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Psiquiatra infantil
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Verdades e mitos sobre o canabidiol e o autismo infantil

Não há pesquisa de prazo longo, com grande número de participantes, que possa concluir a favor da substância no tratamento do autismo

Por Fabio Barbirato
Atualizado em 13 abr 2022, 14h37 - Publicado em 11 abr 2022, 12h00

Vez ou outra, circula na internet vídeos que alegam ser de autistas não-verbais que, de repente, passaram a falar; outros mostram supostos autistas que mudaram o padrão de comportamento, como se tivesse ocorrido uma espécie de diminuição no grau de autismo. O “milagre” para tudo isso acontecer seria o uso do óleo de canabidiol. Falsas promessas como essas, circulam no mundo online e chegam aos consultórios, por meio de pais angustiados e esperançosos.

Vamos aos fatos. A verdade é que desde 2015 a Anvisa passou a autorizar a compra excepcional do produto não só para pacientes com epilepsia, mas para diversas patologias, como dores crônicas e de Parkinson. Mesmo assim, ela só deve ser ministrada como último recurso de tratamento.

Isso acontece porque ainda não há estudos que se debrucem sobre os efeitos do uso de canabidiol a longo prazo. O que há à disposição são estudos de curto prazo, com pequeno número de pacientes observados. Isso inviabiliza aferir o impacto dessa alternativa de tratamento no psicodesenvolvimento das crianças com o passar dos anos. “As evidências que sustentam o uso de cannabis em transtornos psiquiátricos são insuficientes e de baixa qualidade ainda. Novas pesquisas translacionais são necessárias para entender a farmacodinâmica em humanos, e estudos clínicos são necessários para avaliar os riscos e benefícios do uso da cannabis a longo prazo”, corrobora Michal Graczyk, psiquiatra da Universidade de Cambridge.

O que precisa ficar claro é que não há um tratamento para o autismo, mas sim para seus sintomas-alvos, quando estão presentes, o que varia de paciente para paciente. Se a questão for atraso de linguagem, é preciso envolver um profissional de fonoaudiologia; se for atraso de aprendizagem, uma pedagoga ou pedagogo; para as questões de sociabilidade, um especialista em psicologia. Repare que nenhuma medicação se aplica a esses casos.

E por que se fala tanto de canabidiol e autismo? No Brasil, profissionais de saúde tem a liberdade de prescrever o que julgarem mais acertado aos seus pacientes, cabe a eles tal arbítrio – e responsabilidade. Já nos Estados Unidos, os médicos só podem receitar medicamentos ou substâncias liberadas pelo FDA, órgão regulador americano. Caso contrário, podem perder o registro profissional. Essa liberdade por aqui acabou criando desinformação e uma série de especulações que não levam a lugar nenhum, ao contrário, só criam uma cortina de fumaça e falsas esperanças.

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Repito: não há liberação técnica que indique o uso de canabidiol para autismo. “Atualmente, as evidências são nascentes e fracas demais para recomendar intervenções a base de canabinoides para uma série de Transtornos Psiquiátricos. Embora encorajadoras, a pesquisa está apenas começando a determinar se endocanabinoides ou seus componentes isolados podem ou não ser eficazes para esta aplicação, e os médicos precisam estar atentos a várias considerações de segurança”, endossa o médico e pesquisador australiano Jerome Sarris. Tal posição contrária é acompanhada também pela Associação Brasileira de Neurologia Infantil.

Portanto, se há possibilidades – cientificamente testadas e aprovadas – por que usar uma substância que ainda não comprovou sua eficiência e segurança a longo prazo? Desconfie de milagres e confie na ciência.

Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na Pós Graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).

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