A ópera de volta para o futuro

Quem lê este blog poderia pensar: mas que raios esse sujeito acha que ópera tem a ver com a nossa vida atual? Que relevância pode ter num mundo onde o dólar dispara, governos são ameaçados e crianças morrem afogadas fugindo de uma guerra sem sentido? Vire a página se está certo de que nada nesse […]

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Quem lê este blog poderia pensar: mas que raios esse sujeito acha que ópera tem a ver com a nossa vida atual? Que relevância pode ter num mundo onde o dólar dispara, governos são ameaçados e crianças morrem afogadas fugindo de uma guerra sem sentido? Vire a página se está certo de que nada nesse mundo se conecta, e por caminhos misteriosos. Mas se a pergunta encontrar um eco ou uma curiosidade; se achar que a arte tem chances de dizer algo em meio ao caos, continua.

Mesmo em meio aos maiores conflitos a arte sempre persistiu; assim como persistiram os exemplos de resistência e conivência. Não preciso voltar à Inquisição: são famosos, por exemplo, os casos na segunda guerra mundial dos artistas que fugiram da Europa por recusarem-se a compactuar com o Nazi-fascismo (Toscanini, Lehmann etc) — assim como o caso dos que vestiram o uniforme, filiaram-se ao partido ou flertaram com os grandes ditadores (Karajan, Grob-Prandell etc). Há casos dúbios, como o de Richard Strauss, bajulado pelo nazismo mas que soube utilizar de sua influencia para defender artistas perseguidos (o poeta Stephan Zweig foi um deles). Há casos em que não havia uma opção, como Maria Callas que tinha de cantar para as tropas nazistas que ocupavam a Grécia. Finalmente, há os artistas cujo notório — e vergonhoso — anti-semitismo foi apropriado pelo nazi-facismo muitos anos após sua morte, como o do compositor Richard Wagner. Pode-se argumentar que é difícil julgar as razões de quem compactua com regimes autoritários; mas é ainda mais difícil não valorizar a coragem de quem disse “não” e pagou um preço. R. Strauss, Callas, Toscannini, Karajan ou Wagner são artistas intimamente ligados à ópera. E estas convicções não estão distantes das que levam o poeta romântico a arrastar a carruagem da diva pelas ruas do Rio do século XIX.

E volto à ópera perguntando se essa bagunça toda que estabeleceu-se no mundo não teria a ver com falta de lideres? No mundo da ópera certamente essa é uma questão atual. Recentemente o jornal inglês The Telegraph publicou um artigo interessante em que perguntava: “Who can we trust with the future of opera?” Sim, a quem podemos confiar o futuro da ópera? (http://www.telegraph.co.uk/opera/what-to-see/operas-major-current-crisis/). O artigo, tomando basicamente a cena lirica na Grã-Bretanha como parâmetro, mostra como existe uma carência de pessoas com visão suficiente para poder guiar essa arte tão rica pelo século XXI e além. Estarão os homens de visão tornando-se raros num mundo em que o compromisso com um legado e investimento em acesso (a tal “democratização”) à arte traveste-se em ópera no cinema ou produções que são apenas pueris e escandalosas? Ópera no cinema é um problema. E é difícil explicar. A melhor metáfora é a história de uma amiga paulista que costumava a dizer que no Rio não havia pizza, havia sim uma coisa gostosa que envolvia farinha e queijo com molho de tomate e orégano; mas que não era pizza. A mesma coisa é ópera no cinema: nada supera a experiência no teatro, a ópera de verdade. Ir ao cinema para ver ópera, embora legítimo num país em as temporadas lirica ainda sao escassas, é apenas um sub-produto do original. Pode ser a única opção de ópera fora dos grandes centros mas ainda assim é, com seus close-ups pouco favoráveis aos cantores, uma estranha variante do que a ópera realmente é. É um remédio que tira a dor mas não cura.

Falar contra ópera no cinema éum vespeiro. Da mesma forma tentar mostrar como por trás de algumas supostas versões modernas ou escandalosas estáapenas uma pueril falta de conhecimento. Nem se fala apontar que nem tudo que vem de fora da América Latina émelhor e tem mais qualidade artística. Todo embrulhado em muito papel dourado, esse projeto antiquado éperdedor de partida. Nem vale voltar ao tema do fascínio pelo estrangeiro que nos éembutido.: prefiro um fascínio pela arte de alta qualidade seja ela nossa ou de qualquer país, mas que dêespaço para nossa voz. Mesmo em meados do século XIX quando a Ópera Nacional nascia, o conceito jáera questionado. Épatético o discurso de acusar de inveja toda forma de desmascarar o Rei nu. Não émais aceitável que poucos auto-ungidos ditem o que é“qualidade artistica”e façam-se donos maneira como se pensa cultura num país de todos. Na divergência estáa diversidade e a riqueza. Se aquela pergunta ficou congelada no tempo, a imensa interrogação sobre lideranças para a arte no Brasil de hoje écada vez mais evidente.

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