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Resenha por Rafael Teixeira

"Vocês estão me vendo?", indaga a personagem de Andréa Beltrão às de Malu Galli e Mariana Lima. "Sim", elas respondem. A primeira, então, move ligeiramente o corpo para dentro da sombra e repete a pergunta. E de novo, e mais uma vez, até ser totalmente envolvida pela escuridão. Um dos trechos mais bonitos de Nômades, o diálogo traduz com força poética o que parece ser, se não a única, talvez a reflexão central da peça, a respeito da transitoriedade. Criação coletiva do diretor Marcio Abreu e de Patrick Pessoa, com colaboração ativa do elenco e de Newton Moreno, a dramaturgia tem como fio condutor a relação entre três amigas íntimas - Andréa, Malu e Mariana, nenhuma delas identificada por um nome - surpreendidas pela morte repentina de uma quarta, igualmente próxima. Os desdobramentos do luto estão em cena: uma está tão abalada que se recusa a ir ao enterro, a outra se preocupa com o que os convidados vão comentar ao vê-las juntas, a terceira faz um belo discurso aos enlutados e todas se entregam a uma bebedeira para celebrar a amizade. No entanto, tudo se configura mais como mote narrativo do que uma trama convencional, daquelas com início, meio e fim. A essa linha vão se cruzando fragmentos de teatralidade, ora em intrigantes momentos nos quais as atrizes parecem estar falando de si mesmas (as personagens, inclusive, são atrizes), ora em quebras da quarta parede, com todas se dirigindo à plateia, e notadamente em números musicais que podem sugerir a potência transitória da canção. Donna Summer, Maria Bethânia, The Cure, Tom Jobim, Nirvana e Michael Jackson marcam presença, primeiro em performances inteiramente dubladas, que vão ganhando as vozes das atrizes ao longo da sessão. Explicando, parece complicado, mas sob a batuta de Abreu (responsável pelo cenário ao lado de Fernando Marés, lindamente iluminado por Nadja Naira), tudo funciona como um relógio suíço, sem pôr de lado a emoção. Arrebatadoras individualmente, e exibindo ainda mais vitalidade em conjunto, Andréa, Malu e Mariana são a perfeita tradução do grande paradoxo do teatro: uma experiência efêmera (transitória, como nômades?), mas que, por vezes, marca profundamente a memória.

Ficha técnica

Direção: Marcio Abreu

Duração: 80 minutos

Recomendação: 14 anos

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