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Analice Gigliotti Por Analice Gigliotti, psiquiatra Comportamento

O cassino armado em torno dos clubes de futebol no Brasil

Sites de apostas esportivas sequer tem regulamentação no país, onde os jogos de azar ainda são proibidos

Por Analice Gigliotti 21 jun 2022, 12h24

O Brasil é o país de dois pesos e duas medidas. O que vale para uns, não vale para outros. Um país onde todos são iguais perante a lei, mas… se você tiver ensino superior, há uma série de privilégios. Uma nação onde o aborto é proibido em vários casos, mas… quem tem dinheiro e contatos, resolve a questão sem alarde e sem risco de morte. Até nossa festa mais popular, o Carnaval, é o reino da contravenção. Somos, portanto, um país que combina contradição com hipocrisia.

É o que estamos assistindo, mais uma vez, em torno à questão da liberação dos jogos de azar. Enquanto o pesado lobby do setor tenta aprovar no Senado a lei que libera os cassinos no Brasil – já aprovada em março na Câmara – outra poderosa força corre por fora: os times de futebol, essa verdadeira paixão nacional. Dos 40 times que disputam as séries A e B do Campeonato Brasileiro, 35 são patrocinados por sites de apostas esportivas. Trata-se de um mercado ainda sem regulamentação no país, com empresas sediadas no exterior, que não geram divisas ou empregos ao Brasil.

Não é apenas nas camisetas dos times que as marcas estão expostas. São cerca de 400 empresas do ramo que também patrocinam programas esportivos, contratam celebridades e influenciadores digitais para anúncios, um mercado que, segundo apurou a Folha de São Paulo, pode chegar a 100 bilhões de reais e que pode chegar – pasmem! – a mais de 700 bilhões de reais até 2028, de acordo com a Grand View Research.

Autorizadas a operarem em 2018, pelo então presidente Michel Temer, as empresas ainda carecem de regulamentação. Diante da falta de regras, as casas de apostas sequer são obrigadas a destinar parte da receita arrecadada para investimentos no esporte. Na esteira da falta de legislação, outros problemas legais acabam surgindo. Vários apostadores se dizem lesados e sem terem um forum nacional para recorrer.

Um dos braços mais interessados nessa nova modalidade de cassino são os times, claro, que viram seus cofres encherem com o negócio suspeito. Clubes de futebol são ativos milionários, vide Manchester City, Real Madrid ou Barcelona. Mas no Brasil, os cartolas não conseguem (ou não querem?) transformar a paixão em lucro. Os clubes no Brasil, salve algumas raras exceções, estão sempre quebrados, de pires na mão. Até mesmo potências de torcidas, como Flamengo e Corinthias, invariavelmente reclamam de falta de caixa.

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Porém, esses sites vão muito além do futebol, dedicando-se a apostas em mais de 20 tipos de modalidades esportivas. Em uma das abas, é possível entrar em uma área intitulada “cassino” com mesas de roletas e blackjacks a um clique de distância do usuário.

Não entendo de esporte. Mas entendo de saúde mental e posso afirmar: jogos de azar têm enorme impacto sobre os apostadores. Segundo dados da USP de 2017, a compulsão por jogos atinge cerca de 1% da população brasileira, totalizando mais de 2 milhões de viciados. Mas não são apenas os dependentes que sofrem. As famílias dos jogadores patológicos também são afetadas, emocionalmente e financeiramente.

O Transtorno do Jogo apresenta sintomas parecidos com os dos transtornos por uso de substâncias (como álcool e drogas), agindo sobre o mesmo sistema de recompensa no cérebro. Jogadores compulsivos podem apresentar desenvolvimento de tolerância e síndrome de abstinência, levando a sofrimento clínico significativo e prejuízo no funcionamento social ou profissional, com possibilidade de aumento de tentativa de suicídio.

Mesmo com tanta informação sobre os impactos que a dependência em jogo pode causar, somos forçados, mais uma vez, a assistir à queda de braço entre a força da pressão econômica versus o bem-estar e a saúde da sociedade. Quem vai levar a melhor nessa disputa? Façam suas apostas.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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