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Manual de Sobrevivência no século XXI

Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman
Psiquiatria
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O que é o remédio que “apagou” Joice Hasselmann?

Evento ocorrido com deputada coloca luz nos riscos relacionados ao uso de hipnóticos

Por Analice Gigliotti
Atualizado em 10 ago 2021, 11h34 - Publicado em 10 ago 2021, 09h15

Há alguns dias, o Brasil foi surpreendido com a informação de que a deputada Joice Hasselmann acordou com fraturas e hematomas pelo corpo. O caso está sob os cuidados da polícia e o agressor ainda não foi identificado. À imprensa, Joice explicou que não despertou com os golpes deferidos contra ela porque estava sob efeito de um remédio para dormir, que ela usa com frequência. A substância em questão é o hipnótico zolpidem. Mas, afinal, o que é o zolpidem e qual seu efeito?

Zolpidem é um remédio que pertence a um grupo de medicamentos conhecidos como análogos das benzodiazepinas (diazepam, alprazolam, midazolam, por exemplo). Normalmente, ele é indicado para o tratamento de insônia. No Brasil, ele é vendido nas formas sublingual de 5 mg (tendo por isso efeito mais rápido); de 10 mg, com liberação imediata; e de 6,25 mg e 12,5 mg com liberação lenta (ideal para pessoas com problemas para manter o sono). O zolpidem age retardando a atividade cerebral, portanto deve ser ingerido imediatamente antes de se recolher para dormir e quando se planeja um sono de, pelo menos, sete horas de duração.

O tratamento com Zolpidem não deve ser de longo prazo pois existe o risco de dependência e tolerância, o que significa que há uma tendência ao aumento progressivo das doses. Justamente por isso, este medicamento não deve ser usado por mais de 4 semanas, sendo que a média recomendada para seu uso é de 2 semanas no máximo. Durante o tratamento com este remédio também não deve ser ingerido álcool.

A versão 12,5mg do remédio se insere entre os medicamentos de tarja preta e sua compra exige receita azul. As outras versões podem ser compradas com receituário branco em duas vias, assim como os antibióticos, o que diminui a percepção de risco relacionado ao seu uso. O zolpidem não deve ser consumido ou administrado sem supervisão médica, e seu uso deve ser evitado caso o paciente tenha história de abuso de álcool ou drogas. O medicamento pode ter seu efeito diminuído ou aumentado, se for consumido em combinação com outras medicações, incluindo antidepressivos, antiepiléticos, relaxantes musculares, vitaminas e produtos naturais.

O uso do medicamento pode levar a vários efeitos colaterais, entre os mais preocupantes estão alucinações, agitação, diminuição nos níveis de consciência, resultando em quedas e possíveis lesões. Outro efeito colateral a ser considerado é o sonambulismo. Algumas pessoas relatam terem se engajado em atividades como dirigir, comer, andar, telefonar, fazer sexo e, posteriormente, acordam sem nenhuma lembrança de suas ações.

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O episódio de Joice Hasselmann joga luz sobre o uso indiscriminado de medicamentos por parte dos brasileiros, ainda mais depois da pandemia. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), nos cinco primeiros meses de 2021, houve um aumento de 13% da venda de antidepressivos e estabilizadores de humor. Isso significa que foram comercializados cerca de 4,8 milhões de cápsulas e comprimidos a mais, de um ano para o outro. A venda de medicamentos já tinha dado um salto de 17% em 2020, em comparação com 2019. Nos anos anteriores, o crescimento tinha sido de 12% (2019) e 9% (2018).

Conhecida por ter sido aliada de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e hoje ser uma de suas maiores críticas, Joice Hasselmann enxerga elementos suficientes para afirmar que foi vítima de um atentado. Circulam pela internet muitas teorias do que possa ter acontecido com a deputada. Seja lá a conclusão a que chegue a polícia, o fundamental é não deixar o crime impune. Pelo bem da nossa democracia e pelos direitos das mulheres.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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