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Analice Gigliotti Por Analice Gigliotti, psiquiatra Comportamento

Entre o “corpo ideal” e o fast food: os transtornos alimentares nos jovens

Ao mesmo tempo em que alguns influenciadores pregam forma física inalcançável, outros ganham dinheiro com publicidade de comida pouco saudável

Por Analice Gigliotti 23 Maio 2022, 09h51

A internet e as redes sociais foram um ganho na capacidade de disseminação de ideias nas últimas décadas. Por meio da comunicação veloz, praticamente em tempo real, tivemos acesso à informações que antes levariam horas, se não dias, para nos impactar. Adeptos das novidades tecnológicas, os jovens rapidamente fizeram das redes seu habitat: é lá que eles se divertem, aprendem, jogam e exercem grande parte da sua sociabilidade.

Mas o ambiente digital – especialmente depois do surgimento do Instagram e do Tik Tok, que primam pela superexposição da imagem e da aparência – também virou o lugar do lançamento de modismos. Do desafio do balde de gelo ao agachamento embalado pelo som de Beyoncé, faz-se todo o tipo de gracinha nas redes. Algumas, como essas, são inofensivas, mas outras podem ser danosas.

Há algum tempo está circulando a hashtag #TudoQueEuComoEmUmDia, usada por meninas para exibirem em vídeo as refeições que fazem em 24 horas, com excessiva restrição calórica. Não precisou de muito tempo para que os posts fossem assistidos – e imitados – por milhões de pessoas. A consequência perigosa dessa imprudência é detonar graves quadros de transtornos alimentares, como anorexia (quando a pessoa se esforça persistentemente para obter um peso abaixo do padrão sem consciência da gravidade do baixo peso, frequentemente com uma visão distorcida do próprio corpo), compulsão (quando se ingere, com regularidade grande quantidade de comida de uma só vez, tendo a sensação de perda do controle alimentar) e bulimia (quando a compulsão é seguida por atos que evitem o ganho de peso, como vômitos e uso de laxantes) além de outros transtornos mentais, como depressão e ansiedade. 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 5% da população do Brasil sofre de transtornos alimentares, mas esse índice pode chegar a 10% entre os jovens – mais frequentemente entre as meninas, com até oito casos para cada menino. As implicações dos transtornos alimentares vão muito além da imagem refletida no espelho, como complicações metabólicas, neuronais cardíacas e endócrinas e podendo chegando à morte, em casos extremos.

A influência das redes sociais sobre os jovens também atinge seus hábitos de consumo. O perigo é que nem sempre eles são saudáveis. Pesquisa realizada pela Universidade Médica de Viena, na Áustria, analisou os posts de seis influenciadores digitais alemães, que somados alcançam quase 40 milhões de seguidores. Cerca de 75% do seu conteúdo envolvia junkie food, ou seja, comida pouco saudável. Segundo pesquisadores que deram suporte ao estudo, crianças e jovens são impactados por 18 publis por hora sobre comida de alta caloria e baixa capacidade nutricional.

O resultado desse verdadeiro “bombardeio” de marketing se traduz em números preocupantes: de acordo com números da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1975 calculava-se que 11 milhões de adolescentes eram obesos. Hoje, passam de 124 milhões de jovens. Se incluirmos o sobrepeso nesta estatística, o resultado chega a 340 milhões de pessoas sob esta condição (diferentemente da anorexia, a obesidade e o sobrepeso se distribuem mais igualmente entre os sexos).

As estatísticas referentes ao Brasil não destoam do resto do mundo. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), que se baseia em dados de comportamento de adolescentes acompanhados pelos serviços de atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS), cerca de 55% dos adolescentes se alimentam mal: 42% desses jovens costumam comer hambúrguer e/ou embutidos e 43% biscoitos recheados, doces e guloseimas. A longo prazo, isso pode significar crescimento de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos.

Qualquer exagero, para mais ou para menos, é um erro: nem dietas demasiadamente restritivas, nem excesso de comida calórica. Moderação é a palavra-chave. Como defende um dos princípios budistas mais conhecidos, que prega o equilíbrio e o controle nas próprias ações e impulsos: o “Caminho do Meio”.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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