Shopping Tijuca: os erros no combate ao incêndio relatados pelos bombeiros
Agentes da Defesa Civil apontam falhas no atendimento inicial e dificuldade de acesso à área atingida. Centro comercial segue interditado
Três dias após o incêndio que matou duas pessoas no Shopping Tijuca, a Defesa Civil realizou, nesta segunda (5), uma vistoria no imóvel, afastando o risco de desabamento do prédio. A interdição parcial do subsolo e de 14 lojas do térreo, no entanto, foram mantidas. O fogo teve início na última sexta (2), e, desde então, o Corpo de Bombeiros atua no trabalho de rescaldo para resfriar as áreas mais afetadas. O shopping segue sem previsão de reabertura.
A vistoria realizada pela Defesa Civil foi parcial, já que o acesso ao local ainda é restrito. Na análise visual preliminar, os técnicos também identificaram deformações em parte do piso do térreo, causadas pelo calor intenso do incêndio.
Segundo autoridades, o fogo começou em um aparelho de ar-condicionado da loja de decoração Bellart, localizada no subsolo. Em depoimento ao Jornal O Globo, dois bombeiros que participaram da ocorrência relataram, sob condição de anonimato, uma série de falhas e dificuldades enfrentadas nas primeiras horas da operação, atribuídas à desorganização inicial, à falta de informações sobre a planta do shopping e ao grande acúmulo de fumaça.
Os dois agentes integraram equipes de apoio ao quartel da Tijuca, responsável pelo atendimento da ocorrência e o primeiro a chegar ao local. Um deles afirmou ter se surpreendido com a condução inicial da situação, que, segundo ele, destoou dos protocolos adotados pela corporação em casos de incêndio. “Em todo incêndio, a recomendação é que, primeiro, a gente procure pelas vítimas e, depois, combata as chamas. É uma ação estratégica com foco em salvar vidas. Quando cheguei, vi o chefe dos brigadistas bastante agitado. Bombeiros que já estavam ali atuavam sem retaguarda, o que não é aconselhável, pois, se algo acontece, não há outro agente para prestar socorro. Além disso, não tivemos acesso imediato à planta do prédio, então não sabíamos como chegar à loja ou a outros pontos do shopping” relatou.
De acordo com o agente, a grande quantidade de fumaça comprometeu o resgate das vítimas, que só foram localizadas posteriormente no subsolo. “Nos organizamos em duplas, utilizando cilindros de oxigênio. Esse equipamento dura, no máximo, cerca de 30 minutos, mas, dependendo do calor e da respiração, pode não passar de dez. Foram momentos de muita tensão. A fumaça era densa, branca, e a visibilidade era mínima”, disse.
O bombeiro também apontou falhas no acionamento da corporação e no isolamento da área, que só teria ocorrido com a chegada da Polícia Militar e da CET-Rio. “Não entendemos a demora para chamar os bombeiros. Essa deveria ser a primeira providência em um incêndio. Os clientes também demoraram a ser informados sobre o que estava acontecendo, e o alarme não foi acionado rapidamente. Além disso, as pessoas evacuadas ficaram expostas na entrada do shopping, já que o isolamento não foi feito de imediato”, afirmou.
Na sexta-feira, a cliente Yasmin Youssef contou que estava na loja de decoração com uma amiga quando, por volta das 18h, viu um brigadista entrar no local com uma mangueira. Uma funcionária informou que a loja seria fechada, e os clientes foram orientados a deixar o espaço. Sem perceber a gravidade da situação, no entanto, as pessoas continuaram circulando pelo shopping por quase uma hora. Os bombeiros chegaram às 19h.
O segundo militar ouvido pela reportagem avaliou que a própria estrutura do shopping dificultou o combate ao incêndio, especialmente pela incapacidade de dissipar rapidamente a fumaça tóxica. “O trabalho para eliminar a fumaça é extremamente difícil. Foi um obstáculo desde o primeiro minuto da operação. A estrutura do shopping não foi preparada para dar vazão, então os bombeiros ainda tentam encontrar formas de dissipá-la”, afirmou.
Ao longo dos últimos dias, foi necessária a abertura de quatro buracos nas paredes do shopping para facilitar a saída da fumaça acumulada. Segundo um dos agentes, as dificuldades foram ainda maiores para bombeiros que não atuam rotineiramente no quartel da região e não conheciam a disposição interna do shopping. “Com a visibilidade completamente comprometida, quem não conhecia o espaço demorou muito mais para localizar os pontos de atenção. Foi um trabalho extremamente exaustivo” disse.
Vizinho do shopping, o ator tijucano Gui Albuquerque, criador do stand up Bora Tijucar Oficial, publicou nesta segunda (5) um vídeo em seu perfil do Instagram manifestando solidariedade às famílias dos colaboradores e a todos os envolvidos diretamente no ocorrido: “Mais do que respirar essa fumaça durante todos esses dias, e mais do que as perdas materiais, temos as mortes dos colaboradores, que tentavam salvar as nossas famílias. Isso tudo é muito triste e tem um impacto que vai muito além do acidente”, afirmou o ator.
Famoso por produzir conteúdo de humor sobre o estilo de vida do tijucano, o ator usou a rede social para falar sério e cobrar um posicionamento das autoridades sobre o futuro do centro comercial. “Todo mundo está sendo impactado de alguma forma. Queremos informações objetivas porque o shopping está diretamente inserido no cotidiano do bairro, está associado ao tijucano, que tem nesse espaço uma referência. É preciso explicar o que muda a partir de agora, para que a gente se sinta seguro e volte a frequentar o shopping”, disse Gui, que alcançou milhares de visualizações e mais de 180 comentários.
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Em nota, a administração do Shopping Tijuca informou que todos os protocolos de emergência foram cumpridos, incluindo o acionamento de sirenes nos locais adequados, e que cerca de 7 mil clientes e lojistas foram evacuados em segurança. O comunicado afirma ainda que três ligações foram feitas ao Corpo de Bombeiros — a primeira às 18h12 e a última às 18h28 — e que o subsolo foi totalmente evacuado até 18h22, antes da chegada das equipes.
Documentos obtidos pelo Jornal O Globo mostram que, em abril de 2023, dois restaurantes localizados no subsolo do shopping foram notificados pelo Corpo de Bombeiros após denúncias relacionadas a exaustores. A documentação foi emitida pelo 11º Grupamento de Bombeiro Militar (GBM – Vila Isabel), a partir de uma solicitação do deputado estadual Rodrigo Amorim, que pediu a verificação das condições de segurança contra incêndio e pânico no local.
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