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Rita Fernandes

Por Rita Fernandes, jornalista Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

O vírus da Covid-19 não é carnavalesco

Que há gravidade no vírus ninguém duvida. Mas se há perigo no Carnaval, há em todas as formas de aglomerações

Por Rita Fernandes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
11 jan 2022, 16h58 • Atualizado em 11 jan 2022, 17h45
Carnaval de rua
Carnaval de rua cancelado: pelo segundo ano consecutivo, prefeitura decide não autorizar desfile de blocos por causa da Covid-19. (Fernando Maia/Riotur)
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  • De repente, vieram com isso, como se o vírus da Covid-19 se propagasse só no Carnaval, e não em outros eventos. O debate está posto nas redes sociais, grupos de “zap” e outras formas de comunicação, como se o carnaval fosse o grande vilão da história. No entanto, ninguém fala sobre shows raves, festas, apresentações sertanejas, festivais, campeonatos de futebol, cultos religiosos, praias, bares e restaurantes, todos lotados.

    Que há gravidade no vírus ninguém duvida. Mas está na hora de colocarmos os pingos nos “is”: se há perigo no Carnaval, há em todas as formas de aglomerações. Essa mesma ciência que vale para o Carnaval de Rua, tem que valer para a sociedade como um todo. A ciência é única e, até que provem o contrário, o vírus não é carnavalesco.

    Falso debate. Os arautos do apocalipse vão insistir em lançar campanhas ofensivas aos artistas e foliões de Momo. Os negacionistas e conservadores de plantão vão tentar culpá-los, dizendo que tudo vem daí, da “podridão da festa da carne e da libertinagem”. Em ano de eleição, esse desvio de foco é oportuno para alguns, em um debate tão sério para o Brasil.

    O Carnaval tem uma dimensão nacional de extrema importância. Mexe com a imagem do próprio povo, com a saúde mental das pessoas, com a economia de cidades, com a vida e a sobrevivência de artistas, trabalhadores e de toda uma legião. Não é debate raso, para ser conduzido da forma leviana como vem sendo.

    Carnaval de rua só pode ser feito com a vacina e imunização da população.
    Carnaval de rua só pode ser feito com a vacina e imunização da população. (Publius Vergilius - Sebastiana/Divulgação)
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    Lembro que o povo do Carnaval foi o primeiro a reconhecer que era urgente o recuo diante do agravamento da situação em 2021. Era sabida a responsabilidade do setor e que seria impossível manter o carnaval, em todas as suas dimensões.

    Agora, nesse início de 2022, vemos um estranho movimento nas redes sociais, grupos de conversas e mídias, em querer transformar o carnaval no bode expiatório do problema. Há um nítido deslocamento de viés do debate, que deveria ser científico, unicamente, levando para o preconceito, a politicagem e a falta de razoabilidade nas discussões.

    Há uma semana, nove ligas de blocos de rua do Rio e alguns representantes de megablocos se reuniram com o prefeito Eduardo Paes para tratar do tema. Já era mais ou menos esperado que a decisão seria pelo cancelamento, dado o cenário de crescimento pandêmico que se apresentou pós Natal e Réveillon, agravado pela circulação das pessoas em viagens de férias.

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    Estávamos à espera do que a ciência viria nos dizer. E ela indicou o cancelamento, acatado imediatamente pelos representantes dos blocos de rua. O martelo foi batido e anunciado, mesmo faltando 60 dias para a data de realização, ainda que tivéssemos mais um tempo para avaliar.

    Agora, estamos perplexos com esse debate que se abriu e a tentativa de incriminar o carnaval, “demonizá-lo”, como se fosse o vilão de uma história maldita. Não é a primeira vez que isso acontece na sociedade brasileira. A festa carnavalesca já sofreu esse tipo de preconceito outras vezes na história, e, por isso mesmo, precisamos colocar as cartas na mesa, levar o debate para outra direção.

    Foto mostra vista aérea de um desfile na Marquês de Sapucaí
    Carnaval 2022: evento garantido, se as regras atuais não mudarem (Leo Queiroz/ LIESA/Divulgação)
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    Há muito em jogo. A vida, acima de tudo, é o nosso bem mais precioso. Mas há também a vida no sentido da sobrevivência, tão ameaçada, principalmente para os fazedores da cultura, do entretenimento e principalmente do carnaval. Muita gente já está sem trabalho. E vai piorar, com a perspectiva desse carnaval cancelado. Não imaginem que essa decisão tenha sido simples, para nenhum de nós, porque não foi. Inclusive para o prefeito do Rio, que conhece os dados e a realidade do setor.

    Mas o Carnaval não pode pagar esse preço sozinho. A vida é feita de multiplicidade, de diversidade, com um mosaico de representações culturais. Ainda que o carnaval seja a melhor expressão dessa sociedade tão plural, ele não pode pagar o preço dessa conta sozinho. Não é justo, nem verdadeiro.

    Há muito debate ainda sobre eventos carnavalescos como bailes e apresentações fechadas de blocos, bem como sobre o desfile das escolas de samba, todos com controles e protocolos. Não se sabe ainda o que vem pela frente nesse cenário de uma nova variante, e parece ser precipitada qualquer decisão imediata. Mas, qualquer que seja ela, vai ter que valer para todos e ponto final. Não  importa se for Carnaval, sertanejo ou futebol. Ou pode, ou não pode. E quem dá o veredito é a ciência. Ninguém mais.

    Rita Fernandes é jornalista, presidente da Sebastiana, pesquisadora de cultura e carnaval.

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