Relembre entrevista de Marina Colasanti: “Loucura é acreditar-se são”
Sobre as dezenas de homenagens nos últimos anos: “É sinal de que estou velha, mas acho ótimo, estou viva”

Aqui, uma entrevista da premiada escritora Marina Colasanti à coluna, em 2014; sabia ser desconcertante sem deixar de ser doce. Ela morreu em sua casa, Ipanema, aos 87 anos; a causa ainda não foi divulgada. O velório será nesta quarta (29/01), das 9h às 12h, no Parque Lage, onde a escritora morou.
A africana loura de olhos verdes, nascida na Eritreia e trazida, aos 11 anos, pela família (italiana) para o Brasil, tinha uma resposta rápida para explicar as dezenas de homenagens ao longo dos anos: “É sinal de que estou velha, mas acho ótimo, estou viva”, dizia a tão celebrada Marina aonde quer que chegasse.
Entre os prêmios, vários Jabuti (1993, 1994, 1997, 2009, 2010, 2011 e em 2014, ano da entrevista), um Telecom Portugal, Ibero-americano SM de Literatura Infantil e Juvenil, entre tantos. O último foi em 2023, tornando-se a primeira mulher vencedora do Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.
Ela é autora de mais de 60 títulos, entre livros de poesias, contos, crônicas, ensaios e literatura infanto-juvenil. Era casada há mais de 50 anos com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna, hoje com 87 anos, e mãe da atriz Alessandra Colasanti e da tradutora Fabiana Colasanti. Atuou como jornalista, apresentadora de TV, publicitária, tradutora e ilustradora, além de editora de revista, a primeira mulher copidesque da imprensa brasileira.
Certa vez, disse a esta coluna que sua vida não tinha vaga para a rotina, ou melhor, só às terças-feiras, dia em que fazia feira, supermercado e ia ao banco, tudo em Ipanema, onde morava.
Em relação ao Brasil e à política, disse: “Eu estou olhando, tentando entender como se mexe e quem se mexe… Tudo estava aparentemente tão bem e tranquilo até as placas tectônicas começarem a sambar! Mente quem diz que entende. É muito difícil”.
Para manter-se ativa, deu como receita a paixão: “Amo de paixão o que eu faço; minha infelicidade é não ter trabalho”, afirmou.
Leia abaixo:
UMA LOUCURA: Loucura é acreditar-se plenamente são.
UMA ROUBADA: Me roubaram uma ideia, e nunca devolveram.
UMA IDEIA FIXA: O livro que estou escrevendo, enquanto o escrevo.
UM PORRE: A burocracia, qualquer burocracia.
UMA FRUSTRAÇÃO: Estar num só lugar de cada vez.
UM APAGÃO: Difícil, viver sem borracha.
UMA SÍNDROME: Sofro de perfeccionismo, e não obtive cura.
UM MEDO: Tenho medo do caos.
UM DEFEITO: Não ter certeza de quais são eles.
UM DESPRAZER: Desprazer é errar a medida do sal, do gesto, da bainha, do afeto.
UM INSUCESSO: Só um?
UM IMPULSO: Abrir os olhos quando acordo.
UMA PARANOIA: Paranoia é sentir-me ameaçada se não carrego na bolsa nem uma caneta.










