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Números da violência contra a mulher no Rio de Janeiro são chocantes

“Precisamos de políticas públicas para que os meninos não se tornem agressores, além de trabalhar a saúde mental de quem já cometeu agressão", diz especialista

Por Kamille Viola
13 mar 2026, 06h48 •
woman raised her hand for dissuade, campaign stop violence against women. Asian woman raised her hand for dissuade with copy space, black and white color
Uma questão urgente: entre 2020 e 2024, os casos de feminicídio subiram 183% na capital fluminense (Asiandelight/getty images/Divulgação)
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  • Nas últimas semanas, um crime chocou o país: o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, cometido por cinco homens – quatro adultos e um menor de idade.

    Segundo a investigação, a jovem foi vítima de uma emboscada. Ela havia marcado um encontro com o ex-namorado, o menor, em um apartamento. Enquanto os dois estavam no quarto, os outros quatro rapazes entraram no local pedindo para participar do ato. Diante da recusa, passaram a agredi-la e a violentá-la.

    Lesões constatadas pelo Instituto Médico Legal (IML) são compatíveis com o relato da vítima, e imagens do elevador do prédio mostram o grupo comemorando após o crime.

    Depois que o caso se tornou público, outras jovens procuraram a polícia para denunciar agressões atribuídas aos investigados. Episódios como esse não são isolados.

    Para a psicóloga Valeska Zanello, professora da Universidade de Brasília e referência em saúde mental e gênero, ainda é difícil afirmar se houve aumento desses crimes ou se eles estão mais visíveis.

    “Cada vez mais vítimas reconhecem o que viveram, denunciam e encontram acolhimento”, explica. “Até poucos anos atrás, a violência contra as mulheres não apenas era tolerada, como parecia ser um direito masculino.”

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    Algoritmo do mal: as redes sociais potencializam discursos de ódio, aponta a pesquisadora Valeska Zanello (Micheli Karoly/Divulgação)
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    Os números da violência de gênero no Rio ajudam a dimensionar o problema. O Mapa da Mulher Carioca 2025, divulgado pela prefeitura em 3 de março, mostra que, entre 2020 e 2024, os casos de feminicídio cresceram 183%.

    Especialistas apontam que a internet tem papel relevante nessa escalada. Uma trend recente mostra homens simulando socos diante da câmera, acompanhados da legenda “treinando para caso ela diga ‘não”, numa insinuação explícita de agressão física diante de uma rejeição.

    No caso do estupro coletivo em Copacabana, um dos acusados, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 19 anos, apresentou-se à polícia vestindo uma blusa com os dizeres regret nothing (“não se arrependa de nada”, em inglês) – lema popularizado pelo influenciador americano Andrew Tate, figura central da chamada “manosfera” ou “machosfera”, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores.

    “Por um lado, a gente vê o avanço do feminismo entre as jovens. Por outro, cresce, sobretudo nas redes sociais, o consumo de conteúdo masculinista, que defende a supremacia do homem sobre a mulher”, pondera Valeska Zanello.

    “Essa colonização do imaginário envolve violência sexual, objetificação e desumanização das mulheres.” Enquanto isso, acrescentam especialistas, as big techs ainda fazem pouco para conter a circulação desse tipo de material.

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    A mudança desse cenário passa por um trabalho com garotos e homens. É o que defende Pâmella Rossy, psicóloga clínica e psicanalista com treze anos de experiência com mulheres vítimas de violência.

    “Precisamos de políticas públicas para que os meninos não se tornem agressores e para trabalhar a saúde mental de quem já cometeu uma agressão, interrompendo o ciclo de violência”, argumenta ela.

    O Rio de Janeiro vem agindo nesse sentido, com programas como o Nós + Seguras, que inclui ações formativas com profissionais da educação e da saúde, qualificando a rede para acolher e encaminhar casos de violência à polícia e realizando conversas sobre o tema com alunos.

    Outra ação é o SerH (Serviço de Educação e Responsabilização do Homem), que atua na conscientização de agressores presos com base na Lei Maria da Penha por meio de grupos reflexivos, na unidade prisional Patrícia Acioli, em São Gonçalo, na Região Metropolitana.

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    Já passaram pelo programa 1 353 homens, de maneira voluntária, e a medida se mostrou eficaz para evitar que eles cometessem novamente o mesmo crime.

    “A taxa de reincidência da unidade era de aproximadamente 17%, e, um ano depois da implementação, caiu para 2,9%”, exemplifica Giulia Luz, subsecretária e superintendente de Enfrentamento às Violências da Secretaria de Estado da Mulher.

    Que essa mudança avance com a urgência que o problema exige ó para que meninas e mulheres deixem de viver sob a ameaça cotidiana da violência.

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    Comoção nacional: ocorrido em 31 de janeiro, o crime em Copacabana resultou em quatro prisões e a apreensão de um menor (Reprodução/TV Globo)

    Estatísticas desoladoras

    O retrato de um ano de crimes contra mulheres no Rio

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    5500 notificações de violência contra meninas, sendo a maior parte das ocorrências dentro de casa, cometida por familiares

    50 casos de feminicídio

    117 tentativas de assassinato

    42107 casos de lesão corporal

    1702 denúncias relativas a estupro

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    72,5% das vítimas de feminicídio eram negras

    67090 notificações de ameaça

    Fonte: Mapa da Mulher Carioca 2025, da Prefeitura do Rio

     

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