, ganindo pelo companheiro. Era um gemido sofrido, doído, desesperado; acabou com o fim de semana. Pensei na situação dela, viúva, com o marido desaparecido e um ninho para terminar. Abandonaria os ovos? Ou encontraria um novo amor, na imensidão do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, compreensivo o bastante para ajudá-la com as crias do ex?

Não guardo esperanças de rever meu bem-te-vi.

A esta altura, já deve estar cantando no poleiro dos anjos.

A fêmea voltou chamando mais de uma vez. Hoje, colheu palha na mesma palmeira sem soltar um gorjeio. Conformou-se. Está enfrentando sozinha, a coitada.

Meu receio é que ele tenha morrido achando que a culpada pelo destino dele fui eu.

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Download

17 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

 

André Midani — presidente executivo das principais multinacionais da indústria fonográfica que atuaram no Brasil no período que vai da bossa nova ao brock — decidiu que viveria de música após assistir a um elegantíssimo registro de Lester Young, intitulado Jammin’ the Blues, em um cinema de arte na França do pós-guerra.

O francês, meio judeu, meio árabe, veio parar por aqui fugido do recrutamento da Guerra da Argélia, fez carreira como executivo de gravadora e, mais tarde, conquistou o México e os Estados Unidos. Por décadas, tentou, sem sucesso, rever o pequeno curta, mas não havia cópias em película e o videocassete ainda estava para ser inventado. Trinta anos se passaram até que ele tivesse acesso à preciosidade que o fizera ser quem era.

A trajetória de Midani começa no vinil e termina no download. Com o advento da pirataria, os artistas e as empresas que detinham a reprodução do conteúdo musical sofreram prejuízos importantes. Houve um imenso descompasso entre a tecnologia e a realidade, ainda organizada segundo a lógica do século passado.

Quando li sobre Jammin’ the Blues, corri para o computador para vê-lo. Toda vez que encontro o que quero no YouTube, ajoelho em agradecimento, ao mesmo tempo que desconfio que aquela acessibilidade toda vá acabar com o meu ganha-pão.

Consciência à parte, digite Jammin’ the Blues e descubra o que arrebatou o jovem Midani. Depois, leia a sua autobiografia para saber o porquê de você ter escutado muita coisa boa que você escutou.

Mas falo de Midani para chegar a duas outras dicas da selva de ofertas do idolatrável e temível YouTube.

A primeira é o curto making of de O Iluminado, feito pela filha de Stanley Kubrick. Nele, Jack Nicholson escova os dentes “em respeito aos colegas” e esquenta os motores para a cena do lobo mau, em que quebra a porta do banheiro a machadadas. Kubrick dirige o pequeno Daniel de megafone, com uma sinfonia a toda, estourando as caixas de som do set de filmagem, e Shelley Duvall leva broncas do diretor.

São cenas de uma intimidade reveladora.

A tortuosa relação entre Kubrick e Duvall é exposta sem restrições. Ambos se deram pessimamente. A atriz detestou o longo ano distante de casa, escorraçada pelo gênio, a chorar e se arrastar pelo cenário com uma criança no colo. Kubrick é violento, mas Shelley faz por merecer. É respondona, reclamona, carente, sugere falas. Nicholson paira soberano, ouve sem discutir, confortável no papel do algoz.

É interessantíssimo.

Room 237 é mais sensacionalista. Nele, iluminadomaníacos tecem suposições sobre as mensagens subliminares do filme. O mito do Minotauro, o genocídio dos índios americanos e até a chegada do homem à Lua compõem o quadro de teorias conspiratórias. Cadeiras desaparecem de um corte para outro, a máquina de escrever muda de cor, os enlatados com apaches no rótulo, dispostos meticulosamente pelo cineasta atrás da cabeça de Jack, além do desenho do carpete que inverte de sentido na cena de Daniel brincando no corredor, revelam o grau de complexidade da cabeça do americano com um QI de mais de 200.

Dá uma baita vontade de rever o filme. É claro que legalmente baixado, em uma locadora virtual perto de você.

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Meia

04 maio 2013 | 1 comentário

 

A meia-entrada para quem quer que apresente uma carteira de estudante representa um desfalque grave para o entretenimento e a arte. A cultura é o único segmento da economia que sofre intervenção nos preços sem a complementação do estado. Que empresário
aguentaria uma liquidação permanente de 50% no estoque?

Se fossem estudantes, vá lá, mas a distribuição indiscriminada de carteirinhas, praticada até em promoções de lanchonetes, transformou o documento em fraude. As entidades estudantis já fizeram vista grossa para a autenticidade dos filiados, mas, hoje, percebem a importância de sua regulação.

E ainda existem o idoso, os professores e as leis sazonais de 1 real aos domingos e meia em todos os teatros do município; bem como empresas privadas que anunciam o meio-ingresso ao associado sem consultar os profissionais do ramo.

Na luta pela sanidade dos negócios, os produtores assumem posição contrária aos interesses da maioria. Os políticos evitam o confronto e deixam seguir a velha regra. É melhor lidar com a dependência da cultura do que arriscar o eleitorado. Não vai aqui nenhum julgamento moral. É natural. É assim. O problema é a asfixia do setor.

Falarei do teatro, que é o que mais perto está da minha realidade.

O bom teatro é coisa rara. Mas quem não viu Bibi não viveu. Quem não assistiu ao Zenas Emprovisadas perdeu. Quem nunca foi ao Poeira devia ir. Quem não levou os filhos ao Família Addams deixou de fazer um programão. Quem não viu Pterodátilos, Deus da Carnificina, Viver sem Tempos Mortos, A Alma Imoral, In on It, Piaf, Os Ignorantes passou, foi. Teatro não tem replay.

Embora eu reconheça o porquê da máxima “vá ao teatro, mas não me chame”, quando penso nesses exemplos, e nem toquei na efervescência paulista ou na penca de atores machos que os palcos baianos nos deram, a afirmação de que todo o teatro é ruim não parece justa.

Além dos desafios e limitações artísticas, existe a crise financeira e jurídica que corrompe a ribalta. Muitas produções ainda operam na informalidade, a bitributação devora os dividendos e a mídia tem custos estratosféricos. Estancar a sangria da meia-entrada é só o começo.

O Senado se sensibilizou e aprovou a lei que restringe a 40% o número de ingressos com desconto por sessão, mas sem a chancela da Câmara dos Deputados tudo voltará à estaca zero. Note, não se trata de abolir direitos, mas de garantir 60% de bilhetes cheios para cobrir a retaguarda.

Sou a favor do teatro para todos, uma vez sanadas as contas. A bilheteria virou detalhe, barganha, é feio cobrar ingresso, mas considero ainda pior depender por completo do Erário. A Casa dos Budas Ditosos devolveu mais impostos do que recebeu em incentivos, e não é um caso isolado. Com limite de 40% de meias, teria contribuído com bem mais.

São Paulo deseja copiar o modelo de gestão da Rio Filmes. Nele, metade do orçamento é direcionada a projetos não comerciais, que dificilmente existiriam sem esse aporte, e a outra metade se destina a obras com potencial de retorno. O lucro realizado servirá para catapultar não só películas, mas empresas da área do audiovisual.

Seria bom se essa mesma visão de mercado fosse, de alguma forma, aplicada aos demais segmentos artísticos.

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Lei Áurea

22 abril 2013 | 6 comentários

Minha sogra, Irina Popov, é ucraniana. Os Popov se deixaram capturar pelos nazistas porque consideraram Hitler uma opção melhor do que Stalin. Bons tempos. Depois de amargar dez anos entre campos de trabalho e de refugiados, uma parte do grupo veio parar na Guanabara, a outra permaneceu na antiga União Soviética.

Evguéniy é um Popov de Kriviy Rig, na Ucrânia. Engenheiro aposentado, tem uma namorada, Lena, com quem divide uma datcha, um pedaço de terra, no quintal da casa dela. Lá, Génia planta as batatas que ambos comem no inverno. Em 1986, quando em visita aos parentes daqui, passeou pelos corredores dos supermercados exclamando ohs! e ahs! de fascinação.

Não entendia o porquê das diferentes marcas. Leite, para Génia, era leite. Carne era carne. Que mistério separava um Glória de um Nestlé, uma Becel de uma Doriana?

A sobrinha, Iratchka, enfrentou o tórrido verão do último dezembro carioca. Ginecologista em uma clínica de ultrassom em Lviv, no lado ocidental da Ucrânia, assistiu à queima de fogos em Copacabana e visitou Paraty.

Na despedida, refletindo sobre o que levaria dos trópicos, comentou saudosa: “Jamais pensei que um dia eu fosse experimentar o conforto de viver cercada de escravos!”.

Foi embora, deixando para trás a vergonha e a consciência da desigualdade social. A Revolução de 1917 socializou a pobreza, mas acabou com a servidão.

As relações entre patrões e empregados no Brasil seguem herdeiras de Casa Grande & Senzala, com senhor e servo dividindo o mesmo espaço comum. Nesse melê, as leis trabalhistas tendem a se tornar irrelevantes, as cargas horárias difíceis de ser mensuradas, bem como o direito de ir e vir. O que custa fazer um suco? Pegar uma roupa no chão? Como as mães faziam, antes das feministas e da competição do mercado.

A chegada dos filhos e o aumento da carga de trabalho transformaram a minha economia pessoal em uma microempresa privada. Hoje, sustento uma máquina que me permite representar e escrever sem que a retaguarda desmorone. Por entender que o pessoal de casa faz parte do meu processo produtivo, tentei aplicar nos contratos domésticos as regras salariais do setor empresarial. Sempre paguei FGTS, seguro-saúde, vale-transporte e hora extra.

Mas a pressão da vida adulta já me fez cometer abusos. Pode-se alegar que o Brasil só será um país desenvolvido no dia em que cada um lavar a sua louça, dobrar os lençóis e contar com uma ajuda bissexta na faxina.

Quando o transporte, a educação e a segurança pública, as creches e as lavanderias de esquina se tornarem uma realidade corriqueira. Por enquanto, o serviço doméstico ainda emprega um naco relevante da mão de obra sem formação superior do país.

O esforço de regular e definir os direitos desses prestadores de serviço é mais que bem-vindo. Sou abolicionista, pelo menos gosto de me ver assim, mas necessito da ajuda de terceiros para tocar o barco.

Uma legislação que profissionalize o legado maldito da escravidão já alivia a culpa da despedida da prima ucraniana. Mas não resolve a injustiça. Basta rever o discurso de Marlon Brando no clássico Queimada.

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