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Analice Gigliotti

Por Analice Gigliotti, psiquiatra
Comportamento
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“Os outros” somos nós: série escancara a irracionalidade da violência

O condomínio da ficção é, na verdade, a vida de todos nós em sociedade

Por Analice Gigliotti
24 jul 2023, 11h31

Dois adolescentes brigam no playground de um condomínio na Barra da Tijuca. A desavença acaba mal. Os pais se envolvem, tomam partido de seus filhos e a coisa só piora. Daí em diante, as duas famílias e, por consequência, todo o condomínio, assumem uma escalada de violência só justificada pela irracionalidade. A premissa da série “Os Outros” (GloboPlay) é, de alguma forma, a história de cada um de nós que vivemos na bélica sociedade brasileira. Talvez isso explique um pouco do sucesso estrondoso que a série vem fazendo.

Contrariando Sartre, que inspirou o título da série, “o inferno não são os outros”, mas nós mesmos, a partir do espelhamento que fazemos das nossas carências, dores e angústias, individuais e sociais. O resultado disso é uma brecha para violências assustadoras. Só isso explica que o Estado do Rio de Janeiro tenha, entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022, 35.244 ocorrências de ameaça, lesão corporal dolosa, homicídio, tentativa de homicídio e feminicídio envolvendo vizinhos, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Isso equivale a um caso a cada hora e meia. Apenas ano passado, chegaram à Justiça 560 casos relativos ao direito de vizinhança; até maio deste ano, foram 226 casos. As motivações são as mais variadas: de incômodo por barulho a vagas na garagem. Somos todos membros de uma mesma “vizinhança”, a humanidade, e escolhemos olhar nos outros o que temos de pior. Vizinhos, como Rússia e Ucrânia, repararam?

As contendas entre vizinhos não chegam a ser uma exceção no comportamento do brasileiro. O país ocupa, com frequência, o topo do ranking de diferentes formas de violência: no trânsito, na destruição do meio ambiente, contra as mulheres e contra a população LGBTQIA+. Os exemplos não acabam. Nesta semana, uma médica foi agredida pelo familiar de um paciente enquanto tentava exerceu seu trabalho. A família de um ministro do STF foi hostilizada por turistas brasileiros em uma viagem ao exterior. O que está por trás disso? Apenas uma sociedade com altos graus de intolerância consegue atingir tamanha incivilidade.

Sérgio Buarque de Hollanda, no clássico “Raízes do Brasil”, definiu o temperamento do brasileiro como “homem cordial”. Sem querer dizer que somos “bonzinhos”, mas movidos pela emoção (de acordo com a raiz latina da palavra: cordis, relativo ao coração, cuore) e não pela lógica, como outros povos mais racionais. E agir “pelo calor do momento” tem levado nossa sociedade a qual destino? A uma mistura de agressividade, ódio e intolerância. Se tais gestos eram acanhados até pouco tempo, agora se assumem tristemente orgulhosos, dentro e fora das redes sociais.

Tudo isso, misturado a um acesso desenfreado e sem monitoramento de posse de armas. Segundo levantamento do Governo Federal, mais de 900 mil armas legais, vendidas nos últimos anos, circulam no país sem supervisão das autoridades sobre seu uso. “Os Outros” é brilhante ao mostrar as imprevisíveis consequências da livre circulação de uma arma por parte de pessoas despreparadas para tal finalidade.

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Uma das serventias da lei é justamente colocar freio em instintos primitivos da sociedade, como matar e roubar.  Se não fossem as leis, estaríamos em uma “anomia”, conceito social criado pelo sociólogo francês Émile Durkheim para definir o caos. Mas no Brasil vivemos sob a chaga cruel da injustiça, onde casos de violência levam anos para serem julgados – se forem – e se perdem em recursos infindáveis e burocracias incompreensíveis. A sensação é que, no Brasil, o crime compensa pela impunidade.

Armas, intolerância, frustrações, super proteção de filhos, milícia, subornos, vinganças. A série mistura todos estes elementos e entrega ao espectador mais do que entretenimento de primeira qualidade: um verdadeiro estudo sobre as tragédias e mazelas da classe média brasileira contemporânea.

Mas preparem o estômago: nem sempre Narciso acha bonito o que vê no espelho. E “Os outros” mostra, exemplarmente, alguns dos nossos piores ângulos.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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