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Fernanda Torres

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Blog da atriz Fernanda Torres

Alpes

Escrevo dos Alpes Suíços, de uma cidade fundada em 1400 por pastores italianos que cruzaram as montanhas em busca de novas pastagens. O clima ameno de então, permitiu a comunicação entre as terras baixas da Itália e a cordilheira, até que uma onda de frio fechou a passagem, selando o destino dos que se aventuraram […]

Por fernanda
24 jan 2015, 00h00 • Atualizado em 25 fev 2017, 18h20
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  • cronicas

    Escrevo dos Alpes Suíços, de uma cidade fundada em 1400 por pastores italianos que cruzaram as montanhas em busca de novas pastagens. O clima ameno de então, permitiu a comunicação entre as terras baixas da Itália e a cordilheira, até que uma onda de frio fechou a passagem, selando o destino dos que se aventuraram ao norte.
    O calor de agora interfere mais uma vez na paisagem. Nos últimos dez anos, geleiras que se estendiam até bem próximo da vila recuaram drasticamente e árvores deram de germinar bem acima da linha da floresta.

    Mas a mudança não é só climática. Famílias que viviam do cultivo de grãos e da criação de rebanhos, hoje, se dedicam ao turismo e à especulação imobiliária, obrigando o governo a criar incentivos para evitar o abandono do campo.

    Nosso guia local, descendente de uma das 14 famílias que cruzaram o vale 600 anos atrás, conta que uma lei absurda estimula a criação de animais exóticos por fazendeiros locais. Lhamas do Peru, iaques do Himalaia, avestruzes australianos e cabras de outras partes do mundo foram trazidos para os Alpes com resultados trágicos, quando não risíveis.

    Um casal de avestruzes ganhou as manchetes de jornal  após uma louca escapada. Depois de atacar um homem que praticava jogging na cidade vizinha, foram caçados a tiros pela polícia. O macho morreu na perseguição e a fêmea teve que ser sacrificada, já que o avestruz, assim como os papagaios e as cegonhas, é fiel ao parceiro. A morte pareceu um destino menos cruel do que a solidão no estrangeiro.

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    As vacas suíças levaram milênios para produzir o melhor leite do mundo, mas a curiosidade humana trouxe o iaque do Everest para o gelo europeu. O problema é que o bovino asiático é um animal selvagem, de carne dura, que produz um leite amarelo, de cheiro forte e pobre em nutrientes. Hoje, do assumido fiasco, restam poucos exemplares à espera da velhice chegar.
    As cabras são seres ariscos, que costumam fugir do cercado em direção às encostas. Ao contrário das lhamas, que convivem bem com as ovelhas locais e não oferecem risco de procriação, as cabras fornicam, e muito, com o chamois, o veado montanhês.

    No Ano passado, dezenas de chamois foram encontrados mortos sem nenhuma explicação plausível. A suspeita recai sobre o cruzamento com cabras, que teria resultado em espécimes de saúde frágil e patas inapropriadas para o terreno íngreme e pedregoso.

    O veado selvagem tem casco mole, que adere às escarpas, enquanto as cabras, de casco duro, escorregam com facilidade. A natureza, na velha tradição darwinista, estaria se livrando dos descendentes de genética desfavorável.

    Mas o problema com os caprinos não se resume ao seu apetite sexual. Diferentes dos ovinos, que se alimentam da grama alta, permitindo o florescimento e a renovação das pastagens, as primas cabras comem a planta até a raiz, comprometendo o frágil equilíbrio ecológico da região.
    A Suiça é um país rico, com IDH e nível de escolaridade altíssimos, mas nada disso a salvou do circo de horrores da irracionalidade humana. Se aqui está assim, imagina no resto do planeta.

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