Imagem Blog

Manoel Carlos

Por Blog Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Blog do novelista Manoel Carlos

Fênix

Entre tudo o que se escreveu sobre mitologia, nada supera para mim uma definição de Salústio, grande nome da literatura latina, que viveu quase 100 anos antes de Cristo: “Essas coisas não aconteceram nunca, mas existiram sempre”. Essa frase aparece como epígrafe no livro As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso, que a […]

Por Daniela Pessoa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 dez 2013, 13h57 • Atualizado em 25 fev 2017, 18h50
  • Entre tudo o que se escreveu sobre mitologia, nada supera para mim uma definição de Salústio, grande nome da literatura latina, que viveu quase 100 anos antes de Cristo: “Essas coisas não aconteceram nunca, mas existiram sempre”. Essa frase aparece como epígrafe no livro As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso, que a Companhia das Letras publicou há mais de dez anos, em tradução de Nilson Moulin Louzada.

    No Google podem ser encontradas muitas reflexões geniais que o poeta romano deixou, sendo “É sempre tarde quando choramos” a mais conhecida.

    Escrevo estas linhas a propósito da minha próxima novela, Em Família, que estreia em 3 de fevereiro na TV Globo. O que dá origem à história de amor que eu pretendo contar é a mitológica ave fênix, que todos conhecem ou de quem pelo menos já ouviram falar. Aquela que depois de morta renasce das próprias cinzas. E por essa razão se tornou “símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual”. Na novela, o personagem Laerte vive com Helena um grande amor que se extingue, mas que ele acredita que renascerá sucessivamente por toda a eternidade.

    Coisa de novela, dirão alguns. Pois é, mas quantas vezes a vida não imita a ficção? Quem não vive ou viveu uma história real que aos outros parece “coisa de novela”?

    Continua após a publicidade

    A propósito da fênix, uma das minhas pesquisadoras, a Julia Laks, me mandou um poema belíssimo do persa Farid al-Din Attar, extraído do livro A Linguagem dos Pássaros, na tradução de Álvaro Machado e Sergio Rizek, publicado pela Attar Editorial. Fiquem com alguns fragmentos e não se esqueçam da fênix se tiverem a curiosidade de assistir à minha novela a partir de fevereiro:

    “Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música.

    A fênix vive cerca de 1 000 anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de si lenha e folhas de palmeira. Em meio a essas folhas entoa tristes melodias. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto. Todos se aproximam para assistir ao espetáculo de sua morte…”.

    Continua após a publicidade

    E o poema se encerra com estas palavras: “Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas”.

    A mim parece ser essa a melhor definição para o amor que se acredita eterno. Um sentimento que muitas vezes morre, mas que renasce sucessivamente ao longo de uma vida.

    Feliz Natal para todos nós.

    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do RJ

    A partir de R$ 29,90/mês