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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Concordar com discordar

Os jovens precisam aprender que é fundamental conseguir debater com foco nas ideias.

Por Patricia Lins e Silva Atualizado em 24 fev 2022, 14h00 - Publicado em 24 fev 2022, 13h22

Faz pouco tempo que li uma reportagem sobre uma campanha política para governador de um estado norte-americano com a notícia de dois candidatos adversários  criaram um vídeo juntos em que declaravam “podemos debater sem nos insultar”.

Uma atitude alentadora diante da atual tendência de debates políticos em que a discordância leva a acusações rasteiras sem fundamentação, com o mero objetivo de desqualificar o outro. Os dois candidatos mostraram que, embora pensassem de modo diferente e divergissem nas visões de mundo e ideologias, conseguiam travar um debate consistente e respeitoso.

Essa cultura de discussão cortês e civilizada deve ser aprendida na escola. Os educadores podem criar debates em sala de aula, mostrando a necessidade de respeito, num ambiente educado, onde os alunos aprendem não apenas a defender as próprias opiniões, mas também a considerar pontos de vista opostos aos seus. Na escola se aprende que xingar e desqualificar quem tem opiniões diferentes não ajuda a avançar nas ideias e é um comportamento que está de tal modo infiltrado na cultura que se tornou uma ameaça à democracia.

Quando as crianças assistem a um debate político em que os candidatos se interrompem no meio da fala ou dizem para o outro calar a boca podem pensar que esta é a forma de debater ou discordar. Aprender a escutar sem interromper o outro e a responder sem recorrer a insultos é importante para construir uma cultura democrática.

A escola é o lugar para cultivar gerações que sabem se expressar, que tem opiniões e argumentos e os utilizam de forma competente e com base no respeito mútuo. Num debate civilizado, os alunos precisam se informar, pesquisar muito e refletir sobre a existência de  perspectivas que não percebem. O outro tem o direito de possuir as próprias crenças, referências e pontos de vista. Ao escuta-lo é até possível, às vezes, descobrir uma área de ideias em comum. Ou não, simplesmente concordar ou discordar.

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Uma cultura de debate respeitoso implica incentivar a exposição de opiniões coerentes, de reconhecimento de pontos de vista divergentes. Vale até discordar do professor. O que importa é criar a postura cortês, com respeito aos discursos discordantes, mesmo que com firmeza nas respostas.

Para promover esta cultura é necessário conversar sobre expectativas claras para as discussões, além da estrutura e das normas. Por exemplo, não se pode interromper o outro dentro do seu tempo de fala, existem formas de propor um discurso educado, como ‘Eu respeito o que você disse, mas discordo de…’  É muito importante desenvolver a habilidade de escutar o outro muito atentamente para responder de modo lógico. Quando se aprende a ouvir, sem julgamento imediato ou interrupção, pode-se pensar sobre os próprios argumentos.

Para conversar com os alunos sobre os benefícios de uma discussão mutuamente respeitosa, existem técnicas e atividades. Uma delas é a célebre parábola dos cegos e do elefante, que conta que, certo dia, um príncipe indiano chamou um grupo de cegos de nascença para virem ao pátio do palácio. Mandou também trazer um elefante. Levou os cegos até o elefante, posicionou-os ao redor do animal e pediu que o tateassem. Um estava na barriga, outro na cauda, outro na orelha, outro na tromba, outro numa perna. Quando o príncipe achou que já tinham experimentado bastante, ordenou que cada um explicasse aos outros como era o elefante. O que tinha apalpado a barriga, disse que o elefante era como uma enorme panela; o que estava na cauda disse que o elefante se parecia com uma vassoura, no que foi logo interrompido pelo que tinha apalpado a orelha, que disse que o elefante é como um grande leque aberto. O da tromba riu e contou que o elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água. O da perna replicou que o elefante é redondo como uma grande coluna, mas não tem nada de ondulações nem de flexibilidade, é rígido como um poste. Os cegos discutiram sem parar, cada um querendo provar que estava certo.

Evidentemente cada um se apoiava na própria experiência e não entendia como os outros podiam afirmar outra coisa. O príncipe deixou-os falar, mas quando notou que eram incapazes de perceber que os outros podiam ter tido outras experiências, ordenou que se calassem e observou: “O elefante é tudo isso que vocês falaram, mas cada um só percebeu uma parte dele. Deveriam juntar suas experiências e tentar imaginar como a parte de cada um se une com as outras para formar esse todo que é o elefante.” A história pretende mostrar que a experiência que temos das coisas é sempre limitada. A sensatez passa por levar em conta as experiências dos outros para não cismar com uma visão unilateral e parcial das coisas.

Para se obter uma visão mais integral de qualquer fenômeno, é preciso reunir os numerosos aspectos que podem ser observados. Tudo pode ser bastante complexo e ter muitas facetas e concentrar a atenção em uma única delas, faz ignorar o resto, repetindo os cegos da parábola.

Diante da atual dificuldade de escutar ideias dos outros, os jovens precisam aprender que é fundamental conseguir debater com foco nas ideias. As ideias nos fazem humanos e com elas podemos construir um mundo em que cada um pensa como quer, mas temos todos o objetivo comum de assegurar a cultura, o conhecimento e a civilização.

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