Rio de mistérios: um roteiro de cenários menos óbvios nos 461 anos da cidade
Entre arquivos oficiais e relatos populares, historiadores e guardiões da memória iluminam as camadas invisíveis da antiga capital
Não é só a paisagem que impressiona: por trás das curvas das montanhas, do azul do mar e dos quilômetros de asfalto e pedras portuguesas existe uma cidade desenhada por lendas e mistérios que atravessam gerações e ajudam a moldar, há 461 anos, uma identidade singular. Fundado em 1º de março, o Rio de Janeiro reafirma sua vocação para o extraordinário por meio de histórias fascinantes. Há quem diga que, até hoje, é possível ouvir o som de correntes e grilhões sendo arrastados pelo Cais do Valongo, que seria a principal porta de entrada de africanos escravizados no Brasil. Ou que a Pedra da Gávea foi esculpida por fenícios que supostamente aportaram ali por volta de 1000 a.C., reproduzindo a imagem monumental do rosto do rei Badezir nas rochas. Da bruxa do Arco do Teles aos abrigos antiaéreos construídos durante a Segunda Guerra; do verão da lata aos corredores mal-assombrados da Uerj… Fatos documentados e tradição oral se entrelaçam para revelar diferentes perspectivas da antiga capital federal e eterno polo cultural brasileiro, compondo um roteiro por lugares nada óbvios. “Mesmo não sendo uma peculiaridade do Rio, essa combinação entre história e lendas ajuda a explicar a íntima relação da cidade com o fantástico”, afirma o escritor Luiz Antonio Simas, autor de mais de vinte obras sobre cultura, religiosidade e filosofia popular. “Vivo no Rio há quase doze anos e não me canso de observar a beleza natural da cidade e de ouvir essas histórias que são tão ricas e instigantes”, diz a criadora de conteúdo gaúcha Juliana Goulart, do perfil do Instagram @vida_carioca. Para celebrar o aniversário da cidade, que também vem colecionando cada vez mais recordes, VEJA RIO ouviu pesquisadores e guardiões da memória e reuniu 26 histórias — entre lendas consagradas e episódios menos difundidos — que convidam cariocas e turistas a percorrer caminhos ora arrepiantes, ora divertidos, mas sempre reveladores. Aos 461 anos, o Rio segue provando que seu maior patrimônio é o próprio imaginário. Um bom passeio pelas próximas páginas!
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Os fantasmas do Municipal
Com arquitetura inspirada na Ópera de Paris, o Theatro Municipal foi inaugurado em 1909 e é um dos prédios mais emblemáticos da cidade. Sua sede é palco não só de óperas e balés, mas de relatos de pessoas que juram ter visto fantasmas. Aparições de antigos funcionários, pianos que tocam sozinhos e uma suposta mulher de branco estão entre as mais citadas. Já o espírito do poeta Olavo Bilac (1865-1918), autor do discurso de inauguração do espaço, carrega, além do teor sobrenatural, um sinal de sorte: há quem acredite que, quando o espectro do escritor é avistado próximo a uma estreia, a atração será aclamada pelo público e pela crítica. “Muita gente diz ter visto Olavo Bilac assistindo a espetáculos no Municipal e também vagando pelos arredores da Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias”, aponta o professor Luiz Antonio Simas.
Herança da guerra
Uma lenda mistura fatos militares reais com o folclore carioca sobre as diversas tentativas de invasão a partir da Baía de Guanabara. Uma das versões está relacionada às incursões francesas do século XVIII. Diz a lenda popular — e os registros históricos — que navios vindos do país europeu tiveram que passar sob o fogo cruzado das fortalezas situadas na base do Pão de Açúcar e do Morro do Pico, em Niterói. Sentinela que “testemunhou” o bombardeio às embarcações invasoras enquanto tentavam forçar a entrada na baía, o cartão-postal carioca teria até hoje marcas de balas de canhão numa de suas encostas.
São Januário amaldiçoado
Palco de disputas lendárias, o estádio do bairro de São Cristóvão coleciona personagens místicos. Após a goleada de 12 a 0 sobre o Andaraí, em 29 de dezembro de 1937, o ponta-esquerda do time, Arubinha, teria rogado uma praga ao rival Vasco da Gama: doze anos sem títulos. Para selar o feitiço, ele teria enterrado no gramado um sapo com a boca costurada. A narrativa ganhou força numa crônica de Mário Filho (1908-1966) e se perpetuou no imaginário popular. Embora não haja prova da existência da praga, o jejum do cruz-maltino entre 1938 e 1945 alimentou a crença. Mais tarde, o mesmo campo seria associado à proteção espiritual de Eduardo Santana (1934-2011), o Pai Santana, massagista conhecido por seus rituais antes das decisões. Ele acendia velas no vestiário e beijava a bandeira do clube — e, claro, virou ídolo da torcida.
Vozes na rua interrompida
Aberta em 1567 e tombada pelo Iphan em 2017, a Ladeira da Misericórdia é considerada a primeira via pública da cidade, acompanhando a expansão urbana. Seu destino mudou entre 1920 e 1922, com a demolição do Morro do Castelo durante as reformas da então capital federal. Restaram cerca de 40 metros, preservados ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso e da Santa Casa da Misericórdia. O trecho, calçado em pé de moleque por mãos escravizadas, tornou-se uma rua interrompida, quase escondida no burburinho do Centro, e é um dos últimos vestígios físicos do Rio Colonial. “As histórias de fantasmas rondam o lugar. Há quem jure ouvir gargalhadas, passos e choro de crianças ecoando entre as pedras. Outros falam da enigmática Bárbara Onça, cuja sombra vagaria por lá”, conta o professor Milton Teixeira.
Uma nova escada para Selarón
No silêncio do Cemitério São João Batista, em Botafogo, um mosaico de azulejos coloridos rompe a monotonia dos túmulos. O ossário de Jorge Selarón (1947-2013) foi transformado pela alemã Maren Engelsma numa espécie de miniatura da famosa escada construída pelo artista chileno na Lapa. Ele dizia que a obra só estaria pronta no dia de sua partida. Encontrado morto na escadaria que o consagrou, acabou sepultado sem identificação. Quando soube que havia risco de exumação e que a história do chileno poderia cair no esquecimento, Maren, que o conheceu em 2011, resolveu erguer um memorial com azulejos trazidos da Alemanha. Alguns mistérios, no entanto, cercam a homenagem, como peças que teimam em não aderir à superfície.
A bruxa do Arco do Teles
No fim do século XVIII, a portuguesa Bárbara Vicente de Urpia desembarcou na cidade cercada de rumores — entre eles, o de ter fugido de Portugal após cometer um crime. Integrada à elite local graças à proximidade com o vice-rei conde de Resende, sua trajetória tomou um rumo trágico quando passou a ser associada ao assassinato do marido e, depois, de outro companheiro. As suspeitas a levaram à marginalização. Empobrecida e doente, passou a viver nas imediações do Arco do Teles, onde ficou conhecida como Bárbara dos Prazeres. Na década de 1820, foi associada ao desaparecimento de crianças, o que consolidou sua fama de bruxa. Em 1830, um corpo encontrado próximo ao Mercado do Peixe foi apontado como sendo o dela — e os desaparecimentos cessaram.
O castelo mal-assombrado
Construído entre 1916 e 1918, o Castelinho do Flamengo, atual Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, destaca-se pelo estilo eclético e pela imponência arquitetônica. Em 1932, os proprietários Avelino Fernandes e Rosalina Feu Fernandes faleceram. Uma narrativa popular afirma que o casal teria sido atropelado por um bonde em frente ao casarão, e a filha presenciou a cena. Após a morte dos pais, a menina teria ficado sob os cuidados de um tutor, sofrendo maus-tratos e, segundo a lenda, cometido suicídio no imóvel. Tem gente que diz que as almas da família vagam por lá. “O edifício, incluindo o portão art nouveau em forma de borboleta, desperta muito interesse nos visitantes, assim como as histórias que o cercam”, explica o arquiteto Rafael Bokor, responsável pelas visitas do projeto Tour Casas & Prédios Antigos do Flamengo.
Madrugadas assustadoras no Largo do Machado
Em 1º de novembro de 1897, o jornal carioca O Paiz noticiou a suposta aparição de uma mulher sem cabeça na erma Ladeira do Ascurra, que liga o Cosme Velho à Floresta da Tijuca. Segundo a reportagem, ela vagaria durante a madrugada pelo bairro e pela Rua das Laranjeiras, parando no Largo do Machado e regressando ao lugar de origem assim que os galos começassem a cantar. A partir daquele momento, milhares de pessoas passaram a se reunir no local, abarrotando os bondes, na tentativa de avistar a assombração, mas não houve sucesso. Passados 129 anos, ainda há quem acredite na lenda urbana e rume para a Zona Sul a fim de se deparar com a figura assustadora.
Cidade imbatível
Os recordes cariocas registrados no Guinness World
Girl Power. Em 2025, Copacabana serviu de palco para o show de Lady Gaga. A cantora foi recebida por cerca de 2,5 milhões de pessoas que assistiram ao show da turnê The Mayhem Ball. Trata-se, pois, da maior plateia de um show gratuito de uma artista feminina.
Batuque colossal. Na abertura do Carnaval Fan Fest, em 20 de janeiro de 2026, 1 243 ritmistas das escolas de samba do Grupo Especial tocaram ininterruptamente por cinco minutos, formando a maior bateria do mundo.
O sonho dos partideiros. Durante um evento realizado no Parque Madureira em 2017, 260 músicos — entre cantores e instrumentistas — compuseram a maior roda de samba do planeta. Mart’nália, Diogo Nogueira e as Velhas Guardas da Mangueira e da Portela participaram.
Areias em uníssono. O cantor britânico Rod Stewart atraiu 3,5 milhões de pessoas em sua apresentação no réveillon de 1994 na Praia de Copacabana. O número representa, até hoje, a maior plateia já registrada num show gratuito.
Uma senhora virada. No réveillon de 2025 para 2026, 5,1 milhões de pessoas assistiram à queima de fogos, garantindo um selo no mais importante livro de feitos mundiais. Desse total, 2,6 milhões estavam na orla de Copacabana.
A múmia do Pão de Açúcar
Em 19 de setembro de 1949, cinco amigos, integrantes do Clube Excursionista Carioca (CEC), decidiram subir a montanha pela via batizada de Chaminé Gallotti, uma das mais desafiadoras do país. Logo no início, o grupo encontrou um sapato feminino abandonado na rocha e até brincou sobre a possível dona. Pouco depois, o clima mudou quando os escaladores avistaram um corpo magro e de cabelos longos preso pela garganta numa fenda estreita da pedra. À primeira vista, parecia uma mulher, mas o cadáver estava mumificado. No dia seguinte, polícia e bombeiros fizeram a remoção e um exame revelou que se tratava de um homem de cerca de 35 anos, cuja identidade nunca foi descoberta, nem as circunstâncias da morte. Há hipóteses sobre crime por homofobia ou transfobia, mas nada foi provado.
Em busca do amor eterno
Cenário do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, a Praia de José Bonifácio, localizada na Ilha de Paquetá, guarda uma lenda que até hoje mobiliza os enamorados. Diz o ritual que os visitantes devem se postar de costas para a rocha e atirar três pedrinhas, tentando mirar no ponto mais alto. Se ao menos uma delas se mantiver no topo, aquele que a arremessou garante uma dádiva do amor eterno. A tradição segue viva até os dias de hoje, sendo incentivada, inclusive, pelos guias turísticos. Ali perto, o píer de madeira com guarda-corpo azul foi batizado de Ponte de Saudade. Reza a lenda que um escravizado se postava diariamente no local e chorava a falta de seus parentes que ficaram na nação Benguela.
Quem matou Lili das Joias?
A judia russa asquenaze Rosa Schwartz chegou ao Rio no início do século XX e acabou inserida no universo da prostituição, como muitas das chamadas “polacas”. Sua trajetória inspira o romance Os Últimos Dias de Lili das Joias, de Samuel Punzi, ambientado na Belle Époque carioca, em meio às transformações urbanas promovidas pelo então prefeito Pereira Passos (1836-1913). A narrativa se baseia no assassinato brutal de Lili, em 1914, na Rua das Marrecas, e a consequente investigação conduzida pelo delegado doutor Cid Braune, revelando o submundo da prostituição e a presença marcante de imigrantes europeus na formação da cidade. O caso ainda desperta interesse e integra roteiros de memória como os da Necrotour no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, onde Rosa Schwartz está enterrada.
Ilustres visitantes na Pedra da Gávea
A lenda envolvendo a formação rochosa afirma que fenícios supostamente visitaram o local por volta de 1000 a.C. e esculpiram inscrições e o rosto do rei Badezir em grandes proporções. Estudos científicos provaram que as marcas têm origem no processo de erosão, mas a lenda segue pulsante. Lançado nos cinemas em 1989, o filme Os Trapalhões na Terra dos Monstros valeu-se do mito, com enredo sobre criaturas fantásticas e membros da antiga civilização vivendo dentro da rocha. As misteriosas inscrições e histórias que ligam o local a naufrágios na Baía de Guanabara também aparecem no livro Rio Secreto, de Manoel de Almeida e Silva, Marcio Roiter e Thomaz Jonglez (Ed. Jonglez), que reúne interpretações históricas e o fascínio sobre o tema.
Todas as religiões juntas
O número 380 da movimentada Rua Humaitá abriga um centro espírita com mais de quarenta anos de tradição. Na Casa do Mago, o sacerdote paraense Ubirajara Pinheiro realiza consultas e prepara magias para que os clientes obtenham amor, saúde e prosperidade. Quem passa em frente ao casarão perto da entrada do Túnel Rebouças se depara com um verdadeiro monumento ao sincretismo religioso brasileiro, já que imagens de São Jorge, Iemanjá e Jesus Cristo em grandes dimensões convivem em harmonia na fachada. Infelizmente, o espaço já foi vítima de diversos ataques por intolerância religiosa. Pouca gente sabe — ou se lembra — que, antes de se dedicar ao esoterismo, o imóvel abrigou o bar Western Club. Foi lá que Os Paralamas do Sucesso fizeram seu primeiro show, em 1982.
O tesouro do Morro do Castelo
O documentário O Desmonte do Monte (2018), de Sinai Sganzerla, revolve uma história pouco conhecida: um tesouro jesuíta teria sido soterrado quando o Morro do Castelo de São Sebastião veio abaixo, no início dos anos 1920. Marco da fundação do Rio de Janeiro no século XVI, o morro foi completamente demolido em nome da modernização da capital federal. Igrejas, casarões e grande parte da memória física da origem da cidade foram destruídos. A lenda do tesouro jesuíta ganhou força justamente nesse contexto: acreditava-se que riquezas teriam sido escondidas em túneis e galerias subterrâneas antes do desmonte. Embora nunca comprovada, a narrativa atravessa gerações e ajuda a alimentar a crendice popular em torno da demolição.
Uma praia infernal
Espremida entre o Arpoador e o Forte de Copacabana, a faixa de areia de 60 metros recebeu o nome de Praia do Diabo por causa do mar violento e imprevisível, marcado por forte arrebentação, correntezas intensas e ondas que explodem contra as pedras provocando um barulho ensurdecedor. Pescadores antigos consideravam o ponto traiçoeiro, e há registros de acidentes com pequenas embarcações no início do século passado, o que reforça a fama de infernal. Apesar do risco para banhistas, o local é procurado por surfistas, que aproveitam a força das ondas para fazer manobras radicais. A praia, oficialmente reconhecida com esse nome pela prefeitura, também aparece como Arpoador em aplicativos de navegação, o que gera confusão entre os visitantes em busca da clássica foto nas pedras com o Morro Dois Irmãos ao fundo.
Assombração nos corredores da Uerj
No campus da Universidade do Estado do Rio, no Maracanã, as histórias que circulam pelos corredores vão além da rotina acadêmica. Relatos de elevadores que param em andares vazios e portas que se abrem sozinhas atravessam gerações de estudantes. As histórias ganham força pelo passado do terreno, onde existiu a Favela do Esqueleto, formada em torno da estrutura inacabada de um hospital que nunca foi concluído. A comunidade foi removida na década de 1950, durante as obras do Estádio do Maracanã, e desapareceu no início dos anos 1960, dando lugar ao campus universitário. Há quem diga que, entre ruínas, remoções e recomeços, o que assombra os pavimentos é menos sobrenatural e mais ligado às memórias apagadas da cidade.
Ecos no Cais do Valongo
Construído em 1811 e tradicionalmente apontado como a principal porta de entrada de africanos escravizados no Brasil, o Cais do Valongo, na Zona Portuária, ficou marcado pelo sofrimento de milhares de pessoas trazidas em navios negreiros — memória que alimenta a lenda de que, à noite, é possível ouvir o som de correntes e grilhões ecoando pelas pedras. Redescoberto em 2011 e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017, o sítio também é alvo de debate histórico. O historiador Nireu Cavalcanti sustenta que não há documentos que comprovem o desembarque direto de escravizados no local, afirmando que a área teria sido voltada para o comércio negreiro, enquanto o desembarque ocorria na atual Praça XV. “Os africanos escravizados desciam na região da Alfândega, onde eram cadastrados e havia o recolhimento de impostos referentes a eles, como pintou Rugendas, em 1828”, afirma o professor.
Templo da tormenta
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, inaugurada em 1761, foi palco da aclamação de dom João VI (1767-1826) como rei, e recebeu a coroação de dom Pedro I (1798-1834) e de dom Pedro II (1825- 1891), além de casamentos e batizados imperiais. A cripta da igreja guarda os restos mortais do navegador Pedro Álvares Cabral (1467-1520). Foi também neste templo que, em 1817, a imperatriz Leopoldina (1797-1826) trocou alianças com dom Pedro I. O matrimônio, porém, não se tornou um modelo de felicidade — e a tradição popular conta que, até hoje, a austríaca ainda circula pelo sagrado edifício onde seu tormento começou. Tombada pelo Iphan em 1941, a igreja preserva um dos marcos religiosos e históricos mais simbólicos do país.
Um oásis nas alturas
Quem passa pelo número 149 da Avenida Oswaldo Cruz não imagina que, por trás do imponente condomínio, há um túnel secreto e um elevador centenário que levam a um trecho do Morro da Viúva. Pequeno e rochoso, ele delimita a enseada entre as praias de Botafogo e do Flamengo, ao lado do Morro do Pasmado. O nome surgiu em 1753, quando a área passou a pertencer à viúva do proprietário de terras Joaquim Figueiredo Pessoa de Barros. No alto da colina, há vestígios de um forte de 1863, um castelinho que dizem ser mal-assombrado e um reservatório inaugurado em 1878, hoje desativado. No local ocupado pelo edifício de luxo, há área de lazer, com piscina, churrasqueiras, quadras poliesportivas e até casinha de bonecas em tamanho real. A vista para o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara é de cair o queixo.
Tiradentes ainda está aqui
Cenário de um dos episódios mais marcantes do Brasil Colônia, o atual Museu Histórico Nacional, no Centro, era uma importante unidade militar. Foi lá que aconteceu o esquartejamento de Tiradentes (1746-1792). O líder da Inconfidência Mineira foi enforcado no Largo da Lampadosa — hoje Praça Tiradentes — e, depois, seu corpo foi salgado, retalhado e os pedaços foram espalhados pela estrada até Ouro Preto, em Minas Gerais, como forma de intimidação. Relatos dão conta de que o esquartejamento ocorreu na antiga Casa do Trem, construção do século XVIII que integra o conjunto arquitetônico do museu. Funcionários e visitantes relatam supostas aparições e fenômenos inexplicáveis nas galerias, alimentando a fama de que o local também guarda memórias macabras que vão além do episódio.
Taninha e a Fera da Penha
Neyde Maria Maia Lopes (1938- 2023) ficou conhecida como Fera da Penha ao cometer um crime bárbaro. Em junho de 1960, ela sequestrou e matou a filha de seu amante, Tânia Maria, de 4 anos. O caso gerou revolta popular e intensa cobertura da imprensa. Neyde foi presa poucos dias depois e condenada a 33 anos de prisão. Em 1975, ela deixou a cadeia por bom comportamento e viveu de forma discreta até sua morte. Se o nome da criminosa permaneceu associado à brutalidade, o da menina seguiu outro caminho no imaginário carioca. Taninha se tornou alvo de devoção no Cemitério de Inhaúma, onde foi enterrada. O túmulo é frequentemente visitado e está sempre coberto de flores e placas de agradecimento. Entre os objetos deixados estão chupetas — uma das graças atribuídas à menina seria a de ajudar crianças a abandonar o hábito.
Dê um rolé
Empresas que organizam passeios históricos pelo Rio
- Necrotour. Idealizado pela professora Samantha Lobo, o projeto consiste em visitas guiadas a cemitérios, com foco na valorização do patrimônio funerário e preservação da memória. @necrotourrj.
- Conectando Territórios. A agência de turismo de base comunitária promove tours pela região da Pequena África. @conectandoterritorios.
- Casas e Prédios Antigos. A programação do jornalista e guia turístico Rafael Bokor inclui roteiros temáticos sobre diversidade, herança africana, art déco, bares e restaurantes. @passeio_carioca_.
- Rio Antigo. Capitaneadas pelo historiador Milton Teixeira, as caminhadas exploram episódios marcantes e curiosidades históricas da Região Central. miltur@gbl.com.br ou 99886-00480 e 2527-9129.
- Portarias e Fachadas. O arquiteto e guia Chico Vartulli conduz visitas a halls e prédios históricos de Copacabana, destacando elementos arquitetônicos. vartulli@terra.com.br e chico.vartulli.
- Circuito Herança Africana. Criado pelo Instituto Pretos Novos (IPN), o percurso de cerca de 2 quilômetros destaca marcos da presença africana na cidade. circuito@pretosnovos.com.br.
- Bunker Paradies. Aos sábados, a arquiteta e artista visual Isabella Cavallero comanda um tour por edifícios construídos em Copacabana nos anos 1940 que possuíam abrigos nos subsolos. bunkerparadies.
O carro fantasma
Nem o Túnel Rebouças escapa das lendas urbanas. A história remete a 1974, quando Ubiratã Carlos de Jesus Chaves, o “Carlão da Baixada”, um dos criminosos mais procurados da época, fugia da polícia a bordo de um Chevrolet Opala preto. Durante a perseguição, ele teria perdido o controle do carro e colidido com um Fusca, provocando um acidente fatal. Desde então, motoristas que atravessam o túnel na madrugada afirmam avistar o veículo se aproximando em alta velocidade pelo retrovisor. Quando parece prestes a bater, o carro simplesmente desaparece. “Há quem diga que é preciso rezar pelas almas das vítimas para que ele suma na neblina”, diz o historiador Thiago Gomide, do perfil Tá na História, do Instagram. Sem registros oficiais que comprovem a aparição, a narrativa serve ao menos de alerta sobre imprudência no trânsito.
Latas no fundo do mar
Em setembro de 1987, milhares de latas semelhantes às de leite em pó cheias de maconha apareceram boiando no mar. O navio Solana Star, de bandeira panamenha, transportava cerca de 22 toneladas da droga em latas de 1,5 quilo. A Polícia Federal interceptou a embarcação na altura do Guarujá (SP) e, para evitar a apreensão, a tripulação lançou a carga ao mar. Os recipientes chegaram a praias como as de Cabo Frio, provocando uma “caça ao tesouro”. A estimativa é de que 15 000 latas tenham sido descartadas, mas cerca de 3 000 foram recolhidas oficialmente. Rola o boato de que ainda existem latas lacradas no fundo do mar de Ipanema, preservadas pelo vácuo e pela água gelada. O episódio, que marcou a memória coletiva do país, inspirou um longa, filmado em 2025 e estrelado por Babu Santana e Samantha Schmütz.
Maria, a Louca, não se cala
No trajeto dos bondes do VLT e do circuito de megablocos do Carnaval de rua, o Convento do Carmo, em frente ao Paço Imperial, é uma joia arquitetônica. Erguido no século XVII pelos carmelitas, o edifício abrigou Maria I de Portugal (1734-1816) desde a chegada da corte, em 1808, até sua morte. Conhecida como “a Louca”, a rainha alimenta uma das lendas mais persistentes da região. “Ela dava gritos exorbitantes, completamente alucinada. Ela já chegou ao Brasil com a loucura em nível muito avançado, e dizem que, depois que morreu, continuou assombrando o lugar”, afirma o historiador Luiz Antonio Simas. Restaurado entre 2018 e 2022 e tombado, o prédio hoje pertence à Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro e funciona como centro cultural, com visitas guiadas gratuitas e exposições. “A arte faz pensar, abre o debate e incita à troca”, diz a curadora Cecília Fortes, sobre a proposta de aproximar o antigo convento da vida cultural contemporânea.
Preparados para a guerra
Escondidos nos subsolos de prédios residenciais e comerciais, abrigos antiaéreos construídos entre 1942 e 1945 mostram como o Rio se preparou para possíveis ataques quando o Brasil declarou guerra ao Eixo na Segunda Guerra Mundial. À época, decreto assinado por Getúlio Vargas (1882-1954) obrigava edifícios com mais de cinco andares ou área superior a 1 200 metros quadrados a terem estruturas capazes de resistir a bombardeios. Projetados para abrigar famílias inteiras, esses espaços incluíam cozinhas, banheiros, armários para kits de primeiros socorros e objetos pessoais e até subestações elétricas. Um dos maiores funcionava na Galeria Menescal, com capacidade para 964 pessoas. Hoje transformados, em muitos casos, em garagens ou áreas técnicas, esses bunkers vêm sendo mapeados desde 2022 pela arquiteta Isabella Cavallero. Até agora, 46 estruturas já foram identificadas na Zona Sul.
A literária alma penada
Entre vitrais e estantes antigos, o Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio, é considerado uma das bibliotecas mais bonitas do mundo e guarda cerca de 350 000 volumes, incluindo raridades como a primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, de 1572. Frequentador assíduo do local desde a juventude, Machado de Assis (1839-1908) mantinha forte ligação com a instituição, onde a Academia Brasileira de Letras realizou sessões antes de ter sede própria. Em 1880, ele escreveu ali a peça Tu Só, Tu, Puro Amor, dedicada ao bardo lusitano. A proximidade alimentou a lenda de que o escritor carioca ainda perambula pelos imponentes salões — onde costuma ser visto, como uma presença silenciosa, entre livros e memórias.





