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Cristiana Beltrão

Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
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Quer comer um peixe sem matar um peixe?

Em breve, um linguado de laboratório pode estar numa peixaria perto de você.

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Atualizado em 24 fev 2022, 11h54 - Publicado em 22 fev 2022, 00h00

– Essa aqui é a nossa garoupa. 

Eu parecia um cachorro, dando aquela entortada de cabeça confusa enquanto olhava para a tela do computador. 

– Mas… pera aí? Cada tracinho daqueles é uma célula?

Fosse um dia normal, eu estaria escrevendo sobre uma vila de pescadores ou coisa parecida, mas a coluna de hoje é meio ‘metaverso’.

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De Xerém, só conhecia uma placa de beira de estrada que avistava, vez por outra, quando morava em Petrópolis. Do InMetro, só lembrava dos formulários obrigatórios da minha indústria de alimentos e imaginava uma repartição pública cheia de gente apegada a carimbos. Pois é, eu não estava preparada.

Há uns 5 anos, escrevi sobre uma empresa israelense precursora no desenvolvimento da carne feita em laboratório. Hoje, há 80 startups no mundo disputando a corrida, mas jamais imaginaria que uma delas, com foco em pescado, trabalhava já há um ano dentro de um imenso parque tecnológico no campus do InMetro, em Xerém, ao pé da Serra de Petrópolis. 

Para quem viu com alegria a volta de ingredientes e processos mais naturais nas prateleiras de supermercado, não é nada romântico cogitar a alternativa (eu sei…), mas sinto dizer que é urgente. 

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Qualquer pescador sabe que os estoques estão acabando. Como diz Jonas Leite, Doutor em Biologia Marinha, mesmo com tudo que sabemos hoje sobre os oceanos e impactos ambientais cada vez mais evidentes, continuamos destruindo habitats marinhos. Além disso, falta fiscalização e consciência coletiva em todos os níveis. O resultado é que a cada ano os bichos são menores. E não só: precisamos de mais barcos e temos de ir cada vez mais longe para achar a mesma quantidade de peixes num dado pedaço de mar. Às vezes, não se acha mais peixe. 

Marcelo Szpilman também sabe bem disso. Biólogo marinho e empreendedor teimoso, já presenteou o Rio com seu Instituto Ecológico Aqualung, é idealizador e diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio de Janeiro – AquaRio, autor do livro de referência “Peixes Marinhos do Brasil” e, até por isso tudo, ganhador do prêmio “Carioca do Ano” de 2016, aqui pela Veja Rio.

Ele é o pai ansioso de futuros chernes, robalos, linguados e garoupas, gestados numa garrafinha que cabe na palma da minha mão, sem que ninguém tenha precisado pescar, confinar ou matar peixe algum.

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Meninos, eu vi. O metaverso é aqui.

Está achando esquisito? 

Há dois dias, saiu no New York Times uma iniciativa pensada para aproximar pessoas como nós do conceito de carne de laboratório: a Upside Foods, projeto com jeitão de mercearia que funciona numa área residencial na Califórnia. 

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Ali, você se senta num balcão e pede um frango, como se nada houvesse. Enquanto isso, do outro lado de uma parede de vidro, engenheiros de tecidos e cientistas caminham por entre tanques de aço, bio-reatores, monitores e outros equipamentos esquisitos de onde brota o seu pedido: uma lâmina prensada de frango, que toma o jeitão de um escalope, depois de bem cortada. 

Mais louco ainda é poder comer até uma versão crua daquele frango; afinal, do outro lado da parede alguém produziu o seu petisco a partir de células saudáveis da ave, sem risco de salmonella ou qualquer outra doença. 

Assim é o projeto da Sustineri Piscis, startup de Szpilman, que conta com a orientação do Professor Radovan Borojevic, que idealizou e preside o maior Banco de Células Animais e Humanas da América Latina. Ali, os pesquisadores Camila Luna e Marcos Teixeira, avançam agora na pesquisa sobre carne cultivada.

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Claro que o caminho é longo e ainda há mais perguntas que respostas quanto à segurança de proteínas feitas em placas de petri, mas fiquei muito otimista com essa ferramenta de apoio à biodiversidade. 

O maior desafio dos pesquisadores, no entanto, ainda é a textura. Antes de sonharmos com um filé, sabemos que o primeiro resultado provavelmente será uma carne meio moída, boa para empanados, embutidos e ração animal. 

Finalmente, e depois de muito nadar – com o perdão do trocadilho – vem a fase 3D, aquela do filé bonitinho e embalado, na peixaria da esquina. Mais adiante, ainda, vem a esperança de que a escala possa garantir ao pescado de laboratório um preço que possamos pagar.

Dizem que, em breve, não conseguiremos distinguir o mundo virtual do real. Por isso, volta e meia eu me beliscava para ver se estava num universo paralelo. Felizmente, não. Por incrível que parecesse, eu conversava com uma equipe cheia de sonhos, num parque tecnológico cercado de verde, no Rio de Janeiro. 

E não, essa não é uma história de pescador. 

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