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Manual de Sobrevivência no século XXI

Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman
Psiquiatria
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O fim da “frescura”: brasileiros se preocupam com saúde mental

Visto anteriormente de forma depreciativa, bem-estar mental foi valorizado pela pandemia

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Atualizado em 26 out 2021, 12h41 - Publicado em 26 out 2021, 11h49

Por anos foi uma conversa recorrente: quem sentia algum transtorno mental, como depressão ou ansiedade, e tinha coragem suficiente de se abrir, invariavelmente ouvia que aquilo “ia passar”, “que era fase”, ou até mesmo comentários depreciativos como “isso é falta do que fazer” ou “frescura”. Foi assim. Não é mais. Confinadas em casa, privadas de prazeres corriqueiros até outro dia, acumulando tarefas com home office, as pessoas se viram abatidas, angustiadas, ansiosas e deprimidas. E, pela primeira vez, não sentiram vergonha em falar sobre isso.

A atenção ao bem-estar mental entrou de vez na lista de preocupações dos brasileiros. É o que atesta uma pesquisa, feita pela empresa Ipsos, em 30 países: 75% dos brasileiros afirmam que pensam sobre sua própria saúde mental com muita ou considerável frequência. E mais: para 78% dos entrevistados, o bem-estar físico e mental tem a mesma importância. É um avanço e tanto. O Brasil ocupa o topo do ranking da pesquisa – seguido por África do Sul (73%) e Colômbia (71%) – e supera em mais de 20% os demais países (a média mundial é de 53%).

Ainda de acordo com a pesquisa, mulheres (58%) e jovens (61%) tem maior tendência a expressar sua preocupação com a saúde mental. Ou seja: homens mais velhos tem mais dificuldades de externar suas questões, talvez influenciados pelo resquício de uma educação marcada pelo machismo, tão comum até bem pouco tempo. Curiosamente, os países que afirmam não pensar nunca ou quase nunca sobre o assunto são marcados por esse traço cultural machista: chineses (26%), sul-coreanos (31%) e russos (33%).

O estudo aponta que para 40% dos brasileiros entrevistados, distúrbios mentais são um dos principais problemas sanitários enfrentados pelo país atualmente. Este índice aumentou 13 pontos em 12 meses. Imagina-se que o isolamento social e o luto pelas mais de 600 mil mortes no Brasil tenham influenciado neste crescimento, mas também a situação desesperançada do país: desemprego, fome e crise econômica.

Pesquisas realizadas nos últimos 18 meses, desde o aparecimento do coronavírus, mostram que o brasileiro pagou com a saúde o preço alto imposto pela pandemia: cerca de 41% se diziam com ansiedade, 14% apresentaram enxaqueca e 39% afirmavam que estavam comendo em excesso, fora o crescimento da ocorrência de abuso de bebida alcoólica, sedentarismo e noites mal dormidas.

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Se há um único legado positivo dessa triste pandemia – e sempre há um lado positivo nas coisas – que nos marcou de tantas formas, seguramente é o fato de que a saúde mental saiu do escaninho do tabu, onde morava desde sempre, e ganhou os holofotes. Empresas e campanhas publicitárias tem falado reiteradamente sobre o tema. Resta agora que os tratamentos sejam encarados com a urgência e a seriedade que os transtornos pedem e os brasileiros, agora está provado, querem.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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