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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
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Quando a empatia se impõe à corrida pela vitória

Aos 19 anos, Vitinho abdica de contra-ataque atrás do título para acudir adversário: não é pouco diante da crise ética e das desumanidades à solta

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Atualizado em 29 jan 2024, 20h33 - Publicado em 29 jan 2024, 20h07

A cena passa batido, periférica às lentes. Holofotes cortejam a iminente glória dos garotos corinthianos, donos da casa. Cruzeirenses buscam desabalados o empate que levaria a decisão aos pênaltis.

Tretas, entradas duras, cornetadas em polvorosa. Reta final, a tensão se intensifica. Cobre o campo e a arquibancada, incisiva como um arame farpado. Pouco importa a estatura juvenil da disputa que salga a tarde vadia de quarta-feira.

Fiel à máxima de Neném Prancha, a moçada parece disputar a última refeição. Aos alvinegros, o relógio empaca. Aos azuis, escorre veloz. Ainda assim, Vitinho não deixa a gentileza comer poeira.

O adversário cai e a pelota sobra insinuante. Ordena o contra-ataque. O meia do Cruzeiro desobedece.

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Vitinho renuncia ao arranque igual um bólido traído pelo motor na hora da largada. Não se detém por mando do juiz, por pressão dos oponentes. Age por empatia.

Interrompe a jogada ao perceber o colega contorcido de dor: é preciso acudi-lo. Sua régua de prioridades anda bem calibrada.

Caso pertencesse a um conto de fadas, o fair play do rapaz, tão inesperado quanto o recuo do leão numa arena romana, talvez ganhasse a recompensa de uma virada épica. Mas a discreta fidalguia mal recebe agradecimentos.

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O lampejo altruísta acaba ofuscado pela pressa dominante. Pressa cega. Pressa em defender a vantagem. Pressa em destruí-la. Pressa em ganhar. Pressa, pressa, pressa.

O duelo retoma o curso pragmático. Costura a fenda moral aberta por Vitinho como se não passasse de uma miragem, de uma figuração invisível, uma migalha qualquer.

Os flashes, os gritos, a multidão aplaudem outro jovem habilidoso de 19 anos. O golaço de Kayke, esculpido aos 40 da segunda etapa, encaminha a 11ª Copa São Paulo de Futebol Júnior faturada pelo Corinthiana. E aproxima o atacante do heroísmo.

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Uma dúzia de intermináveis minutos separam Kayke da consagração sonhada na véspera, quando nenhum participante de uma finalíssima prega o olho e todos se imaginam de taça na mão. Quando a ansiedade transborda insone.

A bomba decisiva faz de Kayke uma pipa sorridente. Alcança o céu numa miúda eternidade. Nela não pesa a tonelada de incertezas sobre o futuro de quem decide viver das chuteiras.

Kayke descola-se dos pés e dos pulmões cartesianamente empenhados em consumar a conquista. Flutua como a música que atravessa o intransponível. Flutua como todo menino deve flutuar. Flutua. As câmeras não enxergam.

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Vitinho e Kayke evocam preciosos alentos. Convém valorizá-los.

Da finta ao chute na veia, o gol de Kayke exala o virtuosismo resiliente ao agreste político e gerencial. Moleques bons de bola brotam com a resistência milagrosa de um cactus que se impõe ao cáustico.

O estio de craques mitológicos, semideuseus imunes às leis da física, não resseca o frescor dos talentos colhidos que nem fruta da estação. Eles se renovam nos campinhos de terra, nas pracinhas, nas várzeas, nos condomínios, nos clubes.

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Devolvê-lo ao encanto e aos títulos mundiais configura-se desafio tão inadiável quanto complexo. Exige uma coquetel de ajustes, desde o saneamento político-administrativo até o reencontro com a nossa identidade cultural refletida nos gramados.

Vitinho emite recado mais importante. Seu gesto fraterno constitui uma exaltação da vida, do outro, do amparo. Uma brisa à sobrevivência das humanidades e da humanidade.

Ambições particulares não devem atropelar o bem-comum, lembra a escolha espontânea do jovem Vitinho. Não é pouco diante da crise ética, do egoísmo endêmico, dos preconceitos viscerais e das brutalidades em série que nos assolam.

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação FísicaOrganizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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