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Ecos da pandemia: um ano sem aulas presenciais

Estudantes universitários cariocas relatam suas experiências e sentimentos desde a primeira sexta-feira 13 de 2020, o dia em que tudo parou

Por Rodrigo Reichardt* 16 mar 2021, 13h50

Para os universitários que não vivenciaram o decreto do Ato Institucional N° 5 em 1968, provavelmente não houve pior “sexta-feira 13” do que a ocorrida há um ano. Sexta-feira, 13 de março de 2020, ficou marcada como o dia em que se anunciou que tudo iria parar. O novo coronavírus mostrava ser coisa séria. A lembrança do que seria o último dia de aulas presenciais na PUC-Rio desperta em universitários sentimentos diversos. Em comum, as saudades do campus, dos amigos e de uma vida acadêmica tradicional, que muitos ainda mal puderam experimentar.

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“Aquela sexta-feira 13 foi assustadora”, diz Leonardo Dallen, de 19 anos, então estudante do curso de Comunicação Social com especialização em Cinema, na PUC-Rio. Segundo ele, não tardou para que, em um ambiente configurado por medo e incerteza, boatos de pessoas infectadas com Covid-19 germinassem pelo campus universitário. Habituado a voltar para casa de Uber, lembra que só se ouvia sobre isso no rádio. “Era um cenário que estavam me descrevendo, mas eu não via ainda com meus próprios olhos. Foi igualzinho à transmissão do Welles”, conta em referência a War of the Worlds, transmissão radiofônica de Orson Welles em 1938, quando relatou a ouvintes da rádio Columbia Broadcasting System (CBS) uma invasão marciana, espalhando terror entre o público estadunidense, que não sabia tratar-se de uma radionovela.

Leonardo vivia há menos de duas semanas a experiência universitária quando ela foi reduzida a somente um breve experimento. Segundo o psicanalista Carlos Alberto de Mattos Ferreira, autor de “Freud e a fantasia: os filtros do desejo”, para quem está entrando na universidade, “o primeiro impacto é o da quebra de expectativa de uma tão sonhada imersão nesse novo mundo. E, nos sonhos, incluem-se as novas amizades presenciais no campus, a inserção em um ambiente acadêmico mais propício aos seus interesses, as surpresas que o espaço físico e cultural podem oferecer, a tão sonhada autonomia em relação às regras mais rigorosas do ensino médio e o rompimento com uma etapa adolescente que é inaugurada por esse ritual de passagem.”

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Além do início da faculdade, Leonardo experimentava também o início de um namoro. “Eu comecei a namorar justamente naquela época, a paralisação das aulas presenciais é tão velha quanto meu namoro”, brinca. “Não foi algo fácil. Era frustrante não poder encontrá-la, não poder vê-la, nem sair para fazer programas de casal. E ter que resolver os problemas à distância mesmo… Mas nós demos um jeito e transformamos isso numa força.” A pandemia alterou ainda os planos acadêmicos de Leonardo. “Eu também mudei de faculdade. Estava fazendo Cinema, só que, com a pandemia, acabei seguindo uma jornada para encontrar outro curso: Ciências Contábeis.”

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Diferentemente de Leonardo, Renata Marins, também de 19 anos e estudante de Jornalismo na PUC-Rio, afirma que a primeira sexta-feira 13 de 2020 “não fugiu do normal”. “Eu jurava que iria durar umas duas semanas, estourando um mês, e que não ia passar disso”, lembra a estudante. “Nunca me ocorreu que iria durar assim. Sempre que a crise piorava, eu pensava: ‘pelo menos, semestre que vem deve voltar’. Estava sempre criando esperança dentro de mim. Não acho que me iludi em relação a isso. Eu tinha esperança.”

A única vantagem que conseguiu ver na interrupção das aulas presenciais, diz ela, é que, morando longe da faculdade, não precisaria mais gastar tempo para locomoção. Enquanto gastava em média três horas de ida e volta, pode aproveitar melhor esse tempo no sistema de educação à distância.

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O mesmo pensamento é compartilhado por Ericka Levigard, caloura universitária de Comunicação Social, Cinema, no 1º semestre de 2020. “Eu diria que todas as situações têm um lado positivo e um negativo. Eu não queria que as aulas presenciais parassem, mas, frente a essa situação, tentei me adaptar”, diz ela, mencionando que aprendeu a editar vídeos durante o período de confinamento. Mattos explica que, assim como Ericka, “muitos produziram e criaram inúmeras formas de se relacionar com esse mal-estar inevitável”.

O sentimento geral, no entanto, é de desolação, de acordo com o psicanalista Mattos. “Amizades virtuais foram construídas, mas a falta da presença física de amigos e o distanciamento social, num momento em que os interesses eróticos encontram-se no auge desse início da vida adulta, provocaram um sentimento de tristeza e de decepção com o real da pandemia”.

Rodrigo Reichardt*, estudante de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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