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Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc e PhD.
Saúde, Prevenção, Tratamento, Qualidade de vida, Bem-estar, Tecnologia, Inovação médica e inteligência artificial com base em evidências científicas.
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Riscos das pomadas para cabelos e colas para cílios: a beleza por um fio

Pomadas, cremes capilares e cola para cílios, antes tidos como inofensivos, agora emergem como portadores de riscos significativos para saúde.

Por Dr. Fabiano M. Serfaty e Aline Borges.
Atualizado em 9 fev 2024, 14h57 - Publicado em 9 fev 2024, 12h15

A busca pela beleza e cuidados capilares se entrelaça com uma advertência crucial para a saúde. As pomadas ou cremes capilares, produtos aparentemente inofensivos presentes nos rituais diários de cuidado com os cabelos, agora emergem como portadores de riscos significativos. Neste artigo, exploraremos os perigos associados a esses produtos, destacando a ameaça iminente que paira sobre a população de todas as idades e tipos de cabelo. Recentemente houve uma suspensão da comercialização de diversos cremes capilares no Brasil devido a relatos de irritação nos olhos e cegueira temporária. Além disso, é importante mencionar os riscos das colas para cílios, que podem resultar em lesão química na córnea, agravando ainda mais a preocupação com a segurança dos produtos de beleza. Convidei Aline Borges, presidente do Ivisa -Rio/Anvisa (Instituto Municipal de Vigilância Sanitária, Vigilância de Zoonoses e de Inspeção Agropecuária) para compartilhar conosco quais são os riscos específicos que esses produtos representam para homens, mulheres, adultos, crianças e idosos.  

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais precauções são necessárias ao comprar e utilizar pomadas para modelar ou segurar cabelos, que não são aprovadas pela Anvisa, levando em conta os potenciais riscos para a saúde dos olhos, como irritações ou até mesmo cegueira temporária devido à composição química desses produtos?

Aline Borges: Produtos para modelar, fixar ou trançar cabelos, também chamados de pomadas modeladoras ou cremes modeladores capilares, são cosméticos que têm como objetivo a criação de penteados elaborados,  bonitos e estilosos. Esta classe de produtos abrange pomadas, cremes e ceras, de formulação diversa e fácil acesso e utilização. Essa facilidade de aquisição,  além das muitas marcas disponíveis no mercado, traz a preocupação em adquirir formulações seguras e evitar riscos potenciais para a saúde dos olhos, pois sua composição química pode conter substâncias alérgenas, conservantes que podem causar desde uma leve irritação ou alergia até processos inflamatórios, como úlceras, queimaduras e, em um pior cenário, cegueira temporária, ao entrarem em contato com a mucosa ocular.

Esses riscos são maiores quando os cremes capilares são usados em ambientes úmidos, como piscinas, chuveiros ou embaixo de chuva, pois a água pode facilitar a penetração das substâncias nos olhos. Além disso, os riscos são independentes do tipo, idade ou sexo do usuário, pois todos estão expostos à mesma composição química dos produtos. Portanto, homens, mulheres, adultos, crianças e idosos devem ter cuidado ao utilizar pomadas e cremes capilares e evitar o contato direto ou indireto com os olhos.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Sabemos que essa medida de suspensão já havia sido anunciada anteriormente e, posteriormente, levantada com regras mais rígidas. Quais são as principais razões que levaram à nova suspensão, e o que as pessoas precisam entender sobre a segurança desses produtos?

Aline Borges: A cosmetovigilância é um sistema baseado na análise de relatos de eventos adversos ocorridos após o uso de um produto cosmético. A medida de suspensão da comercialização de diversos cremes capilares no Brasil foi tomada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após o aumento de relatos de problemas de saúde relacionados aos produtos para modelar, trançar e fixar cabelos, principalmente no Rio de Janeiro, onde mais de 395 casos confirmados ocorreram entre dezembro de 2022 a março de 2023.

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 A ocorrência de reações oculares associadas a um produto cosmético é caracterizada como uma intoxicação exógena por substâncias químicas. Ou seja, a exposição causa sintomas clínicos de intoxicação compatível com o uso do produto. Toda intoxicação exógena, suspeita ou confirmada, é de notificação compulsória de acordo com a Portaria nº 1.271/2014.

Em decorrência dos fatos expostos, foram alteradas as exigências para a regularização de produtos cosméticos indicados a modelar e/ou fixar cabelos através da Resolução RDC nº 814, de 1º de setembro de 2023, cujas principais regras são:

– Os produtos devem ter a forma física declarada de gel, creme ou loção, e não de pomada;

– Os produtos não podem incluir o termo pomada na embalagem em qualquer idioma;

– Os produtos devem ter na fórmula menos de 20% de álcoois etoxilados;

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– Os produtos devem ser notificados à Anvisa antes da comercialização;

– Os produtos devem ser registrados por empresas que não tiveram nenhum produto associado a evento adverso grave.

As pessoas precisam entender que essas regras visam garantir a segurança, através da aquisição de produtos regularizados e evitando danos à saúde dos consumidores.

Desta forma,  é importante somente adquirir e utilizar produtos autorizados pela Anvisa, que seguem as normas de qualidade e segurança estabelecidas pela agência.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Muitos desses cremes proibidos contêm substâncias como álcoois etoxilados, metilcloroisotiazolinona e metilisotiazolinona, que já foram consideradas prejudiciais à saúde. Pode explicar, de maneira acessível, por que essas substâncias são potencialmente perigosas e como afetam os olhos?

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Aline Borges: Muitos dos cremes capilares proibidos pela Anvisa continham substâncias como álcoois etoxilados, metilcloroisotiazolinona e metilisotiazolinona, que já foram consideradas prejudiciais à saúde. Essas substâncias são conservantes químicos que têm como função evitar o crescimento de microrganismos nos produtos, prolongando a sua validade. No entanto, elas também são tóxicas à pele e às mucosas, podendo causar reações alérgicas e inflamatórias.

Quando essas substâncias entram em contato com os olhos, elas podem provocar uma série de problemas, como:

– Irritação: uma sensação de desconforto, ardência, coceira ou vermelhidão nos olhos;

– Alergia: uma resposta imunológica exagerada do organismo, que pode causar inchaço, lacrimejamento, secreção ou coceira nos olhos;

– Inflamação: uma reação de defesa do organismo, que pode causar dor, calor, vermelhidão ou edema nos olhos;

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– Úlcera: uma lesão na superfície da córnea, que é a camada transparente que recobre o olho, podendo causar perda de visão, infecção ou perfuração do olho;

– Queimadura: uma lesão térmica ou química nos tecidos do olho, podendo causar necrose, cicatriz ou cegueira temporária ou permanente. Esses problemas podem variar de acordo com a concentração, o tempo de exposição e a sensibilidade de cada pessoa às substâncias. Por isso, é importante evitar o uso de produtos que contenham essas substâncias e procurar um médico oftalmologista em caso de contato com os olhos.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Além da proibição de venda, que precauções os consumidores devem tomar ao escolher produtos para os cabelos e o que devem procurar nos rótulos?

Aline Borges: Além da proibição de venda, os consumidores devem tomar algumas precauções ao escolher produtos para os cabelos, como:

– Verificar a lista de ingredientes no rótulo e evitar produtos que contenham substâncias químicas potencialmente perigosas, como álcoois etoxilados, metilcloroisotiazolinona, metilisotiazolinona, formaldeído, parabenos, sulfatos, entre outras;

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– Verificar o prazo de validade no rótulo e não usar produtos vencidos ou com alteração de cor, odor ou consistência;

– Verificar o selo de qualidade da Anvisa no rótulo e só comprar produtos autorizados pela agência, que seguem as normas de segurança e eficácia;

– Verificar a reputação da marca e do fabricante no mercado e na internet, e evitar produtos de origem duvidosa ou falsificados;

– Fazer um teste de alergia antes de usar o produto, aplicando uma pequena quantidade no antebraço e observando se há alguma reação na pele após 24 horas;

– Seguir as instruções de uso no rótulo e não exceder a quantidade ou o tempo de aplicação recomendados;

– Lavar bem as mãos após o uso do produto e evitar tocar nos olhos ou em outras partes sensíveis do corpo;

– Armazenar o produto em local seco, fresco e ao abrigo da luz e do calor, e mantê-lo fechado quando não estiver em uso;

– Não compartilhar o produto com outras pessoas e não reutilizar a embalagem para outros fins.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Para quem já usou esses cremes e pode estar preocupado com efeitos adversos, quais são as medidas imediatas recomendadas para minimizar os riscos, especialmente em relação à saúde ocular?

Aline Borges: Antes de qualquer coisa, o importante é destacar que, se a pessoa já fez a trança ou qualquer penteado com uso de pomada, ela deve prevenir qualquer problema lavando os cabelos com a cabeça bem inclinada para trás de forma a não permitir que o produto caia no olho. Isso deve ser feito antes de tomar banho de piscina, de mar,  pegar chuva ou ao se submeter a calor extremo que cause muito suor que também pode carrear o produto para o olho.

No caso de quem a pomada já escorreu para o olho, as medidas imediatas recomendadas para minimizar os riscos são:

– Lavar os olhos com água corrente em abundância por pelo menos 15 minutos, sem esfregar ou pressionar os olhos;

– Retirar as lentes de contato, se estiver usando, e não colocá-las novamente até que os olhos estejam completamente recuperados;

– Aplicar compressas frias ou geladas nos olhos para aliviar a dor e o inchaço;

– Usar colírios lubrificantes ou anti-inflamatórios, conforme orientação médica, para hidratar e proteger os olhos;

– Evitar o uso de maquiagem, cosméticos, perfumes ou outros produtos que possam irritar ainda mais os olhos;

– Procurar um médico oftalmologista o mais rápido possível para avaliar a gravidade da lesão e iniciar o tratamento adequado;

– Comunicar à Anvisa sobre o evento adverso, informando o nome, o lote e o fabricante do produto, para que a agência possa tomar as medidas cabíveis.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Diante desses riscos, qual é a mensagem que gostaria de transmitir aos consumidores em relação ao uso destes produtos, considerando que eles são amplamente utilizados por pessoas de todas as idades e tipos de cabelo?

Aline Borges: Outra classe de produtos cuja atenção se faz necessária é a daqueles utilizados em procedimentos de  extensão de cílios, também chamados de cola para cílios. A Anvisa emitiu o Alerta GGMON nº 01 /2024 , destacando os perigos relacionados ao uso indevido de colas instantâneas, que não são regularizadas como cosméticos, em procedimentos de beleza.  O uso desses produtos pode causar danos graves à saúde, incluindo cegueira, uma vez que não são testados para contato com pele ou olhos. O recente incidente envolvendo a atriz Regina Casé, que sofreu uma lesão química na córnea, destaca a urgência de atenção à utilização de colas, especialmente aquelas não regulamentadas pela Anvisa para fins cosméticos.

Diante desses riscos, a mensagem que gostaríamos de transmitir aos consumidores em relação tanto ao uso de cremes capilares quanto aos produtos utilizados em procedimentos de extensão de cílios, é que eles devem ser usados com moderação, cautela e responsabilidade, pois podem trazer consequências graves para a saúde dos olhos.

Os produtos cosméticos podem causar reações adversas, alérgicas ou tóxicas, se não forem usados corretamente. Por isso, é importante que os consumidores se informem sobre os produtos que utilizam, verifiquem se os componentes dos mesmos podem causar hipersensibilidade e sigam as instruções de uso presentes no rótulo.

Profissional Convidada:

Aline Borges,

Presidente do IVISA-RIO/ANVISA (Instituto Municipal de Vigilância Sanitária, Vigilância de Zoonoses e de Inspeção Agropecuária).

Colaboração:

Karla Reis,

Coordenadora da Coordenação de Vigilância Sanitária de Serviços e

Produtos de Interesse à Saúde do IVISA-RIO;

Rebecca Maciel,

Subgerente do Núcleo do programa de fármaco e tecnovigilancia do IVISA-RIO.

Fonte:

IVISA-RIO : https://carioca.rio/orgao/secretaria-municipal-de-saude-instituto-municipal-de-vigilancia-sanitaria-vigilancia-de-zoonoses-e-de-inspecao-agropecuaria-ivisa-rio/

medidas imediatas recomendadas para minimizar os riscos.
medidas imediatas recomendadas para minimizar os riscos. (Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro/Veja Rio)
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