Limite

05 maio 2012 | deixe seu comentário (0)

Não importa quão bem você faça uma coisa, haverá sempre um garoto asiático de 12 anos fazendo o mesmo, muito melhor do que você.” Meu filho mandou essa máxima da internet no carro, sentado ao meu lado, enquanto eu dirigia. Comecei a rir, olhando para o meu carioca da gema, formado, como a mãe, na melhor cepa das escolas construtivistas da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Quando ele nasceu, eu era dona de uma prepotência invejável com relação à sua educação. Desejava que meu guri fosse bilíngue e tivesse uma formação tradicional. Mas a vida conspirou contra os meus anseios. Eu queria me afastar do modelo da minha infância, quando as descobertas de Piaget seduziram a classe média de Ipanema. Cresci durante a ditadura militar, no seio de uma família de artistas, e qualquer cerceamento à liberdade pessoal era visto como autoritarismo.Hoje, creio no contrário, tenho medo justamente da liberdade que desconhece as regras e o sacrifício implícito para o domínio de qualquer virtude. Os pais dos amigos do meu filho se parecem comigo, sempre me senti amparada pelo corpo docente nas crises escolares, mas discordo da condescendência com que as obrigações do estudante são tratadas no ensino mais liberal. Sinto como se a escola tivesse transferido para mim a cobrança.
Servir de carrasca foi o preço que paguei por não ter tido coragem de matriculá-lo em uma instituição severa. Funcionou, ele aprendeu a estudar, mas não foi fácil. Lamento, também, que as línguas estrangeiras estejam em segundo plano no currículo do MEC, mas a ideia de criar alguém distante de sua própria cultura me afastou dos educandários estrangeiros. O ideal parece não existir. E olha que estou falando de uma classe privilegiada.


A deficiência na educação, tanto pública quanto privada, é o grande empecilho para o desenvolvimento do Brasil. A tragédia da exclusão social, a falência da saúde, a truculência policial, as estradas esburacadas, todas as infindáveis mazelas nacionais são forjadas em sala de aula.
Países como a Coreia do Sul saíram do buraco enfurnando suas crianças em internatos por sessenta horas semanais. A Ásia é regida pela harmonia de Confúcio. Lá, o bem-estar comum está acima do desejo do indivíduo.

A noção de sacrifício vem de berço. É um perfil que produz uma mão de obra altamente qualificada, mas também provoca altas taxas de suicídio infantil.
Um amigo, pai de dois filhos de mãe alemã, me explicou que por volta dos 11, 12 anos as crianças da Alemanha são submetidas a provas seletivas. Os resultados definirão se aquele aluno poderá se transformar em um médico, um maestro ou geólogo, ou se será chaveiro, marceneiro ou contador.
Pareceu-me cruel essa definição tão apressada de quem virará doutor e quem permanecerá artesão. “Mas são os melhores chaveiros do mundo”, argumentou meu amigo.
Dificilmente atingiremos a mestria dos adolescentes orientais ou a eficiência dos chaveiros da Germânia. Este é um país de degredados, de filhos sem pai. As crianças imperam, o que eu não acho triste, mas as noções de dever e responsabilidade, muitas vezes, parecem estranhas a nós.
Em 1808, de Laurentino Gomes, sobre a vinda de dom João VI ao Brasil, Joaquim Marrocos, o homem incumbido de trazer a Biblioteca do Rei para o Rio, ficou horrorizado com o país vagabundo e ignorante que conheceu na chegada. Joaquim se casou, se apegou ao escravo, adquiriu outros e teve filhos. “A aversão a esse país [...] é um grande erro, de que há muito me considero despido. [...] Vivo em paz e abundância.” Dez anos depois, Marrocos havia descoberto o encanto e a crueldade da nossa sociedade imberbe.
João Ubaldo Ribeiro teve um pai terrível, que não aguentava conviver com um analfabeto dentro de casa, não interessando o fato de o pobre ter 5 anos de idade. Sob tamanha tensão, o escritor baiano aprendeu sozinho o bê-á-bá e se transformou em um dos homens mais cultos e inteligentes que conheço, mas foi incapaz de criar o filho Bento debaixo do mesmo chicote.
Oito anos depois da primeira experiência, tenho, agora, mais um rebento para matricular na escola. No lugar da prepotência, só ficaram as dúvidas. E bem abrangentes. São Bento ou Sá Pereira? Eis a questão.

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Madureza

21 abril 2012 | 3 comentários

 O romance Na Praia, de Ian McEwan, se passa na aurora dos anos 60. Edward e Florence casam-se virgens e sexualmente reprimidos. O matrimônio, na época, servia de atalho para a liberdade da vida adulta. Os jovens não tinham importância, vez ou voz. Seu maior desejo era crescer e se transformar na imagem fiel dos próprios pais.
A revolução de costumes que tomou de assalto a década dotou a juventude de um caráter heroico, libertário, igualitário, poético e incorruptível. Os valores morais da era vitoriana só foram sepultados na segunda metade do século XX, quando a terceira idade saiu de moda e perdeu definitivamente seu posto no mercado para a calça velha, azul e desbotada.
Cinquenta anos depois, ser jovem se transformou em obrigação. A revolta contra a opressão de uma sociedade dominada por anciãos cedeu lugar à angústia da juventude eterna. Ter mais de 30 anos não causa mais desconfiança, mas pena. As mulheres lutam contra as rugas e os homens contra a barriga. Aplicam-se Botox, restilene, faz-se lifting, implantam-se silicone e cabelo. Senhoras de 40 ostentam bocas de Pato Donald e as de 80 têm o mesmo ar esquisito das de 50.
No belíssimo filme de Wim Wenders sobre Pina Bausch, os bailarinos maduros suplantam em fascínio os mais novos. Mesmo a deslumbrante mocidade de Pina apenas aponta para a artista que ela viria a ser, a reunião de todos os seus anos de ex­pe­riên­cia. A japonesinha grita que é jovem, forte e bela, mas não consegue esconder a evidente fragilidade. Os antigos parceiros da coreógrafa, os que fundaram seu método e lhe serviram de tinta, ao contrário, são plenos de humor e inteligência, virilidade e compaixão, melancolia e tragédia.
Adriana Esteves me falou do prazer de encarnar um papel condizente com a sua idade e da conquista de poder fazer a mãe de um homem feito. A ignorância juvenil, apesar da invejável alegria e coragem, restringe o espectro das tramas. Ninguém nasce com a compreensão de que o ser humano é torto e falho. Ela chega mais tarde, destruindo as opiniões categóricas sobre qualquer assunto. A vida se mostra bem mais complexa do que sugere o furor maniqueísta dos verdes anos; perde-se a vitalidade, mas também, e graças a Deus, a prepotência.
Eu me recuso a acreditar que não há recompensa na velhice. E, se não há, é preciso inventá-la. A consciência da morte deprime e a deterioração física assusta. É duro manter o otimismo. Mas basta olhar o rosto dos bailarinos de Pina, com seus cabelos desgrenhados e suas linhas de expressão à mostra, uma sobriedade europeia de amadurecer que as Américas se recusam a adotar, para sonhar com uma alternativa menos cruel do que sofrer por não ter mais 15 anos.
Estou ficando velha. Não aguento mais assistir a crianças diáfanas desfilarem para lá e para cá nas passarelas. Apesar de irresistíveis, anseio que me provoquem algo além da tristeza de não me parecer mais com elas.
As conquistas recentes da medicina aumentaram a expectativa de vida da humanidade. A pressão social exercida por essa massa de gente grande, espero, enfrentará a ditadura da adolescência sem fim. Eu me sinto como se estivesse prestes a testemunhar uma reviravolta.
O balé é como o esporte e a matemática. As principais realizações acontecem muito cedo e a aposentadoria se dá logo aos 40 do primeiro tempo. Será que, a exemplo de Pina, não é possível substituir o culto à perfeição física pela sapiência da idade?
Quando minha mãe era bem moça, ouviu do velho ator português João Vilaret: “Fernanda, você tem muito talento, mas só vai entender isso daqui a vinte anos”.
Bibi está prestes a completar 90. No dia 1º de junho celebrará a data em cena, no recém-inaugurado Teatro Tereza Rachel. Já reservei meu lugar. Perguntada a respeito de um grande arrependimento na vida, Bibi respondeu: “Ter tirado as minhas sobrancelhas”. Que aspirante a atriz teria essa verve? Que belezinha imberbe evitaria a longa resposta enfadonha e a chatice de se levar a sério?
O homem velho é o rei dos animais.

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Manos

07 abril 2012 | 5 comentários

Eu me aproximei com relutância do caixão sobre os trilhos no crematório. Millôr estava lá. Conforme o rosto foi se fazendo nítido por debaixo da gaze branca, uma expressão irônica, quase um sorriso, apesar da boca arqueada para baixo, parecia revelar na carne a marca do seu espírito livre “como um táxi”. Gravatá, escudeiro fiel, me contaria na saída que, quando Millôr ainda estava no hospital, recém-saído do coma e zonzo entre os dois mundos, a doutora teria perguntado “o que houve?” e ele respondeu: “Ouve com o ou com h?”.

Não me atrevo a escrever sobre o maior jogador de frescobol que Ipanema já conheceu. Angeli fez uma charge em que um destroço de letras monumental surge boiando no oceano. Na praia, uma senhorinha explica ao marido: “É Millôr”. Tem toda a razão o Angeli. O homem é vasto demais, inteligente demais, impressionante demais, para ser resumido.

Além do mais, Millôr pertence aos meus pais. Graças à parceria dos três, tive o privilégio de conviver desde pequena com o gênio do Méier. Era uma amizade reverente, não podia ser diferente, Millôr já era Millôr muito antes de os Fernandos serem alguém; astro de O Cruzeiro e fundador do Pif-Paf.

Nos últimos anos, minha mãe viu desaparecer grande parte das referências de sua vida inteira: meu pai, Ítalo Rossi, Sérgio Britto, Paulo Autran, Raul Cortez, Gianfrancesco Guarnieri e Leon Hirszman. No dia em que o Millôr foi embora, conversamos mais uma vez sobre as perdas e eu quis confortá-la, dizendo que seres que não estavam lá antes, como os filhos adultos, os netos e os recém-conhecidos, vinham contrabalançar as terríveis ausências. Mas é mentira, nada substitui as testemunhas do tempo, os que passaram pelas mesmas experiências históricas, filosóficas, profissionais, partidárias e amorosas. Nada se compara a um amigo de longa data.

No sábado seguinte ao velório, fui assistir ao inesquecível show de Gal Costa, concebido por Caetano e Moreno Veloso. Miranda, a nova casa de shows da Lagoa, tem um som primoroso, à altura da voz, “a” voz tamanha da baiana mítica.

Nessa mesma semana intensa, a caminho do show Las Vegas de Roger Waters, no Engenhão, meu enteado de 17 anos me mostrou na internet um vídeo de Tom Zé enaltecendo Gal que eu não conhecia. Ela, deslumbrante, com um chapéu de aba larga de feltro claro, cuja sombra deixava apenas a bocona à mostra, esmerilhava em Minha Estupidez. Doeu de tão belo. Pedro escuta sem parar Domingo, Legal, Fa-Tal, Índia, Água Viva e Cantar. Agora, vai ter a sorte de ver a estrela ao vivo, retomando a Gal de outrora; dona, como nenhum outro dos baianos imortais, do dom sagrado de cantar.

Chorei muito no show. Não é roteiro, é dramaturgia. Sem nenhum cenário, ou luzes bregas, as músicas se sucedem entre a melancolia e o gozo. As novas composições, de uma tristeza infinita, se fundem com uma seleção preciosa do que Gal entoou de melhor. Ela está solta, poderosa e feliz, deslavadamente feliz. Só o mano Caetano para saber de Maria da Graça assim. A ligação dos dois permeia tudo e é a razão de ser do espetáculo, além do canto, é claro.

A presença de Domenico, Pedro Baby e Bruno di Lulo traduz o que tentei dizer à minha mãe para lhe aplacar a dor: o tempo toma, mas também dá em troca. Os três moleques que não existiam antes, assim como meu enteado, cresceram imersos nos trinados da musa e, hoje, retribuem no palco o que descobriram com ela. Moreno trouxe a turma para dentro de casa e provocou no pai a vontade de revisitar o caráter experimental de Transa. Em Recanto, Caetano completa a volta, convidando a diva para o êxtase da adolescência madura. No dia em que chegarem ao Circo Voador, a rainha vai sair carregada nos braços do povo e tomar a Bastilha.

Vapor Barato consegue ser igual ou, arrisco dizer, maior do que a versão original. Gal canta virada para Baby, este lhe concede uma reverência, olho no olho, e ela estende os braços para o solo de guitarra do herdeiro de Baby e Pepeu. “Está rolando um amor”, diz ele.

De fato. Um pequeno momento puro de amor.

Amigos, melhor tê-los. Filhos, também.

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Sansão

24 março 2012 | 3 comentários

Ele é um sonho de cão pastor. Esguio, ágil e agitado, tem pelagem acinzentada e vê na dona uma companheira para todas as horas. Cruzei com Sansão na Praia do Arpoador em uma sexta que passou. Era fim de tarde, o mar estava gelado e eu fiquei na areia com o meu filho menor.

Não notei a presença do esfuziante lobo caseiro até ele descobrir um coco vazio jogado no chão. Sansão começou a atirá-lo para o alto, mordendo a casca grossa. Quando dominava a pelota, cavava em todas as direções fingindo escondê-la. As cavucadas resvalaram para o meu lado, olhei para ver se alguém se manifestava, mas tudo o que ouvi foi um “San-são!”, devidamente ignorado.

A faixa entre a água e o paredão anda quase inexistente, a maré estava cheia e não havia muito lugar para ficar. Para escapar das reprimendas, Sansão decidiu avançar em direção às ondas. A investida deixou tresloucada uma moça alta e forte, de pernas esculturais e lombo rígido, liberto pela diminuta tanga. Enérgico, o mulherão se levantou por detrás de mim e se pôs a esgoelar o nome do animal repetidas vezes. Sansão, nem aí, saltitava fagueiro, encharcado de espuma até a barriga; o coco ainda entre os dentes. “Estou ferrada”, disse baixinho
o monumento de fêmea.

Eu me solidarizei com o desespero dela. O futum de um cachorro molhado dentro de casa é comparável ao horror do cecê do carro depois de um dia de enchente.

O quadrúpede de nome bíblico ressurgia, agora, de uma submersão total. Um rapaz apareceu do nada, e os dois engataram uma pelada com o mesmo coco de antes.
A Diana de Ipanema desistiu da bronca. Desgraça feita, deixa o pobre se divertir em paz. Afrodite voltou para o banco e Sansão dominou o meio de campo. Eu catei as coisas e me mudei para mais adiante.
Tive a ilusão de que a minha atitude passiva faria a Gabriela de Jorge compreender que estava errado deixar o Sansão ali, ainda mais com uma criança pequena por perto. Eu desconfio que a morena entendia a situação, mas sua relação com o cão parceiro estava acima da saúde pública, da segurança e da ordem. Era amor. Amor e amizade, nada lhes é superior.
Eu não reclamei porque achei maldade com o Sansão; não quis ser a estraga- prazer. Ele, de longe, era a criatura mais realizada do Posto 7.

Alguém aventou a possibilidade de liberar a Praia do Diabo para animais domésticos. Olhando para a cara do Sansão, tive ganas de aprovar a ideia. Mas é impossível proibi-los de fazer xixi e acreditar que todos os donos irão recolher as fezes dos seus bichinhos, improvável. A julgar pelo lixo acumulado na orla depois de um dia de sol, a degradação seria certa. Aos copinhos e às guimbas, aos sacos de biscoito e às latas de guaraná se juntariam as babas, pelos e secreções que emporcalhariam ainda mais o já impuro, fétido e poluído litoral.
Não há cidade que resista.
Eu admiro o empenho afetivo com que a Deméter da Rainha Elizabeth cria o seu animal de estimação. Mas não dá, ninfa. Na praia, não dá. O Sansão tem de encontrar outras maneiras de dar sentido à sua passagem pela Terra.
É proibido passear com cachorro nas Paineiras; mas na Lagoa, na altura do campo de beisebol do Corte do Cantagalo, tem um parque de diversões canino. Não é o Arpoador, eu reconheço. Talvez a deusa ache chato ficar assistindo ao amigo cão se acabar com as filisteias que balançam o rabo por lá. Mas Sansão trocaria a vista por uma matilha de peludas Dalilas.

Já é uma forma de compensação.

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Março

10 março 2012 | 2 comentários

 

Gosto de estar em casa quando anoitece. Sou tomada por uma melancolia atroz toda vez que me vejo em um táxi no lusco-fusco das 6 da tarde e olho, da rua, um prédio com as janelas iluminadas pelo aconchego de um lar. Logo penso no meu e tenho ganas de descer do veículo, bater na primeira porta e pedir para entrar até a aflição passar.

Deve ser desses medos atávicos, como o de cobras e lagartos, que faz o cair da noite ser uma hora tão delicada.

Morei muitos anos em uma cabana de Tarzan na floresta de São Conrado. O amanhecer era um espetáculo majestoso, mas a Pedra da Gávea e a mata fechada davam cabo do sol muito antes de o dia terminar. Um aperto no peito me tirava do lar assim que as cigarras começavam a zumbir. Eu pegava o carro e ia ver gente.

A natureza bucólica provoca uma solidão tão assustadora quanto a do táxi na Nossa Senhora de Copacabana.

É bom estar em casa, especialmente depois das 5, mas o ideal é que essa casa esteja perto de outras. Até São Conrado, minha ilusão de felicidade era não ouvir motor, descarga ou buzina. Eu vivi um bom tempo em uma cobertura no Humaitá com uma vista excelente, só que o ruído do Túnel Rebouças subia pela lateral do prédio altíssimo e reverberava na sala, no quarto e na cozinha. O trauma me fez buscar refúgio na montanha.

A vida de ermitã também se mostrou perturbadora. A falta de vizinhos e o som da escuridão davam passagem para uma insegurança ancestral. Durante o dia, o afastamento do campo só trazia alegrias, um júbilo proporcional à angústia do entardecer.

Quando visitei a Índia, fiz um safári na fronteira com o Nepal, em uma reserva de tigres e rinocerontes. Uma das atrações era o acampamento avançado, dentro da selva asiática.

Servia-se chá com biscoitos nas elegantes barracas inglesas e a ceia era regada a vinho. Tudo muito civilizado, mas quando os últimos raios dourados se esconderam atrás das árvores, do outro lado do rio, os animais se puseram a rugir. O Brasil não tem bicho grande, é uma onça aqui, uma paca acolá. A Índia é como a África; os pássaros são tão robustos quanto os paquidermes. Passarinho, lá, não gorjeia, grasna. Os macacos roncam, os elefantes bramem, as girafas choram, as hienas gargalham e os javalis grunhem em uma sinfonia assustadora que anuncia a madrugada.

Eu me deitei em pânico, abatida pela insignificância que atormenta os mamíferos desde os tempos do Triássico. Imagine o eco de um dinossauro cocoricando. Eras e eras se passaram e o estado de alerta continua ligado. Dormi mal como o diabo.

Um terror parecido me abateu, certa feita, no pacato sítio da família em Teresópolis. Saí no gramado para ver as estrelas. De repente, ecoou no vale um rugido devastador. Minha espinha gelou, olhei em volta à procura da besta-fera. O urro se repetiu. Achei mais prudente caminhar a passos largos até um abrigo e tranquei a porta com o coração palpitando. Dona Glória, a caseira, explicou que o vizinho havia comprado um leão de nome Gugu. Fui vê-lo no dia seguinte. Era um ser indefeso e deprimido em uma jaula apertada. Dava pena de olhar. O fremido noturno era lamúria do rei.

O toque de alvorada do galo é enérgico e positivo, mas a natureza entoa um lamento choroso no poente; prenúncio funesto, aviso trágico de que a morte pode estar à espreita.

Fiz a mudança de novo, dessa vez para um apartamento na Gávea com ônibus passando na porta, festa no condomínio e baticum de obra. Troquei o suposto silêncio do mato por uma acalentadora quietude interior. Estar no meio dos outros me acalmou imenso.

A volta à rotina de março me lembra essa mesma paz redentora.

As crianças na escola, o trabalho, os médicos e os engarrafamentos do furor produtivo nos arrancam do marasmo das férias. Adoro férias, mas me sinto protegida em meio à confusão.

Só, porém acompanhada.

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