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Corrente solidária em prol do sonho da universidade frente à pandemia

Com diferentes abordagens de ensino, organizações sociais cariocas amparam vestibulandos em dificuldade

Por Giovanna Cavalieri, João Francisco Mendes e Maria Fernanda Lemos* Atualizado em 11 jan 2021, 11h14 - Publicado em 8 jan 2021, 12h05

O ano letivo revela-se ainda mais crítico aos vestibulandos. Com o isolamento social, muitos alunos e alunas enfrentaram, e enfrentam, desde falta de material e transtornos emocionais decorrentes das mudanças de rotina até estrutura precária de internet. Quase 60% das moradias brasileiras não têm acesso pleno a computadores e redes telemáticas, estima o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Os danos seriam ainda piores não fossem socorros solidários como o da Rede de Educação .

Desdobrado em várias frentes, o suporte pedagógico oferecido pela organização social Redes da Maré contempla alunos que farão as provas do Enem 2020, adiadas para janeiro e fevereiro de 2021. Os esforços buscam restituir sonhos prejudicados pela pandemia, ou seja, ingressar na universidade desejada. “A gente não está trabalhando com a nossa excelência, mas com a redução de danos”, ressalva o professor e coordenador pedagógico do programa, Thiago Labre, de 37 anos.

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A Redes da Maré é uma instituição da sociedade civil que desenvolve ações comunitárias voltadas aos 140 000 moradores das dezesseis favelas integrantes do Complexo da Maré, na Zona Norte. A vertente educacional oferece suporte pedagógico a estudantes entre 18 e 60 anos unidos pelo sonho de cursar uma universidade. A ampla faixa etária deve-se, observa Labre, à entrada precoce de muitos moradores no mercado, antes de concluírem o ensino médio: “Jovens pobres frequentemente precisam ingressar no mercado de trabalho para poder comer. Em função disso, vários não concluem o ensino médio e só pensam na faculdade depois de adultos”.

O programa já ajudou mais de mil estudantes a ingressarem em universidades públicas. Para estudar na Rede Educação, os alunos se inscrevem no início do ano, pagam uma taxa simbólica de R$ 10 e passam por uma entrevista.

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Com a pandemia, a iniciativa ajustou os recursos e as dinâmicas pedagógicas ao modelo online. Adotou plataformas como o Google Meet e o Facebook para que alunos pudessem acompanhar as aulas remotamente. “Não retornaremos às aulas presenciais sem vacina”, afirma Thiago Labre.

A dificuldade de acesso à internet, comum a diversas moradias da Maré, derrubou o número de participantes. Dos 300 alunos distribuídos nas cinco turmas iniciais (três na Nova Holanda, uma na Vila do João e uma na Vila Pinheiros), restaram vinte frequentadores regulares das aulas online. Ainda assim, 35 estudantes estão inscritos na prova da UERJ e 40, na do Enem.

Ana de Oliveira, de 26 anos, moradora da Nova Holanda, é uma das alunas que conseguiram se manter no modelo online. Ela conheceu a ONG por meio de um amigo, ex-aluno da Redes Educação, formado em Educação Física. Embora destaque a “turma acolhedora”, a jovem relata que estudar em casa tem sido “muito difícil pela instabilidade da internet”. Ana se diz esperançosa graças ao suporte das aulas remotas, à noite.

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Igualmente solidário, o Enem do Bem foi criado em maio pelos gêmeos Francisco e Daniel Kligerman Carvalho, de 18 anos, para entregar apostilas a estudantes prejudicados com a suspensão das aulas. O material didático reúne as áreas de conhecimento cobradas no exame nacional.

Francisco e Daniel cursam o terceiro ano do ensino médio. Assim como tantos outros estudantes no Rio e Brasil afora, tiveram de se adaptar às dinâmicas online e às novas rotinas familiares. Há sete meses eles organizam uma série de doações de apostilas para ajudar os colegas que sofrem com a falta de material decorrente da pandemia. “Mesmo morando na Zona Sul  e tendo acesso à internet e a materiais de apoio, tivemos dificuldades para nos adaptarmos às novas práticas de estudo no começo da quarentena. Muitos não contam com essas facilidades. Por isso, criamos o projeto”, justifica Francisco.

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Os irmãos encomendaram a primeira leva de apostilas em julho, firmando uma colaboração com a ONG Redes da Maré. Entregaram pessoalmente na comunidade as 100 apostilas iniciais. Em setembro, outra leva foi entregue a moradores da Rocinha, em parceria com o pré-vestibular comunitário Pecep (Projeto de Ensino Cultural e Educação Popular).

A moradora da Maré Nivia Chavier, de 20 anos, conta que o material do Enem do Bem a “ajudou fortemente nos estudos”. Compensou parte das limitações resultantes da mudança para o modelo online. A casa onde vive com os pais não tem internet. Nívia desabafa:

“Sinto tristeza e revolta com tudo o que está acontecendo. Escolas privadas voltarem a ter aulas, enquanto públicas não têm nem papel higiênico e sabonete no banheiro. Isso mostra a enorme desigualdade que existe. Fica difícil competir”, argumenta

O site do Enem do Bem (https://www.enemdobem.org/) reúne alternativas para contribuir com a doação das apostilas. Inicialmente financiadas pela família Carvalho, a compra e a distribuição do material didático são feitas hoje com a ajuda de outros voluntários e doadores. Eles mantêm reuniões periódicas pelo Zoom.

Com a proposta de ensino colaborativo, a ONG Grandes A(l)titudes também integra a rede solidária para ajudar estudantes em dificuldade. Desde junho a organização deixa disponível, em seu perfil nas mídias sociais, vídeos com aulas sobre conteúdos cobrados no vestibular.

A imagem mostra pessoas numa tela de computador
Grandes A(l)titudes: mais um projeto em prol da educação solidária PUC-Rio/Divulgação

A ideia nasceu de um grupo criado há cinco anos pelo estudante carioca Vinicius Cavalcante, para dar aulas de reforço a crianças e adolescentes em uma escola pública carioca. Os aproximadamente 100 vídeos publicados alcançam 5 mil estudantes. .

“A quarentena suspendeu nossas atividades presenciais. Aí decidimos gravar aulas online para atender os estudantes mais prejudicados com a pandemia”, conta Vinícius, de 19 anos.

O coordenador do Grandes A(l)titudes  acrescenta que os voluntários tiveram se adaptar à nova realidade de ensino. Pois o universo on-line exige distintas abordagens pedagógicas: “Trabalhamos na edição e design dos vídeos, para tornar as aulas mais dinâmicas”.

O grupo de reforço se expandiu desde o início da pandemia. Saltou dos 10 colaboradores originais para 110 membros. A maioria é formada por professores voluntários. Produzem vídeos de 10 a 20 minutos, com assuntos específicos para vestibulares. Além das aulas, são fornecidas pastas com resumos dos conteúdos e desafios (quizzes) com perguntas e respostas para aguçar a interação com os seguidores.

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Julia Sillberman, de 17 anos, participa do grupo desde a fase presencial. Ajudava no reforço de geografia e matemática. Hoje estudante do terceiro ano, ela contribui com a organização e as postagens das aulas. Também é encarregada de montar os quizzes. “No início a gente não sabia se estava conseguindo atingir quem gostaríamos de atingir. Mas depois começamos a receber várias mensagens falando que as nossas aulas estavam ajudando a estudar”, orgulha-se Julia.

* Giovanna Cavalieri, João Francisco Mendes e Maria Fernanda Lemos, estudantes de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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