Os sonhos das crianças da Rocinha em meio ao fogo cruzado

Dez pequenos moradores da favela revelam como se sentem em meio à guerra deflagrada por traficantes e o que esperam do futuro

A artilharia que tomou conta da Rocinha nas últimas semanas, espalhando tensão e medo pela encosta em São Conrado, foi um choque para os moradores. Uma parcela deles, entretanto, misturou impressões que variaram do horripilante ao surreal. Trata-se de uma legião de crianças que, nascidas pouco antes ou durante a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), cresceu sob os auspícios daquilo que parecia ser uma pax civilis na favela. Durante dias seguidos, esses pequenos testemunharam pela primeira vez uma guerra travada por gangues de traficantes entrincheirados nas vielas, munidos de fuzis e granadas. Em meio a tiroteios e invasões da polícia e dos militares, a população assistiu à mobilização armada pelos becos que serpenteiam entre os casebres de alvenaria onde vivem mais de 70 000 pessoas. Três semanas depois da primeira eclosão de violência, na manhã de domingo 17 de setembro, a tensão ainda paira no ar.

Diante de todo esse caos, as crianças tentam racionalizar a crueza da realidade a partir da inocência que a pouca idade permite. Na semana passada, a reportagem de VEJA RIO conversou com dez estudantes do ensino fundamental da Escola Municipal Luiz Paulo Horta e do Ciep Doutor Bento Rubião, que ficam em um dos principais acessos ao bairro. Com a sinceridade própria da infância, eles relataram o terror de ouvir os tiros e a forma como os pais ficaram atônitos e apavorados. Também revelaram a tristeza de talvez ter de deixar a casa, o colégio e os amigos em nome da segurança. E falaram de seus sonhos, com uma singeleza de emocionar — e de levar cada um de nós a refletir sobre o que temos feito por esses pequenos cariocas.

Maith da Silva Tavares, 7 anos

Maith da Silva Tavares, 7 anos (Julio Cesar Guimarães/Veja Rio)

“Eu me chamo Maith porque a minha avó, dona Birinha, é muito fã da Maitê Proença. Quando vim morar na Rocinha, aos 4 anos, adorei. O meu quarto era todo rosa, e da varanda dava para ver a praia inteirinha. Agora estou triste e com medo. Tive de ficar mais de uma semana em casa e dormindo no chão. Nunca tinha visto um tiroteio. Explodiu uma coisa perto da janela e achei que eram fogos de artifício. Depois ouvi dizer que era uma granada. Eu queria que a polícia e os bandidos fossem embora. Lá na Paraíba, onde eu morava, só teve um assalto no mercadinho. Quando eu crescer, quero ser modelo e cantora. O meu grande sonho é conhecer a Simone & Simaria e a Maitê Proença. Também adoro um cantor de rock estrangeiro, mas não lembro o nome. Agora não sei o que vai acontecer. Meu pai é porteiro, a minha mãe tem uma lojinha de roupas de marca aqui na Rocinha e eles querem voltar para a Paraíba. Mas eu não quero sair da minha escola nem ficar longe dos meus amigos.”

Moisés Lucas, 10 anos

Moisés Lucas, 10 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Estava em casa quando a invasão começou. Acordei assustado, mas não passou disso. Eu acho que as outras pessoas sentiram medo, eu não. Isso já é normal para mim, porque aqui sempre tem tiro. Já vi armas várias vezes. Sempre ando na rua e vejo os bandidos. Sei que são bandidos porque ficam vendendo drogas. Eles não se escondem, ficam todos em lugar aberto. E eu vejo tudo quando saio para comprar comida para a minha casa. Fico com muito medo. Minha mãe diz que não devemos usar drogas porque faz mal, uma hora a pessoa morre. Tenho muita vontade de me mudar daqui. Gostaria de morar em um lugar calmo, que não tivesse tiroteio. Queria ir para outros países. Gostaria de conhecer a China, a Nova Zelândia e os Estados Unidos. Faço parte do Projeto Favela, e lá aprendo um monte de coisas. Quase não tenho tempo livre porque lá também faço capoeira, jogo tênis, tenho aula de inglês, de espanhol, de matemática. É uma oportunidade boa porque não precisa pagar nada. E, fazendo muitas coisas, a gente não pensa em besteira. Quero ser cientista quando crescer. Adoro inventar objetos.”

Camilla Lopes e Lima, 8 anos

Camilla Lopes e Lima, 8 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Tenho dois irmãos, o Carlos, de 15 anos, e o Lucas, de 19, mas só o Carlos mora com a gente. Eu divido o quarto com ele. Meu sonho era ter um quarto rosa só para mim. Eu até junto dinheiro, mas sei que a cama, o guarda-roupa e a mesinha que eu quero custam caro. Tenho 180 reais guardados. Quando precisar, vou usar esse dinheiro. Aprendi a poupar com a minha mãe. Ela diz que, se não guardar, não vou ter um centavo quando precisar. Não gostei da confusão que teve na semana passada, porque faltou luz na minha casa. Tivemos de levar a carne e os iogurtes para a casa da minha tia. Comi pão e tomei Coca-Cola quente. No domingo de manhã teve muito tiro. Minha mãe foi para a minha cama para me proteger. Eu nem tinha escutado. Depois que vi que davam muito, muito tiro. Nunca vi nada de perto, vejo só pela televisão. Minha mãe fica preocupada com o meu irmão. Ele sai às 6 da manhã. Ela pede para ele ligar, mas ele é teimoso e não liga. Para ficar bom, tinha de ter paz. Paz para mim é meu irmão sair e minha mãe ficar tranquila. Eu rezo todo dia pedindo isso. Gosto muito de morar aqui.”

Kauâny Fernandes, 8 anos

Kauâny Fernandes, 8 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Minha mãe é empregada doméstica e meu pai vende peixe. Meu irmão estuda em uma escola que dizem que é ruim. Os alunos roubam as coisas um do outro. Já pegaram um monte de vezes a mochila dele. Minha mãe falou com a diretora, mas não adiantou nada. Ela vive dizendo que vai mudar meu irmão de colégio. Eu queria morar no Ceará para aprender a tirar leite de vaca. Meus pais são cearenses e eu já perguntei se lá tem chocolate, bala e tiro. Se um gênio aparecesse na minha frente, faria três pedi­dos. O primeiro seria viajar para o Ceará. O segundo, acabar com esse tiroteio, porque, pelo amor de Deus!, né? E o terceiro seria ir à praia. Minha mãe foi hoje para caminhar. Ela está gorda e precisa emagrecer. No dia da confusão, foi a primeira vez que escutei um tiroteio. Sabia que era tiro. Fiquei com dor de barriga, mas não a dor de barriga de ir ao banheiro, sabe? Aqui não tem muito lugar para brincar. Não tem um parquinho com escorrega, por exemplo. Nem no colégio. Nunca fui ao cinema. Queria muito ver o Meu Malvado Favorito. Eu me sinto segura aqui na escola. A tia já ensinou pra gente que, quando começam os tiros, devemos ir para o corredor e deitar no chão.”

Ingrid Karine Gomes da Silva, 9 anos

Ingrid Karine Gomes da Silva, 9 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Quero ser professora quando crescer. Na escola, a minha matéria predileta é língua portuguesa. Eu também gosto muito de ler e meu livro favorito é Meus Contos de Fadas Preferidos. Eu nasci em São Paulo e não sei há quanto tempo estamos aqui. Só sei que não gosto de morar aqui. A Rocinha tem muita guerra. Já foi mais calmo, mas agora não é mais. Se eu pudesse, me mudaria hoje mesmo. No dia da confusão, estava em casa, com a minha mãe. Foi ela quem me disse que aquele barulho era de tiro. Fiquei com bastante medo. Depois, vi muita polícia passando. Fiquei tão assustada que tive dor de cabeça. Uma vez, estava indo para o colégio e vi um bandido com uma arma. Como sei que era bandido? Porque ele não tinha roupa de polícia! Nunca fui ao cinema. Já vi os outros filmes dos Minions na TV e queria muito assistir ao Meu Malvado Favorito 3 na telona. Quando não estou na escola, gosto de estudar. Ou brincar de escolinha. Chamo as minhas amigas Sofia, Julia e Gabriele. Quer dizer, a Gabriele não chamo mais, porque ela se mudou. A mãe dela quis ir embora daqui.”

Gabriel Moura Gomes, 8 anos

Gabriel Moura Gomes, 8 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Nunca tinha tremido de medo antes. Minha mãe tentou me acalmar, mas as minhas pernas não paravam. Nem sei direito o que está acontecendo. Ouvi dizer que um moço quer pegar o morro do outro e por isso tem tanto tiro. Teve um dia que a gente passou horas no banheiro. Era o único lugar da minha casa que não tinha risco de entrar bala. Meu pai trabalha com mototáxi e a minha mãe, num restaurante no Village Mall. Eles nem puderam ir trabalhar. Nessas horas eu fico brincando com o celular. Tenho até um canal na internet, gravo vídeos e peço likes para todo mundo. Quero ser youtuber porque essa gente ganha dinheiro e fica famosa. Acho muito legais os vídeos de game do Rezendeevil e os do Felipe Neto trolando o irmão dele. Também quero entrar para a Marinha, porque quando for parado numa blitz é só mostrar a carteira e passar direto. Mas o que eu queria mesmo era mudar para a Bahia, onde minha mãe nasceu. Lá, tem uma loja com um milk-shake delicioso e não tem tiro.”

Beatriz Cardoso de Sena, 11 anos

Beatriz Cardoso de Sena, 11 anos (Julio Cesar Guimarães/Veja Rio)

“Nunca tinha ouvido tiros. Quando o barulho começou, todo mundo na minha casa deitou no chão. Só que o barulho não passava e voltou muitas vezes. Tive muito medo de morrer. Parecia aquelas guerras que a gente vê na televisão. Até três anos atrás eu morava na comunidade Rio das Pedras. Meu pai ficou lá e me mudei para a Rocinha com a minha mãe, minha irmã de 1 ano e meu padrasto, que vende açaí na Barra. Eu nunca tinha ficado sem ir à escola. A rua ficou deserta. Ainda bem que tinha comida em casa. No início, eu gostava da Rocinha, agora a paz acabou. Aqui também não tem muito lazer nem passeio com a escola. No dia que ia sair com o pessoal da igreja foi tudo cancelado. Nunca fui ao Pão de Açúcar, ao Corcovado nem ao teatro ou ao cinema. Mas amo ler. Sempre que vou à casa de um parente pego o primeiro livro que vejo. Já li o Pequeno Príncipe e um livro da Agatha Christie. O meu maior desejo é ser professora.”

Brendo Lima de Freitas, 10 anos

Brendo Lima de Freitas, 10 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Estou muito assustado com o que está acontecendo perto da minha casa. Pedi até para dormir na cama dos meus pais. Lá o medo passa. Sempre brinquei na rua, mas agora eles dizem que está muito perigoso. Vi na televisão os repórteres falando da Rocinha, e meus pais me explicaram que existe uma briga política, mas não consigo entender por que tem de ter esse monte de tiro. Em muitos lugares as pessoas vivem tranquilas. Queria que aqui também fosse assim. Teve dois dias que eu, a minha mãe, que está sem emprego, e meu pai, que trabalha numa loja de embalagens na Via Ápia, ficamos em casa no escuro. Acho que as balas acertaram um poste. Mesmo assim, sou feliz. Eu estudo, tenho amigos e faço aulas de natação, skate e futebol no complexo perto da passarela lá embaixo. O meu maior sonho é ser jogador de futebol como o Neymar para ajudar a minha família e morar num lugar melhor. Mas não vou gastar o meu dinheiro com bebidas ou drogas.”

Isabella Rodrigues Gonçalves, 7 anos

Isabella Rodrigues Gonçalves, 7 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Nasci e sempre morei aqui. Minha mãe é empregada doméstica e meu pai às vezes arranja trabalho em obra, às vezes fica só em casa. Gosto de viver na Rocinha porque posso ir ao sacolão, ao bar, tudo sozinha. Minha família inteira é daqui e todo mundo me conhece. Quando começou essa confusão, a gente foi para a casa da minha avó, que fica na parte mais baixa do morro. Eu, minhas duas irmãs mais velhas e meu irmãozinho de 2 meses ficamos escondidos num quartinho durante horas. Chorei muito. Meu pai estava em um bar e disse que a rua parecia um filme de guerra. Todo mundo correndo desesperado, tentando se esconder. Agora passou o medo, mas continuo dormindo com um travesseiro no ouvido para não escutar mais tiros. Meu maior sonho é ser uma daquelas mulheres que ficam no caixa de supermercado. Aí eu vou poder pegar em muito dinheiro! Finalmente vou poder comprar aquelas calças rasgadas e saias com uma fenda bem grande, iguais às das modelos famosas. Um dia vou morar num daqueles prédios bem bonitos de São Conrado, pertinho de onde a minha mãe trabalha.”

Asheley Rodrigues Almeida, 10 anos

Asheley Rodrigues Almeida, 10 anos (Júlio César Guimarães/Veja Rio)

“Quando crescer, quero ser bem famosa. Penso em ser cantora, mas minha avó diz que tenho mais jeito para apresentadora. Sou boa aluna e tiro notas altas. Minha matéria preferida é ciências. Adoro conhecer lugares novos. Queria ir ao AquaRio, mas a escola não tem ônibus para levar a gente. Eu até passeio bastante, mas tenho amigos que nunca foram ao cinema. Acho isso triste. No dia do tiroteio eu estava em casa e tive muito medo. Ninguém me falou nada, mas vi tudo na TV. Fiquei tão assustada que até chorei. Tinha certeza de que muita gente ia morrer. No Dia das Crianças eu queria ganhar de presente a paz na Rocinha, ser feliz e uma casa dos sonhos da Barbie. Acho que o mundo seria legal se não tivesse tiroteio nem drogas. Meu pai conversa muito comigo sobre drogas. Ele diz que tem de ter muito cuidado porque elas não fazem bem para a saúde. Nunca vi arma nem gente morta, mas sei que acontece aqui porque vejo na TV. Morar aqui tem isso, a gente nunca sabe o que vai acontecer.”

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