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Psiquiatra infantil
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Autismo: verdades e mentiras sobre a “epidemia” do transtorno

Alimentação ou vacinas não podem ser responsabilizadas como origem do transtorno

Por Fabio Barbirato
28 mar 2024, 10h03

O próximo dia 02 de abril, terça-feira, é marcado pelo Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Apesar de bastante difundido na mídia, o transtorno é, frequentemente, cercado por falsas informações, que acabam por prejudicar o correto tratamento de pacientes: da crença de que a doença é causada por glúten à absurda ideia de que vacinas podem desenvolver a doença nas crianças. Há pouco tempo, o canabidiol foi associado, de forma irresponsável, ao tratamento de sintomas do autismo. Portanto, é oportuno aproveitar a efeméride para relembrar algumas informações fundamentais acerca do transtorno.

A Medicina não chegou à nenhuma certeza que explique porque uma pessoa desenvolva a TEA (Transtorno do Espectro Autismo), embora não restem dúvidas que o autismo tenha alguma origem genética. A ciência também tem se dedicado a estudar possíveis influências de fatores ambientais, ou seja, sem origem genética, na ocorrência do transtorno, como uso abusivo de álcool e drogas durante a gestação, bem como partos prematuros – fatores que interferem na formação do sistema nervoso central do feto. Pesquisas tem concluído que o cérebro de autistas apresentam alterações na sua morfologia constituição celular. De todo modo, vale repetir: nada disso está absolutamente referendado pelas pesquisas científicas – e é sempre a elas que devemos nos ater.

De modo geral, o transtorno se caracteriza por dificuldade de interação social, comunicação, além de interesses e comportamentos restritos ou repetitivos. A forma e a intensidade com que estes traços de comportamento se manifestam variam conforme o paciente, bem como as comorbidades e as causas eventualmente associadas ao transtorno.

Por isso, é errado dizer autismo “grau 1, 2 ou 3 de gravidade”, como pode ser observado com frequência. Trata-se de um termo que tem origem no DSM-5, da Academia Americana de Psiquiatria, mas nós, brasileiros, usamos como referência o Código Internacional de Doenças (CID-10), onde ainda se fala Transtorno Global do Desenvolvimento. Apenas quando mudar para o CID-11, passará a se chamar TEA, porém com outras graduações, sete no total (e não três, como no DSM-5).

A prevalência de pessoas com TEA vem aumentando progressivamente. Em 2004, o número divulgado pelo Centers for Disease Control (CDC) era de 1 a cada 166. Em 2012, esse número estava em 1 para 88. Em 2018, passou para 1 a cada 59. E, este ano de 2023, divulgou-se a razão de 1 autista para cada 36 crianças.

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Embora não haja uma estatística oficial sobre o número de autistas no Brasil, aplicando a proporção do estudo americano à população brasileira, chegamos a cerca de 5,95 milhões de casos no país. Em nossas avaliações no Ambulatório de Pesquisa da PUC-Rio e da Santa Casa, mais da metade das crianças que chegam com o diagnóstico de Autismo tem, na verdade, apenas Deficiência Intelectual, e não a combinação da deficiência com o Transtorno do Espectro Autismo (TEA). Portanto, para se chegar ao diagnóstico de TEA, é preciso ter muito critério e bom senso. E isso só é possível pela parceria com a equipe, competente e bem preparada.

No entanto, ao contrário do que algumas pessoas possam imaginar, não vivemos uma “epidemia” de autismo pelo aumento de casos em comparação às décadas anteriores. O que acontece é que hoje é capaz de se fazer o diagnóstico mais cedo e com mais precisão. E isso é uma boa notícia, na medida em que o cérebro ainda tem uma plasticidade de desenvolvimento elevada nos primeiros anos de vida.

Assim como não existe um caso de autismo absolutamente igual ao outro, também não há um tratamento único para todos os casos. Cada criança ou adolescente com este diagnóstico, terá uma condução terapêutica diferente. Dietas, suplementações vitaminas e vários tipos de abordagens têm sido propostas para o tratamento do TEA, entretanto, não há evidência científica para que muitas dessas terapias sejam utilizadas, como vitaminas, dieta sem glúten, óleos essenciais, canabidiol e psicanálise, por exemplo.

Por fim, é fundamental reiterar que não há cura para o autismo. Se alguém oferecer esse tipo de “serviço”, recuse e denuncie. O que de fato existe é uma série de tratamentos terapêuticos que, aliados ou não a medicamentos, podem mitigar os sintomas e reduzir o impacto do autismo na qualidade de vida dos pacientes – e de seus familiares.

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Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na pós-graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).

 

 

 

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