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Numa casa de chá

Leia na crônica de Manoel Carlos

Por Manoel Carlos
Atualizado em 27 Maio 2017, 00h38 - Publicado em 27 Maio 2017, 00h38
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  • O que menos se faz num café é precisamente tomar café. E chá, numa casa de chá. Fala-se, fala-se. Às vezes não se diz nada, às vezes se diz tudo. Tantas vezes com franqueza, muitas vezes com hipocrisia. No meu tempo de rapaz, além dos cafés existiam as casas de chá, que atraíam uma clientela refinada.

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    A mais antiga delas, na capital paulista, instalava-se num andar do magazine Mappin, a loja de departamentos fincada numa das esquinas mais famosas da cidade, bem defronte ao Theatro Municipal. Os jovens não entravam, passavam batido. “Só dá velho!”, comentávamos, torcendo o nariz por ignorância. Na verdade, o que tínhamos era insegurança, receio de penetrar num mundo sofisticado, em que as citações eram em francês, pontuadas por versos de Verlaine e Rimbaud. Já nos bares, o que imperava era o inglês, com que o cinema americano nos familiarizara desde o berço.

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    Tínhamos também, no centro de São Paulo, mais precisamente a duas quadras do Mappin, a Livraria Jaraguá, elegantemente comandada por Alfredo Mesquita, criador da EAD, a Escola de Arte Dramática, até hoje um exemplo na formação de atores e atrizes. Entre os professores, Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, sem contar os italianos que aqui chegavam para dirigir os espetáculos, como Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi e Alberto D’Aversa, com a adesão chique de alguns integrantes do elenco do TBC, com Cacilda Becker como a mais fulgurante das presenças.

    Na Rua Marconi, depois de percorrer o espaço reservado aos livros, dava-se com a casa de chá. Poucas mesas, música clássica, boa bebida, frequência seleta.

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    Pensarão vocês que os assuntos tratados nos cafés e nas salas de chá são os mesmos dos bares… Sim, digo eu, podem ser os mesmos, claro, mas à volta do chá fala-se em voz baixa, odeia-se com menos veemência, cultiva-se a hipocrisia sem muita culpa.

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    Para que tenham uma ideia do que se passava naquele tempo, basta dizer que, em alguns momentos do que estou lembrando, era normal afirmar que um dia tudo poderia mudar. Para melhor.

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    E, quando se falava em política, em roubos e desmandos administrativos, meu pai afirmava, balançando a cabeça de um lado para o outro:

    — Este país, nem daqui a 100 anos!

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    E nós, os filhos, dizíamos: “Ah, pai, não seja tão pessimista!”.

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