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Analice Gigliotti

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Comportamento
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Cigarros eletrônicos: 10 razões para mantê-los proibidos

Discussão na Anvisa faz lembrar motivos que devem manter o cigarro eletrônico distante da população

Por Analice Gigliotti
26 abr 2024, 11h01

Na semana passada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu manter a proibição da comercialização de cigarros eletrônicos (ou vapes) no Brasil, apesar de dois milhões de brasileiros usarem o utensílio frequentemente, mesmo proibido. Profissionais de saúde, em uníssono, se pronunciaram sobre o perigo que a liberação da venda do vape poderia causar na saúde pública a médio e longo prazo. A Anvisa foi muito feliz e responsável em seguir a orientação do seu corpo técnico na sua decisão e não ceder ao enorme lobby que lutou pela liberação do produto. Compartilho aqui algumas das muitas razões para que os cigarros eletrônicos permaneçam proibidos.

  • Antes de mais nada, é fundamental lembrar que a legalização e comercialização de drogas aumentam os casos de dependência e óbito, como testemunhamos com as bebidas alcoólicas e os cigarros tradicionais.
  • O argumento de que o cigarro eletrônico seria um substitutivo temporário às pessoas que estão tentando parar de fumar não se sustenta de pé. Para abandonar um vício adere-se a outro, ainda mais potente e perigoso? Não tem nenhuma lógica razoável. Além disso, um cigarro tradicional oferece, em média, 15 tragadas. Um maço, portanto, é capaz de oferecer 300 tragadas. Já um vaporizador de 1,5 mil tragadas seria equivalente a cinco maços.
  • Além de todos os males já conhecidos da nicotina, consumidos em maior quantidade nos vapes, eles liberam uma série de micropartículas e mais de duas mil substâncias químicas tóxicas e cancerígenas, como acroleína, acetaldeído, benzeno, óxido de etileno, formaldeído, níquel e nitrosaminas. Assim, os vapes estão relacionados a diversos tipos de cânceres e enfisema.
  • De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, o cigarro eletrônico aumenta 1,79 vezes a probabilidade de infarto, além de impactar na incidência de ateroesclerose.
  • Recentemente, vapes foram associados a um aumento de lesões pulmonares nos Estados Unidos. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) denominou essas ocorrências como lesão pulmonar associada a cigarros eletrônicos ou vaping (EVALI).
  • A maior interessada na liberação dos cigarros eletrônicos é a própria indústria do cigarro. Não vemos uma enorme demanda da sociedade que justifique sua legalização. A indústria do fumo, ao contrário, por se ver cada vez mais acuada e reprimida, precisa achar novos canais de demanda. Gigantes da indústria, como British American Tobacco (BAT), Philip Morris e Altria tem participações no mercado dos vapes – que já somam 30 mil marcas, com vendas equivalentes a 15 bilhões de dólares. Enquanto isso, os custos para tratar diversas doenças crônicas decorrentes do tabagismo atingiu a marca de 23 bilhões de reais, de acordo com levantamento de 2011.

 

  • A liberação dos cigarros eletrônicos passa muito pouco pelo argumento da liberdade do indivíduo, como alguns querem fazer crer. É papel do Estado manter os cidadãos afastados de artigos que possam lhe trazer danos físicos ou mentais – é o que já acontece com outras drogas, por exemplo. Por que com o cigarro eletrônico deveria ser diferente? Não há justificativa plausível.

 

  • Os usuários predominantes dos cigarros eletrônicos são os jovens adultos, cerca de 6,1%, de acordo com o o Relatório Covitel (Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis). Os vapesestão servindo de iniciação à dependência para novas gerações, com o agravante de estarem disfarçados por sabores agradáveis e associados a um comportamento cool típico dos jovens. No entanto, tal posicionamento não passa de estratégia de marketing (assim como os cigarros fizeram por décadas). Mesmo proibidos, cerca de 0,6% dos brasileiros com mais de 15 anos se declaram fumantes dos vapes. Ou seja: estamos assistindo a uma geração que adoecerá severamente de doenças respiratórias de forma precoce, antes mesmo dos 30 anos.
  • Ainda segundo o Relatório, um em cada cinco jovens de 18 a 24 anos está fumando vape. Uma vez legalizado e com a comercialização autorizada, este número tenderia a crescer de forma significativa. 
  • O Brasil não está sozinho na determinação de proibir os cigarros eletrônicos. Outros 32 países têm orientação semelhante, como Argentina, México e Índia.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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