“Auto da Compadecida”: barroco tropical com cachaça mineira no final
Os convidados saem impressionados com a riqueza dos figurinos
O clássico “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, ganhou uma versão barroca, tropicalista e bastante irreverente que chegou ao Rio pela primeira vez, com o grupo mineiro Maria Cutia, com direção de Gabriel Villela, nessa quinta (05/03), no Sesc Copacabana, inaugurando as comemorações de 20 anos da companhia.
A peça, criada em 2019 e já rodando festivais pelo país, faz uma releitura nada ortodoxa do texto de Suassuna. No meio da história aparecem canções de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sérgio Sampaio e Zeca Baleiro. A saga de João Grilo e Chicó — eternizados no cinema por Selton Mello e Matheus Nachtergaele — começa num enterro meio suspeito e segue por uma epopeia milagrosa onde cabem padres, cangaceiros, Jesus, Maria e até o diabo.
Os convidados saem impressionados com a riqueza dos figurinos, ainda mais quando descobrem que foi o próprio Villela quem criou, além dos cenários, com sua conhecida estética barroca — agora temperada com um elemento extra: lama. “Como não tínhamos dinheiro para nada, usamos roupas que tenho guardadas no meu sítio, em Carmo do Rio Claro (sul de Minas). Vem na nossa pele a tragédia anunciada de Brumadinho e tantas outras que podem acontecer”, diz o diretor, lembrando o desastre de 2019 que marcou a estreia da montagem.
Para achar o tom da encenação, Villela ainda buscou inspiração em Dercy Gonçalves. “Ela foi uma espécie de Compadecida, cercada de anjinhos como Grande Otelo, Zezé Macedo e Oscarito”, compara, lembrando que o deboche da atriz escondia uma técnica afiadíssima de improviso.
E, fiel ao espírito popular da história, no final, o elenco leva o público para fora do teatro ao som dos instrumentos do grupo, onde é servida uma cachacinha mineira em copo comemorativo dos 20 anos da companhia.







